Girls just wanna have fun: protagonismo feminino ocupa o ecrã

“That’s all we really want… some fun.” Cyndi Lauper

Os movimentos de protesto em festivais, premiações, e demais ambientes sobre os quais recaem holofotes, que clamam pela valorização feminina dentro e fora das telonas começam a, aparentemente, exibir resultados. Dos filmes a que assisti no último mês, pelo menos 50% apostam no protagonismo feminino. Não se pode dizer que a opção é lapidada e tratada com prudência em todos, mas os números por si só já representam um avanço. Aos curiosos, elenco a lista: Tully, Uma Dobra no Tempo, O Orgulho, A Barraca do Beijo (Netflix), Oito Mulheres e Um Segredo e Do Jeito que Elas Querem. Para este texto, são as características narrativas dos dois últimos citados que me interessam.

A despeito de falhas técnicas e roteiros anêmicos, que poder vir a ser apontados nas duas obras de comédia (a primeira com mistos de ação, e a segunda com toques de drama), é preciso ressaltar uma característica rara e peculiar que, acredito, pode ser um caminho acertado para as produtoras que conseguirem visualizar o óbvio: optar pela representação de uma visão feminina do mundo (em vez dos estereótipos que partem de um olhar masculino e que todos, homens e mulheres, acabam automaticamente reforçando, ainda que pessoalmente não o credibilizem) pode ser um tiro certeiro não apenas no âmbito da consciência social, mas também pela ótica comercial, uma vez que melhor dialoga com o público consumidor predominante de cinema: mulheres.

Não precisamos de um pênis

Em Oito Mulheres e Um Segredo, que pode ser considerado um spin-off da franquia Onze Homens e Um Segredo, o atrativo é indubitavelmente o elenco feminino de peso, que conta com “grifes” como Cate Blanchett, Helena Bonham Carter e Sandra Bullock. Não obstante, no filme, embora presentes como meros artigos decorativos da narrativa, homens são os últimos dos detalhes a preocuparem as personagens, que estão mais interessadas em usarem suas competências (que vão desde a habilidade de mentir e ludibriar até a capacidade de manusear joias e driblar sistemas eletrônicos) para cometerem um grande crime. Convém dizer que essa posição de delinquente também é raramente atribuída sem pudores a mulheres no cinema, sendo mais frequente a sua associação com algum motivo passional ou sob a influência de uma mente masculina.

Helena Bonham Carter, Anne Hathaway, Sandra Bullock, Cate Blanchett, Rihanna, Mindy Kaling, Sarah Paulson e Awkwafina são as protagonistas da história

O filme, enquanto narrativa, é despretensioso e por vezes até descuidado. Mas ganha a simpatia do público por focar na capacidade das mulheres de usarem suas habilidades, vantagens, e o trabalho em equipe (homens não são aceitos) para um objetivo em comum. E, claro, todo o percurso é permeado por cumplicidade e muita diversão. A lição que fica é: a despeito da imagem que o cinema comercial esforça-se para sustentar há décadas, as mulheres podem ser leais e trabalhar juntas, em vez de rivalizarem; elas podem sustentar uma história e uma relação sem ter uma figura masculina como foco; e elas podem ser hackers, “trombadinhas”, traficantes, ladras e senhoras do crime, sem necessariamente assumirem uma postura masculina para validação.

Quando relacionar-se é um ato de revolução

Do Jeito que Elas Querem, por sua vez, ganha em qualidade narrativa, por gerar mais facilmente identificação e empatia, mas pode soar problemático na posição de filme com temática de libertação feminina de suas amarras sexistas. Isso porque, a uma primeira conferida desatenta, pode parecer se tratar de um filme em que quatro mulheres maduras (as personagens já passaram da casa dos 60) procuram “consertar” suas vidas emocionais e, para isso, concentram forças em buscar relacionamentos. Mas basta um pouco mais de sensibilidade na análise da obra para saber que não é bem assim. O longa vai além.

A princípio, cabe ressaltar a importância que se tem roteiros que destaquem atrizes cuja pele não consegue mais passar por menos de quarenta anos. Em Hollywood, já se esboça uma campanha pela valorização dessas profissionais, que veem seu valor cair abruptamente após certa idade. Muito além da necessidade de manter um grupo no mercado de trabalho, a campanha nos lembra que não há papeis porque não há muitos filmes com personagens na terceira idade, em uma sociedade que paradoxalmente concentra cada vez mais pessoas idosas. Sob essa perspectiva, o cinema falha miseravelmente na proposta de ser uma representação da sociedade.

Diane Keaton, Jane Fonda, Candice Bergen e Mary Steenburgen compõem o elenco

Além disso, falar sobre sexo e relacionamentos na terceira idade ultrapassa a questão da “necessidade de se ter um homem”. É, verdadeiramente e principalmente, sobre quebrar tabus. No filme, as situações são diversas: a executiva que nunca casou, por opção, e começa a se dar a chance de viver um amor; a mulher casada há mais de trinta anos que quer voltar a ter uma vida sexual; a recém-viúva que se vê no impasse entre alimentar uma nova paixão e corresponder às expectativas das filhas; e a separada que ocupa um cargo de destaque na sociedade e precisa decidir entre viver novas experiências sexuais iniciadas em um site de relacionamento, ou manter a pose.

Assim, nenhuma das protagonistas busca a validação masculina, mas apenas a liberdade dos estereótipos que lhes foram atribuídos – seja pela sociedade ou por si mesmas. Um caminho interessante para agradar a gregos e troianos: alguns sairão emocionados com o que pensam ser uma comédia romântica sensível; outros, conseguirão ler as entrelinhas e perceberão que, na verdade, é o amor próprio o foco da obra, e a tentativa de resgatá-lo, mesmo na fase da vida em que estamos condicionadas a vê-lo esvair-se.