Tenho escutado opiniões bastante divergentes sobre a continuação da saga da empresária Alice, interpretada por Ingrid Guimarães, e dirigida por Roberto Santucci. Confesso que não gostei nem mesmo um pouco do primeiro filme, lançado em 2010. Achei apelativo, pasteurizado ao extremo e bastante escrachado, mesmo admirando bastante Ingrid Guimarães na qualidade de comediante. Contudo, fosse por estar de melhor humor, ou por realmente ter existido uma evolução no roteiro da trama, gostei bastante de De Pernas Pro Ar 2, que, considerando o que se propõe a fazer, faz muito bem.

Ingrid Guimarães e Bruno Garcia interpretam o casal Alice e João

Criticando a crítica, é importante ressaltar que não devemos tentar encontrar uma obra de arte de profundidade e brilhantismo narrativo em um filme de comédia cujo objetivo é fazer as pessoas rirem. Cada gênero é um gênero e intenciona um objetivo determinado e uma reação de públicos diferenciados. Contudo, quando criticamos um filme, seja qual for o seu gênero, devemos analisar se ele conseguiu atingir o objetivo proposto e se, a partir do que se propõe, realizou um bom trabalho.

O segundo capítulo (sou capaz de apostar que outros virão) da história de Alice continua apelativo e continua pasteurizado. A grande diferença é que pude notar tudo isso com uma sutileza a mais, quase inexistente no primeiro filme, o que o torna bem menos escrachado. Ao contrário, o humor do filme tem bom gosto, é pouco previsível e agrada, de modo geral. Sou suspeita a falar, acho Ingrid Guimarães uma das melhores humoristas desse país, e penso que ela case perfeitamente fazendo a linha Carrie (personagem de Sarah Jessica Parker em Sex and the City).

Tata Werneck e Luis Miranda fazem personagens quaternários no filme

Contudo, em matéria de personagens engraçados, creio que Ingrid tenha sido a única que atingiu a média na produção. Maria Paula é terrível, e será terrível sempre. Fiquei frustrada com a pouca participação de Tatá Werneck, que poderia ter trazido muito mais qualidade humorística ao filme. Por sorte, Ingrid faz jus ao título de “protagonista” e aparece o tempo todo, dessa forma, não há tempo para o espectador se frustrar com humoristas que pouco convencem.

Fugindo ao núcleo cômico, há atuações e atuações. Bruno Garcia (João, marido de Alice) é um bom ator e equilibra um pouco o filme. O ator que faz o filho de Alice (que já é um personagem extremamente entendiante), por sua vez, está no nível já esperado de jovens atores brasileiros. Querendo ou não, em termos gerais, temos uma precariedade de atores infanto-juvenis e este em questão (cujo nome não sei e não me interessa saber), está medíocre no filme e não ajuda nem um pouco na tentativa de abrilhantar ao mínimo o seu personagem – chato e invisível.

À esquerda, Cristina Pereira (Rosa) ajuda com o bom humor da trama

No que diz respeito ao roteiro e à narrativa, estão muito mais dinâmicos, criativos e interessantes que o primeiro filme, embora seja notável a tentativa de enquadramento aos padrões de comédia hollywoodianos. Confesso que isso não me agrada muito. Penso que tenhamos um cinema de comédia brasileiro e que ele seja bom o bastante. Mas admito ser  importante a internacionalização da obra e penso que essa seja a esperança da produção, que está no mesmo balaio de gato de Se Eu Fosse Você, com Glória Pires e Tony Ramos. A coisa está tão explícita que Alice e sua franquia de sex shop desembestam rumo a Nova Iorque, símbolo da “americanização” de tudo no mundo.

Algumas cenas são bastante engraçadas e criativas. Enquanto outras deixam bastante a desejar. Exemplo positivo: Alice meio bêbada e meio drogada tentando vender o conceito do seu sex shop para investidores é memorável. Exemplo negativo: Uma das cenas finais do filme, em que Alice e Marcela (Maria Paula) discutem em meio a inauguração da loja. A ideia faz sentido e parece engraçada. A cena, gravada, ficou um lixo.

Em geral, De Pernas Pro Ar 2 é um filme para rir. E, sendo esse o seu intuito, cumpre bem a tarefa. Nada genial, nada filosófico, passa longe do título ambicionado de “filme de arte”. Mas é engraçado. E diverte. Se é esse o seu objetivo, caro espectador, corra para os cinemas e não perca a oportunidade de ver um bom filme de comédia brasileiro – peça rara nos últimos tempos.

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