Submersão: entre o amor, o propósito, o poder da mente e o que nos mantém sãos

O que move um ser humano? O que nos faz acordar todos os dias e nos sentirmos, não apenas vivos, mas confortáveis e dignos em nossa própria pele? Alguns diriam que o mote de suas existências é um propósito profissional. Outros, mais poéticos, mencionariam a força do amor. Há quem cite a união familiar. Ou, ainda, uma utopia social a ser perseguida.

Imaginemos pois a essência do ser humano como um organismo mantenedor de várias “gavetas”, ocupadas por todos os aspectos da vida em que há certa consistência e completude. Pode-se dizer que todos os elementos que ocupam cada repartimento são essenciais para a manutenção do equilíbrio do organismo maior. E qualquer alteração no que se tem como a “unidade harmônica” será sentida – muito embora possa ser, em casos ou outros, readaptável.

Em uma viagem psico-filosófica que me permiti realizar enquanto assistia a “Submersão” (Wim Wenders, 2018), essa associação pode ser feita às vidas da exploradora Danielle Finders, ou Danny, interpretada com discrição e genuíno brilho por Alicia Vikander, e do empreiteiro idealista James Moore, a cargo do sempre excelente James McAvoy.

Não é tarefa fácil falar sobre uma obra que, para alguns, pode ser resumida à simplicidade do mote de uma história de amor com entraves (e por esse motivo, se torna universal), e para outros, mais sensíveis, pode alcançar a profundidade das mais ocultas camadas do oceano, que são de interesse da pragmática Danielle. Por esse motivo, limitarei esta crítica a tentar pontuar-lhes aspectos que me afetaram e que, poderão, talvez, aguçar o curioso por cinema que aqui me lê.

O enredo é, a priori, simples: um casal de férias acaba por se encontrar, envolver-se e, consequentemente, apaixonar-se em um lugar paradisíaco cuja localização geográfica pouco importa para o que se coloca em questão. Após o que parece, em tempo diegético, algo em torno de uma semana (talvez mais), mas o suficiente para que se trave uma conexão apaixonada, fortalecida e única, James parte em trabalho para a África, aonde é capturado e sequestrado por um grupo radical jihadista, enquanto Danny se prepara para uma missão pioneira, e talvez suicida, submersa na camada mais longínqua do mar Ártico. Enquanto James tenta manter-se vivo e são em um contexto nada favorável, idealizando o momento em que retornará à companhia da amada, Danny questiona o sentimento de seu companheiro que deixara de responder qualquer forma de contato.

O filme leva a assinatura de um dos cineastas mais sensíveis da atualidade. Responsável pelas obras-primas “Asas do Desejo” e “Janela da Alma”, apenas para manter a concisão na lista, Wim Wenders tem a habilidade de desenvolver um tratado psicológico partindo de situações que podem ser consideradas simples, e até cotidianas. Com especial atenção para a sutileza nas atuações e o zelo nos diálogos, “Submersão” não foge à regra e, mesmo com um ritmo lento, prende a atenção por atingir a parte mais particular, íntima e sensível de cada um de nós. Conexões fortes e inexplicáveis, instinto de sobrevivência, crenças humanizadas e uma discussão silenciosa sobre propósitos de vida são responsáveis por nos manter envolvidos.

A escolha das paisagens (seja o magnífico cenário do encontro do casal; a crueza do cativeiro e a pobreza das cidades africanas retratadas; a imensidão e escuridão claustrofóbica do oceano), o ritmo cadenciante da obra e a trilha sonora discreta e adequada funcionam com harmonia no todo. Há quem venha a questionar uma certa abertura no ato final. Quanto a mim, todas as ações foram suficientes, afinal, “para bom entendedor, meia palavra já basta”.