Jurassic World – Reino Ameaçado: apenas uma nova embalagem

Traçando um paralelo entre a franquia Jurassic Park e seus próprios filmes, podemos dizer que Steven Spielberg é o equivalente a John Hammond, responsável por dar vida ao parque, e que o filme de 1993 seria o DNA pré-histórico que permitiu a criação de novos dinossauros/filmes. Assim, tudo o que foi visto posteriormente soa como uma tentativa de replicar a experiência de 93, de recriar e recombinar espécies, condição que não escapa ao novo capítulo da franquia.

Em Jurassic Park – Reino Ameaçado (2018), um vulcão prestes a entrar em erupção ameaça os dinossauros resistentes do fracassado parque do filme anterior. Enquanto algumas pessoas tentam evitar uma nova extinção, outras visam uma forma de lucrar.

O roteiro de Derek Connolly e Colin Trevorrow, que largou a direção para uma aventura infrutífera na saga Star Wars, é uma espécie de recombinação de tudo o que foi visto anteriormente. Se, por um lado, isso mantém os padrões da série, por outro amarra o novo filme, impedindo que ele tenha vida própria. É como se os padrões estabelecidos fossem as cercas do parque que tentam conter a natureza de suas atrações.

Apresentando uma estrutura narrativa muito similar a de O Mundo Perdido – Jurassic Park (1997), o roteiro insiste na cansada ganância de comercialização dos animais, numa busca sem sentido de lucro. Também volta à pauta a ideia de manipulação genética para criar novas espécies.

Além disso, o roteiro ainda sofre de facilitações narrativas para que a história siga exatamente o caminho esperado. Algo inesperado, ou imponderável, sempre acontece, como algum dinossauro que surge do nada para conter uma ameaça – seja para abrir passagem ou para tirar um predador maior do caminho – ou um dos animais abrir, acidentalmente, um elevador com o movimento aleatório da cauda só para… Enfim.

Essa sensação de Deus Ex Machina, de elemento que fere a lógica narrativa só para chegar a alguma conclusão, também é reforçado pela direção de J.A. Bayona, que procura enquadramentos fechados em momentos cruciais para que, quando necessário, algum elemento “posicionado fora do enquadramento” possa surgir e virar o jogo.

Já que falei em Bayona, é preciso dizer que seu trabalho é mais interessante que encontrar maneiras de solucionar os entraves da narrativa. Com uma estética apurada, o diretor consegue injetar alguma “novidade” à série. O espanhol entrega uma atmosfera de terror digna dos clássicos de monstros. A forma como apresenta perigo às personagens, trabalha a tensão e dá ar aterrador a algumas criaturas é instigante e muito eficiente. Não são só os sustos que nos impactam, mas o clima da situação.

Além disso, a fotografia de Oscar Faura reforça o estilo do diretor ao usar a luz como personagem. Por vezes a tela escura é repentinamente iluminada por alguma fonte passageira de luz, nos permitindo ver o contorno da ameaça que logo desaparece. Dá uma sensação de predador se preparando para dar o bote na caça. A fotografia ainda auxilia na nostalgia ao recriar alguns enquadramentos que remetem ao filme original, como o retrovisor e a pegada na terra molhada.

Os efeitos especiais são bem eficientes, principalmente quando a produção decide filmar os dinossauros de perto. A utilização de Animatronics, dispositivos robóticos que simulam seres vivos, dá textura aos bichos, tornando-os palpáveis e convincentes.

No elenco, Chris Pratt tem mais liberdade para a comédia, mostrando eficiência ao investir no humor físico. Por outro lado, Owen é quase um Jack Bauer jurássico, capaz de trocar porrada com vários homens ao mesmo tempo e de peitar uma monstruosidade de instinto assassino sem titubear.

Já a Claire de Bryce Dallas Howard está mais eficiente em cena, mais útil e menos sexualizada. Justice Smith funciona como o alívio cômico Franklin, Geraldine Chaplin confirma presença em mais um trabalho de Bayona, na pele de Iris, e Toby Jones é desperdiçado como Mr. Eversol. Jeff Goldblum, em participação especial, reprisa seu papel de Ian Malcolm.

Jurassic World – Reino Ameaçado é um entretenimento que funciona como escape. Aposta na nostalgia e na boa estética de seu diretor, mas não consegue se libertar das prisões impostas pela franquia ou fugir de situações clichês desnecessárias. Mesmo tentando ter identidade própria, acaba sendo mais do mesmo.