“Vingadores: Guerra Infinita”: Thanos e o prenúncio da transformação no universo Marvel

Essa resenha não oferece nenhum SPOILER do filme, leia sem medo.

Se há algo positivo no infindável número de filmes da Marvel é a sua não-proposital similaridade com a realidade. Obviamente não falo de seres super-poderosos habitando o nosso meio. Mas sim da dificuldade em se colocar um ponto final na história: cada “final feliz” é na realidade apenas um ponto em um contínuo histórico que sempre evolui, com altos e baixos. Assim como na vida real, o fim de uma guerra normalmente lança as bases para a criação de novos motivos para a guerra seguinte.  A Marvel aprendeu muito bem a usar essa premissa, e Vingadores: Guerra Infinita (Avengers: Infinity War) é um capítulo interessante e apoteótico neste universo que culmina o que vimos até aqui e lança a promessa de transformação acerca do que virá pela frente.

Vingadores: Guerra Infinita não é apenas mais um ponto em um contínuo de histórias da Marvel, mas um momento de mudança. Já são planejados 20 filmes após isso e o que acontece neste e no próximo filme certamente ditará o rumo do Universo. Guerra Infinita é um momento de transformação, parte da conclusão de uma saga,  cheio de surpresas, reviravoltas e consequências (diferente dos outros filmes). Sim, o mesmo humor está lá, salpicado do início até próximo do final. E ao final… o silêncio quando o letreiro final começa a surgir é algo perturbador.

Pois estamos aqui na primeira parte da resolução da saga, então este é o ponto em que Han Solo está congelado em Carbonita e a rebelião em fuga, este é o momento em que Frodo e Sam resolvem se desprender da Sociedade do Anel, enfim. É a primeira metade de um filme em duas partes e faz isso com satisfação e algum nível de brilhantismo.

Os irmãos Russo que assumem a direção dos Vingadores no lugar de Joss Whedon trazem a mesma competência já demonstrada nos dois últimos filmes do Capitão América e mesmo em sua série de tv Community (2009-2015) conseguindo equilibrar os diferentes núcleos e dezenas de personagens de uma trama que acontece simultaneamente em vários pontos do universo. Aos fãs da Marvel, as diferentes combinações nos grupos de heróis não desapontam, e mesmo combinações improváveis funcionam tão bem que certamente levarão a uma nova e original safra de camisas estampadas.

Não entrarei em detalhes acerca da trama pois acredito sinceramente que isso poderá atrapalhar a sua diversão (cuidado com o que lê por aí). Suficiente dizer que Thanos finalmente sai da cadeira e parte em busca do golpe final, de unir todas as pedras (ou jóias) do infinito. O início do filme segue imediatamente a abordagem de Thanos à nave de refugiados Asgardianos que aparece ao final de Thor: Ragnarok. A partir daí, ninguém está a salvo e a história se desenrola de forma eficiente na maior parte do tempo.

E funciona tão bem pois ao longo da última década nós nos aproximamos dos personagens como raras vezes na história do cinema. Nós observamos esses personagens em ação, enfrentando demônios particulares e figuras vilanescas diversas – inclusive, uns aos outros. Nós entendemos a motivação de cada um deles de forma que ao vê-los enfrentar um desafio maior, sabemos o que se passa em suas cabeça e tudo o que fizeram para chegar até aquele ponto. E o desafio, dessa vez, é consideravelmente maior do que os anteriores.

Thanos é a melhor demonstração de que a Marvel aprendeu a fazer vilões. Entre Loki e Killmonger, todos os vilões do universo eram genéricos, pouco carismáticos e insignificantes no esquema geral das coisas. Com Thanos nós temos um personagem complexo, com uma ideia errada, porém coerente. Thanos não quer reinar/destruir o planeta Terra ou o universo, muito menos destruir os Vingadores. Isso é simplesmente pequeno demais para ele.

A motivação dos quadrinhos de Thanos – uma devoção a figura corpórea da morte – fica para trás e dá lugar a uma crença neomalthusiana (jogue no Google) dos perigos de um desequilíbrio populacional em escala universal. Você pode discordar dele, mas há uma discussão a ser feita (assim como foi com as ideias de Killmonger em Pantera Negra). Como todos os grandes vilões da história do mundo, há uma justificativa e uma intenção nobre por trás de suas ações e não apenas uma incorporação do mal pura e simples. Thanos não é um psicopata colecionando cabeças em um cinto. Ele é um ser extremamente poderoso com instinto benevolente e um plano muito, muito mal calculado para resolver um problema.

Verdade seja dita, talvez, ao invés de um grupo de super-heróis, um grupo de economistas do Banco Mundial deveria ter sido selecionado para sentar e tentar explicar para Thanos que a sua formulação do problema (e sua solução) não são bem assim. Ok, o filme seria muito chato, mas a verdade é que temos aqui uma crença fervorosa de um conceito de equilíbrio acerca da vida no Universo, e os Vingadores, sem muito tempo para papo, vão usar suas melhores armas para tentar impedi-lo.

Thanos, assim como todos os grandes vilões do cinema, possui imenso carisma, uma ideia fixa e o poder para sua execução, que só aumenta a cada Jóia do Infinito que consegue conquistar. A decisão dos irmãos Russo de nos fazer acompanhá-lo por boa parte do filme é uma interessante forma de construir esse personagem que até então era em doses iguais misterioso e caricato. Nos pequenos trechos em que apareceu nos filmes anteriores, Thanos transpareceu como um ser impiedoso e cruel. Em Guerra Infinita conhecemos Thanos de verdade: alguém com ideias mal calculadas, mas que repetidas vezes mostra um lado humano e simpático ao pleito daqueles que tentam impedi-lo.

É complicado falar mais sem estragar o divertimento de todos, mas é suficiente dizer que todos os heróis têm seu lugar ao sol e seus momentos de brilhantismo. Enxergamos o melhor de todos e vemos mesmo personagens dissonantes como Tony Stark, Peter Quill e Doctor Strange batendo cabeça e lutando lado a lado. E ao final, chegamos a um ponto em que as expectativas para o próximo filme – e a resolução da saga das Jóias do Infinito – não poderiam ser maiores.

Quanto aos problemas, sim, enxergamos, aqui e acolá, desequilíbrios na trama, especialmente quanto às decisões dos personagens. Em mais de um momento observamos personagens inteligentes tomando decisões completamente injustificáveis sobre qualquer métrica, a não ser, talvez, avançar a trama. O filme não é livre de buracos na trama, mas em determinados momentos parece muito claramente que os personagens esqueceram do que está em jogo e da própria capacidade de seus poderes. Isso desafia as próprias regras estabelecidas para este universo fantástico – o que é um grande vacilo cinematográfico – mas, ao mesmo tempo, face ao desafio de uma história ocorrendo nesta escala, é algo que pode ser perdoável.

Eu tenho uma opinião formada sobre os filmes da Marvel, que talvez não seja tão popular. O excessivo controle sobre o universo impede que artistas (diretores, roteiristas e mesmo atores) tenham maior liberdade de utilizar o material e agregar algo a mais. Mas essa falta de liberdade criativa acontece em função de algo maior: consistência – na história, no tema, no tom e na construção de um clímax. Vingadores: Guerra Infinita é um ponto máximo de algo que levou 10 anos e 20 filmes para ser construído e embora não seja perfeito, é satisfatório, provocante, e acompanha você para fora do cinema.