Bons filmes de terror estão cada vez mais escassos. As histórias, geralmente com baixos orçamentos, carecem de roteiro e produções decentes, e acabam por cair na mesmice, e muitas vezes na falta de noção.

No Brasil há uma grande produção no gênero, mas relegada ao underground, a filmes na veia trash/gore, com produções e roteiros toscos, de baixíssimo orçamento, que muitas vezes desperta risos ao espectador. O que, para esta vertente em questão, não é errado.

Ninjas (2010), de Dennison Ramalho (Amor só de Mãe), é sem dúvidas um caso à parte. Um curta metragem que tem não só uma boa narrativa, mas também é impecável tecnicamente.

O filme conta a história de Jailton (Flávio Bauraqui), um inexperiente policial que, em uma incursão numa favela, assustado, acaba matando um garoto inocente. Até aí, o curta parece ser mais um filme sobre violência suburbana. No entanto, após o ocorrido, o protagonista passa a ser atormentado, não só pela culpa do seu ato, mas também pelo fantasma do jovem. As cenas em que o espírito assombra a casa de Jailton são dignas de congelar a espinha de qualquer um, remetem a filmes de terror japoneses, com clima sombrio e efeitos sonoros que contribuem para o susto de quem assiste. Interessante é que o personagem não sofre solitariamente, não é o único a ver o garoto, sua família também é afetada.

Para ajudar Jailton a enfrentar o tormento por que passa, seus amigos de corporação são chamados. O grupo de policiais vai até o protagonista e diz que vai livrar ele da agonia, então o levam para um lugar ermo, onde planejam uma ação. Mesmo neste local a assombração persegue o personagem. Seus companheiros sabem, mas não têm medo.

É aí que conhecemos os Ninjas, do título do filme. São uma espécie de milícia que agem paralelamente à Polícia. O chefe do grupo é o Capitão Vargas que diz para Jailton que naquela noite ele se transformaria em um membro da equipe.

A partir daí, segue-se a sequência mais perturbadora do curta. Jailton e seus amigos adentram um típico boteco de periferia, onde se encontram algumas pessoas bebendo, lá mandam todos saírem e prendem um casal. Então começa uma sessão de horrores, onde as vítimas são barbaramente humilhadas e torturadas (quando digo barbaramente, não estou sendo empolgado, tive a oportunidade de assistir em um festival e presenciei várias pessoas saindo da sala por conta da brutalidade das cenas). Os Ninjas seriam pessoas normais, não fosse sua aparência monstruosa por debaixo de máscaras que usam.

 

 

Durante todo o curta o personagem de Bauraqui é visto como um temente a Deus, e está sempre assustado. É neste cenário caótico que ele será confrontado com todos os seus medos e crenças. O desfecho do filme é sensacional.

Esteticamente o filme também se destaca de outras produções nacionais, tem uma belíssima fotografia e planos muito bem executados. Vale uma salva de palmas para o áudio, que exerce função primordial durante a trama.

O filme foi muito premiado, nacional e internacionalmente, chegando a levar prêmios em Gramado e em festivais temáticos nos Estados Unidos, Canadá e Romênia.

Ninjas acerta, e muito, ao trazer o horror para a realidade violenta do brasileiro. A fantasmagoria e obscuridade se misturam com a crua barbárie policial, já tão explicitada em outras obras. Dennison Ramalho com certeza já é referência no terror nacional, ao unir qualidade técnica e um roteiro assustador e chamativo. Não à toa co-roteirizou o longa Encarnação do Demônio, terceira parte da trilogia do mestre José Mojica Marins, o Zé do Caixão.

Ninjas pode ser visto em HD no Vimeo (clique aqui). Tirem as crianças e hipertensos da frente do PC.

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