Enredo sem filtro e interatividade explicam sucesso de SKAM

Pode-se dizer que Skam é a mais nova série do momento. Em sua terceira temporada, a série norueguesa que carrega muitas semelhanças com a britânica Skins tem chamado atenção de muita gente e ganhado muitos admiradores. A fim de saber o porquê de tanto frisson resolvi maratonar as três temporadas e resultado: virei fã também.

A premissa, à princípio, é simples e ao mesmo tempo é e não é clichê. Explico. Uma série focada nos dilemas adolescentes não é novidade para ninguém, certo? Mas como ultimamente as populares séries americanas não sabem tratar do tema sem colocar um fantasma, zumbi, vampiro ou super-herói no meio, Skam é sim bem inovadora. Além disso, a exemplo da série britânica, a trama não tem filtro na hora de abordar assuntos da realidade adolescente, como orientação sexual, transtorno alimentar, violência sexual, gravidez e aborto (vale destacar que na Noruega o aborto é legalizado). O enredo ainda aposta em dois temas bastante atuais: feminismo e islamismo. E até chega a abordar a crise dos refugiados sírios, embora muito sutilmente e de maneira nada séria.

Cada temporada é focada em um personagem específico e assim os plots e temáticas abordadas variam muito dependendo de quem será o protagonista. As temporadas também não são tão interligadas entre si, ou seja, existe uma lógica de inicio e fim que faz com que você não necessariamente precise assistir a uma temporada para entender a outra. É claro que ajuda, mas caso você só queira assistir à terceira, por exemplo, vai conseguir acompanhar relativamente bem sem precisar de elementos da segunda e primeira. Mesmo assim recomendo ver todas porque além de serem bem interessantes, são muito rápidas: as temporadas têm entre 10 a 12 episódios que não duram mais do que 30 minutos.

A primeira temporada é protagonizada por Eva e se apóia bastante na sua relação com o namorado Jonas. No entanto é o plot secundário, que evidencia a relação de amizade entre o grupo de amigas da Eva, que rouba a cena.

Carismáticas e tão diferentes umas das outras, elas desenvolvem uma relação tão forte que é impossível não se cativar e tudo que você quer é ser parte do grupo. É esse plot que rende a maior parte das discussões da temporada, como gravidez, aborto, feminismo e a temática sobre o islamismo, trazida à tona através da personagem Sana, que é muçulmana. As interações entre ela e Vilde – uma das garotas que não sabe nada sobre a cultura muçulmana – são, sem dúvida, uma das melhores coisas da série. Por meio das sarcásticas respostas de Sana, os criadores lançam uma leve critica ao preconceito religioso.

A segunda temporada é focada em outra integrante do grupo, Noora. E se na primeira temporada ela foi mostrada como uma mulher feminista, inteligente, segura de si, nos novos episódios há uma espécie de desconstrução da personagem. Ao se apaixonar pelo bad boy da escola, Noora se vê em uma posição que sempre criticou e durante boa parte do tempo ela atravessa um conflito interno. As reações à relação dos dois, aliás, chamou muito atenção. Algumas pessoas chegavam a apoiar o casal, enquanto outras questionavam e até classificavam a relação como abusiva.

Embora Noora e Wiliam não fujam do clichê good girl se apaixona pelo bad boy e vice-versa e tragam com eles todos os problemas típicos dessa relação, eu não diria que é uma relação abusiva. De qualquer forma, é interessante esse tipo de discussão porque mostra que o mundo mudou, as mulheres mudaram e elas já não ficam mais suspirando pelo garoto lindo e popular; há toda uma problematização em torno das ações dele e das implicações de uma relação complicada como essa.

A terceira temporada é protagonizada por Isak, um personagem que até então não havia tido tanto espaço na série, aparecendo esporadicamente. Apresentado como amigo de Eva e Jonas, o personagem até então era uma incógnita. A série ensaia uma revelação a respeito da sexualidade dele ainda na primeira temporada, mas desconstrói tudo na segunda e chegamos na terceira sem saber muita coisa sobre ele. Embora não seja uma abordagem nova, é pouco utilizada quando se trata da homossexualidade: a questão da autoaceitação, que vai além da orientação sexual. Isak é um personagem tão introspectivo que a impressão que fica é de alguém que mal se conhece, alguém cheio de dúvidas e incertezas que precisam ser resolvidas. Por conta disso, ele não é um personagem exatamente fácil de gostar, mas é dono do plot mais interessante e emotivo até agora.

Skam também inova na interatividade. Cada personagem tem um perfil no instagram e posta conversas, fotos, vídeos que condizem com a história. Assim, os espectadores podem acompanhá-los dentro e fora da série. Além disso, praticamente toda a divulgação da produção aconteceu por meio das redes sociais e tanto a criadora Julie Andem como a emissora norueguesa NRK levam em consideração o feedback do público nas redes para dar continuidade as histórias.

Formado em sua maioria por atores muito jovens, o cast foi escolhido por meio de um processo seletivo envolvendo mais de mil candidatos e apenas depois foram criados os personagens, com base no perfil dos próprios atores. A própria construção da série foi fruto de uma longa pesquisa de Julie Andem, que passou meses viajando pelo país entrevistando adolescentes para entender seus desejos e anseios.

Para quem curte uma boa soundtrack Skam também não decepciona, mesclando novos e velhos hits americanos com músicas de artistas locais da Noruega. O resultado é uma trilha bem diversificada e que funciona bem com o enredo.

Com uma iminente quarta temporada chegando, ainda não é certo quem será o foco dos novos episódios, mas me junto ao coro que pede por Sana. Diante do contexto socio-histórico que vivemos, imagina a relevância de uma série europeia de sucesso protagonizada por uma muçulmana. Uma versão em língua inglesa da série, produzida nos EUA e Canadá, também está confirmada.