O aguardado segundo filme do diretor sul-africano Neil Blomkamp estreou sexta-feira (20) em Natal. Como boa cinéfila que sou, já me prontifiquei para a primeira sessão disponível, no entanto, o filme ainda não tinha chegado à cidade. Após o infeliz imprevisto, tive de esperar até o dia seguinte para assistir à película. Sábado à noite, sessão lotada, os únicos lugares disponíveis se encontravam na desconfortável primeira fila. É, parecia que o universo não estava colaborando para que eu gostasse de “Elysium”. Mas, diferente de alguns críticos mundo afora que esperavam um novo “Distrito 9” (2009) ou sei lá o que de genialidade e acabaram frustrados com o longa, eu apreciei bastante a nova ficção científica de Blomkamp.

Julio (Diego Luna), Max (Matt Damon) e Spider (Wagner Moura)

Quando se nasce em um país dividido e cheio de desigualdade social, como a África do Sul, a sensação de injustiça também cresce junto com seus habitantes, ou ao menos deveria. No caso do cineasta Neil Blomkamp, esse olhar politizado e engajado está presente em suas duas obras, os oprimidos, os diferentes, os enfermos, a escória do mundo se encontra em seus dois longas, até agora. São eles: “Distrito 9” e “Elysium”. Diferente de alguns filmes sobre desigualdade que trazem um discurso vazio e um maniqueísmo simplista representado em seus personagens, Blomkamp busca em suas obras levar uma crítica social e um olhar além do óbvio julgamento entre o “bem” e o “mal”.

Secretária de Estado Delacourt (Jodie Foster)

A trama de “Elysium” se passa no ano de 2159, quando o planeta Terra encontra-se em um estado de super população que acarreta numa extração exacerbada de recursos naturais, tornando assim a qualidade de vida péssima. Àquelas pessoas com condições financeiras favoráveis tinham a opção de deixar o planeta e morar em Elysium, uma estação espacial riquíssima, confortável, onde não havia pobreza, doença ou feiura; seus habitantes desconheciam, ou melhor, se esqueceram das desgraças e problemáticas vividas por seus semelhantes no planeta azul. A entrada para essa estação espacial maravilhosa só era possível por meio de uma autorização e pagamentos prévios, suas garantias de segurança eram fornecidas pela secretária de estado Delacourt (Jodie Foster).

O planeta, devido a superpopulação e a extração desenfreada de recursos naturais, tonou-se um lugar hostil e decadente

Na Terra, somos apresentados a Max (Matt Damon), um órfão que vive no subúrbio de Los Angeles ao lado de imigrantes mexicanos e sonha em um dia poder morar em Elysium. O garoto se mete em encrencas, furtando uma coisa aqui e outra acolá. Quando adulto, se envolve em encrencas ainda maiores. Após uma temporada na prisão e sob condicional, Max arruma um emprego em uma fábrica de montagem de robôs. Um ocorrido determina uma mudança drástica no rumo da vida de Max e o reaproxima de sua paixão de infância, Frey (Alice Braga), e também de um antigo comparsa dos tempos de crime, Spider (Wagner Moura) um contrabandista que leva pessoas ilegalmente para a estação espacial.

A estação espacial Elysium

Não ouso falar mais nada sobre o enredo do filme, mas vamos a algumas observações a respeito do elenco. Jodie Foster como a secretária de estado Delacourt está (como posso dizer sem causar discórdia, ódio e rancor nos corações de seus admiradores?) um tanto quanto engessada, nada que comprometa o enredo, mas em se tratando de uma atriz de seu porte, esperava algo mais. Sharlto Copley, ele mesmo, de “Distrito 9”, reaparece como o agente Kruger e proporciona uma das cenas de embate mais belas do filme. Embora um tanto “over”, Copley faz o que o papel pede, uma inquietude e um olhar psicótico com seu sotaque carregado sul-africano, o ator não repete o mesmo êxito do primeiro trabalho de Blomkamp. Quanto aos brasileiros, Wagner Moura e Alice Braga, fiquei bastante satisfeita com o que vi, Alice já consolidou carreira em Hollywood e com seu inglês impecável mostra que é melhor que muitos grandes nomes made in USA da atualidade e faz bem a jovem enfermeira Frey. Wagner Moura me surpreendeu, com um sotaque esquisitíssimo, que funcionou muito bem para o papel, ele preenche a tela a cada vez que aparece. Moura é um ator muito mais de feeling e de alma do que de técnica, em alguns momentos beira o exagero, mas não chega a ultrapassar a linha entre o aceitável e o caricato.

Agente Kruger (Sharlto Copley)

As cenas em que são mostradas a vida na Terra foram filmadas em uma das maiores favelas do mundo, na Cidade do México, e as rodadas em Elysium foram feitas no Canadá. A produção se sai muito bem, principalmente no quesito efeitos especiais, muito por conta de seu diretor, um exímio conhecedor do assunto, além de tratar de questões humanas muito latentes. O figurino dos personagens é outro ponto em destaque, o exoesqueleto usado por alguns personagens é de uma engenhosidade e estética de saltar aos olhos.”Elysium” usa de elementos da ação, mas seu cerne é a ficção científica. O longa faz uso do gênero além de um simples espaço onde o impossível pode acontecer. O filme não tem apenas uma visão sobre as coisas, trata-se da  luta de um homem, Max (Matt Damon), por seu objetivo, como também vai além disso, nos faz refletir sobre as ações para conter nossa ganância e sede de poder. Não é de hoje que o tema da superpopulação é tratado, como no caso da animação da Pixar, “Wall-E” (2008) ou ainda com a série “Utopia” (2013) e também o mais recente livro do escritor, Dan Brown, “Inferno”.Olhar a Terra de Elysium e ver a gigantesca favela que se tornou Los Angeles nos faz lembrar os condomínios ultra seguros, organizados e perfeitos, vizinhos de comunidades desfavorecidas, que existem em muitas cidades do Brasil. A ideia do diretor é usar do cinema como forma de arte e de disseminação em massa, para abrir os olhos do mundo para uma realidade eminente, ou melhor dizendo, para mostrar que as coisas não estão assim tão longe. Só para citar um dos grandes problemas enfrentados pelo mundo de hoje, podemos chamar atenção para a saúde. O caos na saúde que vivemos no Brasil também é sentido em outros países de desigualdade social semelhante e pode ser facilmente percebido no hospital que a personagem de Frey (Alice Braga) trabalha, sem infraestrutura, superlotado e sem condições alguma de atender a demanda.

Kruger e Frey (Alice Braga)

A sacada do diretor é justamente usar da saga do herói, Max, para criar um vínculo com o espectador. A partir da sua história, o público segue uma sequência de eventos que o leva a tomar atitudes extremas, como mudar sua aparência física, tornando-se um híbrido de homem e máquina, para realizar aquilo que tanto almejava no início da trama, mas que por um contexto humanista, é prontamente mudado. Neil Blomkamp, que já tinha mostrado a que veio em “Distrito 9”, longa repleto de metáforas políticas e morais em um cenário de ficção científica, segue os mesmos passos em “Elysium” (2013). O mais interessante, ao meu ver, é a forma como toda essa carga de elementos é passada no longa, sem perder a mão, sem se tornar enfadonho e entediante, tem ação, tem ficção científica, tem um retrato cru e realista do lado podre do mundo, que os cults tanto curtem. Surpreendi-me com o que vi, fui cativada pelo enredo que não se perde, não escorrega e tem um desfecho coerente e interessante. Para àqueles que buscam diversão com conteúdo, eis aqui uma excelente pedida de filme.

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