Deadpool 2: menos surpreendente e mais engraçado

A subversão do estilo de filmes de super-heróis e, principalmente, a estrutura narrativa deste subgênero colocaram Deadpool (2016) numa posição de destaque em Hollywood. Suas características próprias não só dão identidade como também se tornam cativantes à plateia, que encontra uma alternativa em meio a tantas produções genéricas que chegam aos cinemas. Além disso, tendo custado US$ 58 milhões e faturado pouco mais de US$ 783 milhões, era inevitável uma continuação.

Em Deadpool 2 (2018), Wade Wilson (Ryan Reynolds) precisa enfrentar o perigoso Cable (Josh Brolin), um mercenário que veio do futuro para matar Russell (Julian Dennison), uma criança mutante muito poderosa e temperamental.

Ocupando a função que havia sido de Tim Miller, David Leitch é o responsável pela direção desta sequência. Com uma longa carreira de dublê e tendo conduzido o eficiente Atômica (2017), Leitche surge como uma opção adequada para o trabalho.

As ótimas cenas de ação trazem pancadaria e perseguições em escalas bem maiores que as do filme anterior. São visualmente compreensíveis e ágeis, com um ritmo frenético que, infelizmente, destoa do resto. O primeiro ato, apesar de ser aberto com uma compilação de missões do protagonista, é um pouco mais arrastado, ganhando fôlego no decorrer da projeção.

O filme traz um tom mais pesado, contendo violência bem mais gráfica, piadas de teor sexual e palavrões. Isso é positivo, já que está totalmente de acordo com a obra original. A violência aqui jamais é explorada com exagero, sempre sendo coerente com a personalidade das personagens. Leitch sabe administrar humor e violência, criando situações que funcionam justamente pela estranheza e, principalmente, pela mente doentia de Wade.

O roteiro de Rhett Reese, Paul Wernick e Ryan Reynolds favorece o humor acima de qualquer outra coisa. Por um lado, faz dessa continuação bem mais engraçada e muito antenada na cultura pop, referenciando uma infinidade de coisas. Por outro, prejudica o desenvolvimento de personagem. Apenas Deadpool é complexo ao ter que lidar com o pesar e com dilemas morais que lhe são impostos. Dá pra se dizer que Cable chega perto de um arco dramático bem construído, já que ele apresenta profundidade ao não ser apenas como uma pessoa vingativa. Porém, não tem tempo para ser melhor desenvolvido.

Quanto à história, ela consegue ser inferior à anterior, chegando a se parecer com um apanhado de esquetes ou uma junção de episódios bem costurados por um arco central. Isso não chega a ser necessariamente um defeito aqui, já que o filme tem essa proposta despretensiosa e é assumidamente um escape, mas um ponto que enfraquece a continuação.

O elenco funciona bem. Morena Baccarin tem excelente química com Ryan Reynolds; Zazie Beetz tem carisma e presença como Domino; T.J. Miller tem ótimo timing cômico em suas curtas aparições; Karan Soni ganha mais espaço e se mostra hilário como Dopinder; e Josh Brolin constrói um Cable coerente e crível, se tornando um bom contraponto ao anti-herói falastrão. Mas o destaque é mesmo, no final das contas, Reynolds.

O ator está visivelmente se divertindo, se entregando inteiramente ao papel. Ele é a pessoa perfeita para fazer esse tipo de personagem, esbanjando propriedade e carisma. É muito difícil saber quando ele está improvisando e quando segue o roteiro, tamanha naturalidade em cena.

O ponto mais fraco do elenco fica a cargo de Julian Dennison como Russell. O garoto até tem carisma e funciona ao lado do protagonista, mas seu papel pouco oferece além de um mutante poderoso e estourado.

Deadpool 2 consegue a proeza de ter uma trama inferior a de seu antecessor, mas se mostra ainda mais engraçado, tem melhores sequências de ação e se firma como um entretenimento divertidíssimo e bem realizado. Não tem mais o frescor de novidade e até recicla piadas, mas o tom de deboche é bom demais e nos sustenta sorridentes por toda a produção.