Contracorrente: a dificuldade de viver uma relação homoafetiva numa América Latina machista

Na América Latina, é difícil encontrar longas que tratem a homossexualidade com a sensibilidade que o tema pede. No Brasil, a última tentativa foi o filme “Do Começo ao Fim” (2009), que não vingou porque contou a história de um amor homossexual entre dois irmãos com estranha superficialidade. Mas, a partir de 2010, quando o filme “Contracorrente” (Javier Fuentes Leon, 2010) entrou em cartaz e conquistou o prêmio da audiência no Festival Mix Brasil, a carência de filmes que mostrem o amor entre duas pessoas do mesmo sexo sem caricatura grotesca e preconceituosa ou sem clichês românticos sem mais nada a dizer parece ter acabado.

“Contracorrente” não poderia ser mais latino-americano: o pescador Miguel (Cristian Mercado) é casado com Mariela (Tatiana Astengo), grávida do primeiro filho do casal. Os dois vivem num isolado povoado, metonímia de uma América Latina religiosa, tradicionalista e, portanto, machista. Dentro desse contexto, o filme vai mostrando como Miguel é uma pessoa respeitada e querida na pequena comunidade, mas o espectador se surpreende quando vê que o pescador mantém uma relação extraconjugal com um outro homem, o artista plástico Santiago (Manolo Cardona). Santiago tem algumas características opostas a Miguel e também aos demais moradores do povoado, todas elas muito bem marcadas devido ao elenco com atuações convincentes, mas sem exageros. O amante do pescador provém de uma família da cidade grande (lê-se “rico”) e está bem resolvido quanto a sua sexualidade. Portanto, é mal falado por todos. Mesmo assim, Santiago e Miguel conseguem manter vivo o amor.

“Contracorrente” mostra o conflito de Miguel, que tem de decidir se “enterra” o corpo do amado como manda as tradições locais ou se continua o romance com o fantasma dele sem a reprovação das pessoas.

Mais latino-americano, impossível. Contudo, o diretor ainda faz questão de incluir mais dois elementos do nosso continente. Primeiramente, as paisagens riquíssimas – alimentadas por uma fotografia primorosa e por cenas subaquáticas de qualidade – mostram as belezas naturais. O destaque, porém, fica para o sincretismo religioso, presente nos leitos de morte tipicamente peruanos: nesse país, é feita uma cerimônia religiosa em terra e, depois, o corpo sem vida é levado até o alto mar para ser lançado às águas. Acredita-se que só assim o espírito do morto descansará em paz. Numa narrativa em que o princípio de início, meio e fim encaixa-se como uma luva ao roteiro, é essa “lenda” que tornará possível o amor de Santiago e Miguel. Podemos cogitar algumas obras que deram inspiração ao diretor Javier Fuentes Leon: “Cem Anos de Solidão” (Gabriel García Marquez – Colômbia) ou “Bom dia para os defuntos” (Manoel Scorza – Peru). Mas para nós, brasileiros, parecerá que o diretor bebeu na fonte de Jorge Amado, especialmente em “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1967). Assistam ao filme e todos entenderão o porquê de estar afirmando isso!

Certamente, “Contracorrente” é um filme pelo qual o espectador sente verdadeira apatia pelas personagens. Não se trata de julgar qual delas teria a atitude mais correta, mas “Contracorrente” leva-nos a refletir sobre a identidade de cada um e as consequências que torná-la transparente requer. Esse é daqueles filmes para se deleitar e sofrer junto com os personagens até o fim. Bem ao estilo de Caetano Veloso: “Cada um sabe a delícia e a dor de ser quem é”.

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Vinícius Vieira
Sagitariano carioca que mora em Natal. Jornalista formado pela UFRJ e UFRN. Apaixonado por cinema, praia e viagens.
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Vinícius Vieira

Sagitariano carioca que mora em Natal. Jornalista formado pela UFRJ e UFRN. Apaixonado por cinema, praia e viagens.

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