Entrevista: Mario Rasec, o pai dos Black

O humor negro é um subgênero do humor que pode ser encontrado em várias mídias distintas e como tal, no que compete aos quadrinhos não poderia ser diferente.

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Foto: Giovanna Hackradt

Nesta perspectiva, Mario Rasec lança a sua criação “Os Black”, uma reunião das suas tirinhas, as quais foram publicadas no site Carta Potiguar, sobre um trio de amigos fãs de black metal, os quais servem como pano de fundo para satirizar política, religião, mídia, cultura e outros aspectos da vida cotidiana.

Assim, aproveitando o ensejo do lançamento de “Os Black”, O Chaplin entrevistou o criador deste cômico trio metaleiro, cujas aventuras são extremamente hilariantes e surreais.

De onde surgiu a inspiração para criar os Black?

Eu estava aos poucos voltando a desenhar, havia parado por muito tempo. Fiz uma estória curta, depois uns dois storyboards para uma universidade particular. Então, depois de um tempo escrevendo críticas de cinema para o site Carta Potiguar, me convidaram para desenhar as tirinhas de um personagem do Twitter, Gadelha Jr. e depois de outro, o Pinta Natalense. Em meio a essas produções, assisti a um excelente documentário sobre o black metal norueguês chamado Até que a Luz nos Leve (Until The Light Takes Us, 2008). Fiquei fascinado com aquele forte e polêmico movimento cultural e com sua história que, para mim, eram como lendas que eram contadas por aqui. Eu sabia parte da história, mas não com a veracidade que o documentário exibia. Pois, o black metal que eu ouvia era Venon e Mercyfull Fate. Juntando essa fascinação pela cultura do black metal norueguês (seu visual, sua ideologia, a queima de igrejas etc.) com o lado cômico não proposital de um vídeo clipe do Immortal, resolvi criar uma tirinha de humor usando o radicalismo e as contradições adolescentes do movimento não só para fazer Os Black rirem de si mesmos, mas rirem de toda a sociedade. Afinal, se para muita gente “normal”, um vídeo clipe do Immortal é ridículo, mais ridículo ainda são as contradições, preconceitos e ganâncias dessas pessoas “normais” que sustentam nossa hipócrita sociedade ocidental, capitalista e cristã.

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Além dos aspectos sobre religião, política, mídia e cultura, os Black apresentam também uma referência ao modo de vida potiguar. Esta referência é proposital?

Geralmente sim. Mas acho que às vezes essas referências surgem acidentalmente por motivos óbvios: nasci nessa cidadezinha que, por mais que eu goste, tem uma população que adora ostentar, mas que tem muita baixa estima no que diz respeito a sua própria cultura. Soube um dia desses que muita gente de Natal não conhecia a cantora Khrystal. Precisou de um programa babaca da Globo para saberem quem ela é. Para essa burguesia natalense, cultura é o que a Globo diz. Pagam por um ingresso caríssimo em teatro de shopping, mas não vão a uma peça de teatro ou a um show se o ator ou o cantor não tiver a “aura” global envolta dele. Para essa gente, artistas como Khrystal e Titina surgem do nada, como num passe de mágica. “Plipim” e de repente elas surgem. Não sabem eles (a população natalense), por pura cegueira da sua própria baixa estima cultural, que a carreira delas não nasceu nos efêmeros holofotes da Globo.

Para você, qual o roteiro mais polêmico das aventuras de Os Black?

Sinceramente, eu não vejo nada polêmico. O polêmico está naqueles que se ofendem com qualquer coisa. Mas, sabendo como é nossa sociedade, eu diria que a mais polêmica poderia ser a tirinha “Deus” ou “Via Crucis”, pois são tirinhas que se focam em tabus da religião dominante.

Você já chegou a ser criticado pelas estórias de Os Black?

Várias vezes (risos). Principalmente por cristãos. Eles levam muito a sério algumas tirinhas. Já fui criticado só porque havia a palavra ateu na tirinha.

Haverá uma periodicidade para a publicação de Os Black?

Pretendo lançar uma HQ de três em três meses. Mas, pra ser mais realista, acho muito difícil manter tal periodicidade. Afinal, é muito difícil conseguir financiamento para um trabalho como esse. Em todo caso, estarei publicando algumas tirinhas na página deles do Facebook antes de publicar os próximos números da revista.

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Você pensa em futuramente criar uma HQ com uma história completa, com início, meio e fim, para os Black?

Pretendo criar uma única estória compostas por várias curtas. Mas isso é algo que vai demorar um pouco, pois ainda existem muitos temas para Os Black explorarem em vez de se concentrarem apenas em um assunto em uma única edição.

Para você, Os Black podem existir em outras mídias, como por exemplo, animação digital?

Sim. E estou trabalhando nisso atualmente. Eu pretendo que a animação faça parte, mas não como a mídia principal. O quadrinho é, e sempre será, a mídia principal dos Black.