Com início promissor, Passageiros tropeça em roteiro preguiçoso e problemático

Ao longo dos anos, a sétima arte consagrou diversas ficções científicas. Em alguns casos, as obras são mais reflexivas sobre determinado aspecto da sociedade, como nos clássicos 2001 – Uma Odisseia no Espaço (1968) e Blade Runner – O Caçador de Androides (1982); em outros, voltadas para o entretenimento, como na saga Star Wars (iniciada em 1977), e em Looper (2012). Arriscando um meio termo, assim como Interestelar (2014) e A Chegada (2016), o recente Passageiros (2016) chega aos cinemas para fazer número e… só!

Hibernando na Avalon em viagem para um novo planeta colonizado pelos humanos, o engenheiro mecânico Jim Preston (Chris Pratt) e a escritora Aurora Lane (Jennifer Lawrence) despertam após uma pane abrir suas cápsulas. Acordados 90 anos antes do prazo, a dupla precisa lidar com a solidão do espaço.

Basicamente contando com três atores, o elenco é eficiente. Pratt é cheio de carisma e conquista a plateia, apesar do personagem moralmente questionável. Lawrence se mostra agradável num papel que não lhe apresenta qualquer desafio. Quando juntos, a química dos astros é suficiente para nos apegarmos aos dois. Michael Sheen complementa a trinca como o barman cibernético Arthur, sempre competente em suas aparições. Completam o elenco Laurence Fishburne, com uma participação rápida e de forçada importância, e Andy Garcia, provavelmente no trabalho mais fácil de sua carreira.

Fugindo um pouco da estrutura padrão, mas sem trazer novidade, o roteiro de Jon Spaihts se divide em quatro partes, e são nos dois primeiros atos que o filme oferece o seu melhor. Devido à desesperadora solidão, Pratt se vê convencido a tomar uma decisão egoísta e cruel. Entretanto, a situação vivida por ele nos leva a ver tal atitude, ao menos, de forma reflexiva.

E se a primeira metade é interessante, os arcos finais destroem o que fora construído até então, abusando de conveniências e clichês mal explorados. Adotando abruptamente um tom de aventura, a produção ignora a estrutura estabelecida até então e segue numa corrida pela vida, cujo desespero parece ter alcançado o próprio Spaihts. Quando os protagonistas não tinham mais capacidade de mover a trama pra frente, surge um elemento justamente para suprir as deficiências da dupla, literalmente abrindo portas para o enredo prosseguir.

E se o fato de Jim ser engenheiro mecânico funcionava ao mostrar que nem mesmo sua experiência era capaz de ajudá-los no início, o roteiro demonstra preguiça ao atribuir tal profissão. Afinal, numa nave com mais de 5 mil passageiros hibernando, é conveniente demais acordar uma pessoa com conhecimentos adequados aos momentos cruciais da trama. Além disso, somos “presenteados” nos instantes derradeiros com soluções e dramas dignos de novela das seis, como se Spaihts apelasse para o imponderável por não saber finalizar sua história.

Direção de arte e efeitos especiais são competentes. As poucas cenas passadas no espaço são bem realizadas, mas limitadas. Já o restante do filme, rodado internamente, conta com cenários enormes, excelentes na representação estética da solidão.

Apático, Morten Tyldum não traz brilho à direção. Com possibilidades de ousar nos movimentos de câmeras, se atém aos protagonistas e suas ações. Apenas duas vezes o diretor apresenta algo interessante: quando Jim sai da Avalon pela primeira vez e a câmera simula o movimento circular da nave e quando Aurora fica presa à piscina durante a perda de gravidade, criando eficiente claustrofobia.

Sem saber que tipo de filme quer ser, Passageiros abraça as alternativas esquecendo de equilibrá-las. Ignora a proposta mais reflexiva do início, mudando drasticamente o foco da produção e peca ao escolher mal os momentos de tensão. Ainda assim, consegue prender a atenção, principalmente pelo carisma de suas estrelas. Entretenimento descartável.

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João Victor Wanderley
Radialista por formação e jornalista em formação. Minha paixão pelo cinema me trouxe ao Chaplin; minha loucura, ao Movietrolla. Qualquer coisa, a culpa é d’O Chaplin… E “A Origem” é o maior filme de todos!
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Radialista por formação e jornalista em formação. Minha paixão pelo cinema me trouxe ao Chaplin; minha loucura, ao Movietrolla. Qualquer coisa, a culpa é d'O Chaplin... E "A Origem" é o maior filme de todos!

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