Como Madonna vendeu gato por lebre na década de 80

No início dos anos 80, despontava a maior diva que o mundo pop já viu: Madonna Louise Ciccone, popularmente conhecida apenas por Madonna. Hoje com 56 anos, um aspecto que não se pode contrariar sobre a cantora é a sua habilidade de leitura das necessidades do público e de adaptar-se exatamente ao que ele quer comprar. Em mais de trinta anos de carreira, Madonna se reinventa com a habilidade de um camaleão e continua chamando atenção sempre que conveniente e mantendo o status de rainha (há quem diga “deusa”) do pop.

No início de sua carreira não foi diferente e Madonna e seus produtores apostaram na ousadia: no início dos anos 80 pouco se falava abertamente de sexo no meio musical e aí surge uma garota de seus 20 e poucos anos, bonita, avassaladora, com músicas sensuais e danças eróticas, mesmo nas canções mais recatadas. Madonna imediatamente tornou-se um sex symbol por finalmente estampar o que já estava estalado na garganta do público, louco para ser cuspido para fora, há muito tempo: sexo. Certo?

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Não completamente. Não bastasse sensualizar no clipe e colocar palavras chave que remetessem a sexo em uma letra que fala com sensibilidade da descoberta do amor, e nada mais que isso, a exemplo de “Like a Virgin” (duvida? leia os versos com atenção), Madonna também utilizava-se de seu status de símbolo sexual e da temática do sexo para chamar atenção para a outras temáticas mais relevantes, tais como racismo, gravidez na adolescência, a crítica à objetificação da mulher, violência, entre outros. Pode-se dizer que ela foi, há trinta anos, uma embaixadora pop de temáticas que só agora recebem as dimensões merecidas.

Para exemplificar a minha hipótese, cito aqui três dos clipes de maior sucesso da cantora na década de 80, todos com apelo, sim, sexual, e também social.

1984 – “Material Girl” e a crítica ao machismo e à objetificação feminina

Em “Material Girl”, Madonna faz uma homenagem a uma de suas maiores referências, a atriz Marilyn Monroe, utilizando-se do cenário de um de seus filmes, “Os Homens Preferem As Loiras”. Embora a letra fale de uma mulher “material”, que preza mais por bens materiais que pelos sentimentos, no clipe Madonna deixa clara a ironia presente na canção. A cantora interpreta uma atriz que é cobiçada por muitos homens que lhe oferecem joias e presentes, mas em uma fala rápida no meio do clipe ela deixa claro que nada disso pode comprá-la. Aqui, Madonna utiliza-se da sensualidade e do sex appeal para, de forma irônica, criticar o machismo enraizado na sociedade e a forma objetificada como os homens vêm as mulheres.

1986 – “Papa Don’t Preach”, relação entre pai e filha e gravidez na adolescência

Esse clipe mescla imagens da relação da protagonista (Madonna) com o pai, desde a infância até a fase adulta, dando a entender que fora criada unicamente pelo pai, imagens do relacionamento entre a protagonista e o namorado, e (óbvio!) imagens de Madonna sensualizando em uma roupa colada que acentua suas curvas enquanto dança. A letra é o clamor de uma filha para que o pai aceite seu filho, fruto de uma gravidez não planejada. Apesar do tom sério dos versos, “Para Don’t Preach” é uma canção sensual em sua composição, Madonna faz uso de sua voz para expressar essa característica. Mesmo assim, as temáticas que permeiam são os relacionamentos contemporâneos, a relação entre uma filha e um pai, e a gravidez da adolescência – um tabu que permanece até os dias de hoje. Mais um exemplo de que, para Madonna, o apelo sexual e discussões de relevância social conseguem coexistir perfeitamente.

1989 – “Like a Prayer”, racismo, violência contra a mulher e religiosidade incompreendida

Do seu jeito nada convencional, Madonna faz nesse clipe uma homenagem à sua fé e à Igreja quando o tempo todo proclama ser guiada por Deus a fazer a coisa certa, sendo pioneira inclusive em representar Cristo na cor negra, coisa que pouquíssimos faziam naqueles idos. No meio disso, a cantora, é verdade, beija a representação de Jesus, brinca com os estigmas de Cristo e outros símbolos cristãos, e (novamente!) sensualiza dentro da Igreja usando um vestido decotado e colado para dançar. Mas, gente, é só o jeitinho dela. Por trás dessa mente que exala sexo, Madonna tem um coração gentil que conseguiu abordar, em uma das suas obras primas (Like a Prayer é minha música favorita da cantora) a questão do racismo, da violência contra a mulher e do medo que assola a sociedade de ser punido injustamente apenas por fazer a coisa certa.

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