Colegas: Síndrome de Down é coadjuvante num filme com roteiro deficiente

O filme “Colegas” (2013) chegou às salas de exibição do Rio de Janeiro com fama relativamente grande, principalmente por causa de três acontecimentos: o primeiro refere-se ao fato de o trio de protagonistas apresentar síndrome de down; o segundo, a campanha #VemSeanPenn reforçada pelos muitos internautas, a fim de que o ator americano viesse ao Brasil para que o protagonista Ariel Goldenberg (Stalone) o conhecesse; e o terceiro, os prêmios nos principais festivais de cinema do país (Gramado e Rio de Janeiro) e alguns internacionais.

Diante desse cenário, após sair da sessão na qual assisti ao filme “Colegas”, fiquei imaginando se, diante da moda do “politicamente correto”, um posicionamento negativo quanto a esse filme faria com que eu fosse visto como um vilão nefasto. Ainda mais porque minha opinião juntar-se-ia a um conjunto de vozes pequeno se comparado com as críticas  positivas conquistados pelo filme. Mas, depois de ultrapassar o maniqueísmo inicial que me perturbava, fui capaz de perceber que o problema de “Colegas” não reside no fato de os atores principais conviverem com uma anomalia genética, mas sim no roteiro mal desenvolvido entregue a esses profissionais. Explicarei o porquê.

O filme nos conta a aventura de três jovens com Down – Stalone (Ariel Goldenberg), Aninha (Rita Pokk) e Márcio (Breno Viola) que vivem num internato especial para portadores dessa síndrome. Além dessas coincidências, os amigos têm em comum a paixão pelo cinema. Tanto é que o filme mostra que, no turno oposto ao das aulas, os três trabalhavam na videoteca do internato. E é essa paixão pela sétima arte (em especial, pelo filme “Thelma e Louise”) que os impulsiona a fugir da escola, no carro do jardineiro Arlindo (Lima Duarte) em busca de seus sonhos: Stalone quer ver o mar; Aninha, um marido para se casar e Márcio, voar.

"Colegas": filme que conta a história de três amigos com síndrome de Down tem problemas na evolução do roteiro
“Colegas”: filme que conta a história de três amigos com síndrome de Down tem problemas na evolução do roteiro

Outro problema é a narração em off feita por Lima Duarte. Embora ela funciona como um “contador de histórias” e case muito bem com a proposta lúdica e onírica do roteiro, por vezes, ela tem função muito mais descritiva do que narrativa. Torna-se didática, explicando aquilo que já é visível ou tangível ao espectador, principalmente em se tratando das intenções das personagens em fuga e da trilha sonora escolhida para embalar as cenas. Usando uma comparação grosseira, em alguns momentos a voz de Lima Duarte é similar àqueles presentes nos documentários do Discovery Channel ou mesmo a do Sérgio Chapelein no Globo Repórter.Nesse sentido, a proposta de roteiro parece ser muito simbólica e poética, podendo ter se transformado num filme espetacular. Mesmo assim, o diretor Marcelo Galvão prefere apostar num realismo fantástico que pretende ser engraçado, mas derrapa ao construir tiradas de humor completamente fora do tom que mais parecem os atuais programas humorísticos de TV ou as comédias pastelão do tipo Mr. Bean. Isso fica bastante nítido nas cenas da trama paralela, ou seja, aquelas protagonizadas pelos dois policiais atrapalhados que estão no encalço dos garotos. Por mais que o filme utilize a fantasia e os sonhos como pano de fundo, uma construção verossímil seria mais adequado, principalmente diante do desfecho dado pelo diretor.

Mesmo com problemas pontuais, deve-se reconhecer alguns méritos de Marcelo Galvão. A trilha sonora é maravilhosa, principalmente nas cenas embaladas pelas canções do emérito Raul Seixas. Para quem conhece um pouco da carreira do cantor, sabe que suas composições passam um tanto pelo terreno do realismo fantástico, constituindo-se como um ponto de interseção com o filme. Além disso, existem referências a clássicos e/ou a filmes de grande sucesso (Psicose, Blade Runner, Cães de Aluguel, dentre outros), o que é memorável para os admiradores da Sétima Arte. Mas sua maior contribuição é o fato de que trabalhar com as minorias (nesse caso, os atores portadores de Síndrome de Down) é apenas um diferencial, e não o assunto do filme. Nesse sentido, o diretor – sem utilizar a condição especial dos atores principais como elemento emotivo – consegue montar um filme humanizado, sem que nenhuma bandeira seja levantada. Ir em busca de seus sonhos é uma ação possível para todos, sejamos portadores de um cromossomo a mais ou não.