Você conhece Anohni? E Antony Hegarty, conhece? Se não, saiba que são a mesma pessoa. A primeira vez que ouvi qualquer um desses nomes foi na semana da 88ª edição do Oscar, já polêmica pela ausência de negros em categorias mais representativas, como nas disputas entre atores ou diretores. Anohni é a primeira transexual a ser indicada pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Disputando à Melhor Canção Original, a artista não foi convidada pelo evento para cantar durante a cerimônia.

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Antony Hegarty

A organização da celebração alegou que a cantora não fora convidada por falta de tempo na programação, o que é estranho já que é comum os indicados se apresentarem ao vivo. Ou, como já ocorreu, nenhum deles subir ao palco. Já tida como racista, a Academia passa também a ser taxada de transfóbica. Toda essa situação me fez refletir sobre o comportamento humano e como costumamos ver sempre o pior lado dos fatos.

Além da já citada artista, que concorreu com a música Manta Ray, a disputa foi composta ainda por Sam Smith, com Writing’s On The Wall; Lady Gaga, com Til It Happens To You; The Weeknd, com Earned It; e David Lang, com Simple Song #3. Acontece que este último também não foi convidado para cantar no último dia 28. Porém, sua ausência parece não ter despertado interesse da imprensa ou do público. Por quê?

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David Lang, compositor da música Simple Song #3

Analisando a lista de indicados, é muito fácil perceber que os dois únicos “esquecidos” são os menos populares, principalmente comparados a Smith e Gaga, e isso deve ser levado em consideração. Não é novidade que a cerimônia vem lutando contra a baixa audiência. Esse ano mesmo registrou nos EUA o segundo pior índice desde 1974, quando o público televisivo começou a ser mensurado, ganhando apenas da transmissão de 2008. Logo, é de esperar que sejam feitas investidas que atraiam mais público.

Sumi Jo, intérprete de Simple Song #3

Sumi Jo, intérprete de Simple Song #3

As duas músicas deixadas de lado seguem um caminho alternativo ao dos artistas de grande apelo midiático, dos mainstream. É bem verdade que só do monólogo de abertura feito por Chris Rock poderia ser tirado quase o suficiente para mais dois números musicais, mas é possível (e provável) que o evento tenha preferido investir no comediante numa tentativa de se desligar da imagem de racista, se posicionar sobre as condições do mercado e atrair o público negro.

Num artigo do El País Brasil, Enrique Alpañés comenta a hipocrisia do Oscar por ter indicado Eddie Redmayne a Melhor Ator com sua interpretação em A Garota Dinamarquesa. Redmayne interpreta Lili Elbe, primeira pessoa submetida à cirurgia de redesignação de gênero. Para o jornalista, é fácil indicar um heterossexual por um papel desse porte, como já aconteceu anteriormente com Hilary Swank e Felicity Huffman, mas faltou coragem para deixar uma verdadeira transexual ser vista na cerimônia numa posição de destaque.

Estranho acompanhar essa linha de raciocínio quando, de fato, Anohni estava entre os indicados, tal qual Redmayne. Mais estranho ainda quando o ator não vence em sua categoria enquanto Sam Smith, homossexual assumido, venceu na categoria de Melhor Canção Original e dedicou a vitória aos gays. Como compreender que a festa do cinema hollywoodiano, por preconceito, não permite uma apresentação de uma pessoa trans, mas entrega um prêmio a um homossexual?

Não escrevo para defender o Oscar, não mesmo. Apenas soa incoerente que acusações tão contundentes ignorem outras justificativas plausíveis. Dois profissionais tiveram seus trabalhos desrespeitados, mas apenas um ganhou notoriedade, o que rende mais audiência aos jornais e alimenta a ira de militantes pela inclusão e igualdade entre os gêneros.

O apelo à audiência, ao mainstream, destruiu a oportunidade da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas mostrar que realmente abraça a diversidade. Ao invés disso, deu brecha para ser julgada por algo cruel que pode não ter cometido. Cabe à imprensa e ao público geral ponderar um pouco mais sobre os fatos.

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