Cormac McCarthy

Cormac McCarthy: profeta de um mundo órfão

Cormac McCarthy
Cormac McCarthy

Era de sangue alemão e irlandês. Seu nome era Lester Ballard. Um filho de Deus. Não muito diferente de você, provavelmente“. Assim anuncia o narrador não só o mais novo filme de James Franco, o agora faz-tudo de Hollywood (e tudo ao mesmo tempo), mas também são as palavras marcantes de uma das primeiras obras do escritor americano vivo mais cultuado, Cormac McCarthy. O filme adapta o livro Filho de Deus, que segue a vida de um homem mentalmente perturbado, desapossado de suas poucas terras, num Sul dos Estados Unidos ainda vivendo o trauma do fim da Guerra Civil Americana. Banido da sociedade em que ele arrancava os meios de sobreviver, pouco a pouco Ballard regride ao homem das cavernas. Psicopata refugiado, passa a vingar-se, roubar, matar, estuprar… gente viva e morta. De fato, uma história para fortes, a degeneração de um homem a ponto de se tornar assassino e necrófilo, um filho de Deus, ainda assim, como é intitulado. Mas este foi só o início de uma longa caminhada, a passos lentos, que a literatura de McCarthy narra, da decadência brutal humana, inevitavelmente rumo ao abismo.

Porém, o que intriga é que o cinema americano comprou a ideia de apocalipse moral do escritor. Sim, Cormac McCarthy era elogiado e lido no meio acadêmico, principalmente após os lançamentos de Meridiano de Sangue (uma desconstrução pesada e violenta da conquista do oeste americano, por meio de uma das mais ricas prosas do último século) e dos três livros que compõem a “Trilogia da Fronteira” (Todos os belos cavalos, A Travessia e Cidades da Planície), durante os anos oitenta e noventa. Sempre retratando a violência e os conflitos humanos na região fronteiriça entre os Estados Unidos e o México (interessante que McCarthy nasceu na região mais privilegiada do país, a da Nova Inglaterra, em Rhode Island, mas a trocou por uma vida reclusa num rancho do Novo México, estado com um dos piores índices de desenvolvimento humano e mais violentos dos Estados Unidos; provavelmente para estar próximo da matéria-prima de sua obra).

"Onde os fracos não têm vez"
“Onde os fracos não têm vez”

Após esse período de apreço entre os ditos literatos de seu país e amantes de uma anacrônica e inadequada rotulagem western a qual era submetida sua prosa, deu-se a reviravolta (ou o reconhecimento). Isolando-se uma adaptação mal-feita de Todos os belos cavalos, estrelado por Matt Damon e Penélope Cruz, que aqui no Brasil saiu com o título de Espírito Selvagem, em 2000, foi com os irmãos Coen que o mundo conheceu o recluso escritor-caubói americano. A adaptação do livro Onde os velhos não têm vez, que virou o filme Onde os fracos não têm vez (2007) – tanto livro quanto filme: sensacionais -, rendeu Oscars de melhor filme, direção, ator para Javier Bardem, e, claro, holofotes para McCarthy. Holofotes em cima de suas obras. O romance nos mostra um outrora invencível xerife texano a acompanhar as mudanças que ocorrem em seu país durante o início dos anos oitenta, quando o tráfico de cocaína e heroína e a violência nos Estados Unidos se intensificaram. O já velho xerife, no filme interpretado por Tommy Lee Jones, agora só observa, impotente, a derrocada e as transformações macabras num país em que ele não se reconhece mais.

Foi como um rompimento de uma represa, e uma enxurrada de adaptações de seus livros.

Vendo o potencial cinematográfico da obra de McCarthy, logo depois o próprio Tommy Lee Jones dirigiu e atuou na adaptação de The Sunset Limited, que conta também com Samuel L. Jackson. O Conselheiro do Crime, com um elenco super estrelado, dirigido por Riddley Scott, foi às telas recentemente. Filho de Deus está perto de sua estreia, e, além disso, o mesmo James Franco já demonstrou interesse em levar ao cinema Meridiano de Sangue, o que os fãs da obra consideram impossível, devido à violência do épico sangrento – isso mesmo, violento mesmo para os padrões de quem estamos falando. A Estrada, seu livro mais recente (que o fez conceder sua primeira entrevista à televisão, para a apresentadora Oprah, na sala de sua casa), ganhador do Prêmio Pulitzer de ficção, talvez seja o fim mais adequado de sua obra (embora já tenham anunciado um livro a vir que seria o primeiro em que McCarthy retrata o mundo por uma perspectiva de uma personagem feminina), e também virou filme pelas mãos de John Hillcoat, com Viggo Mortensen no elenco.

"A Estrada"
“A Estrada”

Razões de ser o fim mais adequado de sua obra? A Estrada não se passa na fronteira-sul americana. O livro é a consumação de todos os presságios das obras anteriores de Cormac McCarthy. Um ambiente pós-apocalítico, em que pai e filho tentam a todo custo sobreviver, em meio ao que já nos foi mostrado, as trevas da condição humana. Uma violência inexorável que rege o mundo. Se no início de seu trabalho, nos oferecia a visão de uma sociedade de filhos de Deus, a razão disto é que caminhamos órfãos numa terra sem redenção. Como é dito pelo pai-personagem, em A Estrada, “Não há Deus, e nós somos seus profetas“. É esta, a visão do abandono, sem consolo, que nos últimos cinco anos alguns corajosos realizadores de Hollywood levaram para o cinema, incitando uma reflexão muito maior do que robôs ou alienígenas destruindo prédios de metrópoles.

Entretanto, nem tudo é sangue e trevas. A prosa de Cormac McCarthy, acompanhada de uma angústia pessoal da qual tenta se livrar, sempre nos mostra um caminho estoico, a exemplo de Billy Parnham, personagem de A Travessia e Cidades da Planície. Geralmente personagens solitários e observadores, com uma descrição minunciosamente poética das paisagens e da natureza que os cerca, apesar do tom melancólico de derrota, do pessimismo, destes órfãos que aguardam por alguma intervenção divina em meio a miséria humana, e não recebem.

É uma tarefa difícil indicar por onde começar a ler McCarthy, visto que sempre haverá o choque, para o bem e para o mal. Pela maior chance de estarem disponíveis numa livraria próxima e pelo bom entendimento causado pela leitura emendada dos dois romances, recomendo primeiro Onde os velhos não têm vez (2005) seguido de A Estrada (2006), ambos pela editora Alfaguara. Só para falarmos de um começo.