Hoje a literatura latina, mais especificamente a argentina, acordou com um sorriso estampado na face. Pois bem, esta terça-feira, 29, poderia ser mais um dia de pieguices e preguiça, mas não. 100 anos atrás nascia Julio Cortázar, escritor que viria a ser reconhecido como um dos grandes símbolos da literatura na Argentina, um revolucionário da palavra e do estilo de escrita. Um homem feito de romances, crônicas e principalmente contos, mas tendo como base uma profunda tristeza que nunca soube de onde vinha. Talvez percebesse ali, como todos os outros grandes escritores, que pelo dom da palavra deve se pagar um preço.

Julio_Cortazar_Bruselas_1914-Paris_1984

 

Declararia em 1975 à Revista Plural, do México, as seguintes palavras: “Pasé mi infancia en una bruma de duendes, de elfos, con un sentido del espacio y del tiempo diferente al de los demás”. Sua infância, que não seria fácil, foi marcada por dois principais eventos, pela separação dos seus pais e por sua frágil saúde. Sempre de cama, a solidão de Cortázar só era amenizada pelos livros que devorava ao longo dos dias, todos indicados por sua mãe. Muitos de seus contos são autobiográficos, como BestiarioFinal del juegoLos venenos e La Señorita Cora, entre outros. E por toda essa solidão que crescia, pode-se dizer que o escritor em muito se identificava com os felinos, sendo sua grande amiga, já adulto, um gato chamado Theodor W. Adorno. Dedicou-lhe até um conto intitulado Orientações dos Gatos. Assim como os felinos, o escritor transmitia na sua escrita um estilo de vida livre, fora dos padrões normativos, onde a independência pessoal era sua ordem.

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Formado em Letras, foi perseguido pela ditadura argentina em 1951 e obrigado a se exilar na França, onde viria a morar permanentemente. E por esse motivo o estopim de escritor de Cortázar se acendeu. Sobre ele, dedicou-se aos estudos da política, lançando em 1962  Historias de Cronopios y Famas, mas é em 1963 que nasce sua obra mais reconhecida e premiada, Rayuela, ou O Jogo da Amarelinha. Cortazar-785294Enquanto escrevia e lutava, através da sua escrita, contra as ditaduras em toda a América Latina, Cortázar teve sua imagem marcada pelo uso do cigarro. Dentre a fumaça e os tragos, o clima de homem misterioso se permeava, construindo sua fama de introspectivo.

Original para o seu tempo, Cortázar se tornou mestre da prosa poética, sendo comparado por muitos a Jorge Luiz Borges, outro grande escritor argentino. Mas o fato é que Cortázar transgrediu o estilo de fazer literatura na América Latina, rompendo os moldes clássicos mediante narrações que escapam da linearidade temporal e onde os personagens adquirem autonomia e profundidade psicológica inéditas.

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