Os entendiantes monólogos das vaginas

Nesse último domingo, 24, o Teatro Riachuelo foi palco do espetáculo Os Monólogos da Vagina, com direção de Miguel Falabella e as atrizes Adriana Lessa, Cacau Melo e Gabriela Alves Toulier no elenco.  Eu já havia assistido o monólogo americano, de Eve Ensler, numa disciplina do curso de Teatro que abordou a estética do one-man show que é um pouco semelhante ao stand-up. Tentando sintetizar a diferença entre essas duas estéticas, no one-man show o ator interpreta um ou vários personagens numa série de quadros, como é o caso da Eve Ensler em seus monólogos coletados em entrevistas com mais de 200 mulheres.  Já no stand-up o humorista faz o seu show com a utilização de piadas.

Fotos: Andressa Vieira
Fotos: Andressa Vieira

A versão brasileira me causou a mesma apatia da versão americana. Não vi diferença alguma entre as duas. Fiquei com a impressão que o Miguel Falabella pegou a Eve Ensler, dividiu em três personagens, colocou uma narração jornalística beirando ao documentário, uma coisa tipo Discovery Channel, e uma porção imensa de “atuação-debiloide” (pra não falar macaquice).

Não me interpretem mal, mas em espetáculos como esses que foram feitos para agradar uma maioria, me parece que não existe processo criativo em volta. É como se o diretor pegasse o texto, fizesse uma cópia pra cada ator e mandasse-os decorar e pronto. Não houve exploração do corpo em cena. Não houve nem criatividade nas mudanças de monólogos. O que vemos são atrizes com personagens estereotipados  que não saem do cotidiano, sempre naquele mesmo clichê para agradar o público. O que mais acho chato (pseudo-engraçado) são as pessoas em volta comentando: Olha, ela esqueceu o texto! Nem as atrizes estão se aguentando de tanto rir!

Às vezes eu ficava pasmo com a poeticidade que existia no texto em alguns momentos do espetáculo. Reflexões incríveis que se fossem bem trabalhadas e colocadas de modo inteligente na obra poderiam tanto suscitar o riso, como engrandecer o trabalho  e ainda fisgar o público, mas a mania de satirizar as coisas parece relacionar-se com a necessidade de querer agradar com qualquer bobagem.

O texto é sobre mulheres e suas vaginas, sobre a busca de mulheres que nunca se conheceram, que nunca se tocaram profundamente por imposições da sociedade, do homem. Como posso falar de um assunto tão delicado que é o estupro de mulheres em um espetáculo que não me faz sentir mais essa causa, esse problema?  Bertold Brecht teria se mutilado caso assistisse a algo assim. Fiquei com medo dos machistas que poderiam estar presentes na plateia, assistindo as desenvolturas e curvas de atrizes bonitas, mas não captando a mensagem, apenas gozando internamente.

A gente sai do espetáculo com a mesma sensação de assistir àqueles besterois americanos. Não saímos modificados, afetados com o que vimos, logo, logo esquecemos o que aconteceu e voltamos pra nossa rotina sem nada para acrescentar. Acredito que não seja esse o sentido da arte. Aqui não escrevo que o espetáculo não serve para entretenimento, mas me dói perceber que esse tipo de produção ganha mais do que muitas que nos engrandecem, mas não são reconhecidas e muito menos patrocinadas. Ou talvez seja puro recalque meu. Cada um com o seu gosto, né?