Desde a divulgação dos indicados ao César, premiação mais importante do cinema francês, que busco incessantemente pelo filme “Les Garçons et Guillaume, à table!”, no Brasil, “Eu, Mamãe e os Meninos”, do diretor estreante Guillaume Gallienne. O filme viera a ganhar o prêmio máximo daquele evento, além de outras quatro estatuetas, entre elas, a de “melhor ator” para Guillaume Galienne, que não só dirige como atua no filme. Confesso que ao saber disso tudo, e que o ator interpretava a si mesmo no filme, fiquei ainda mais curiosa: seria uma espécie de documentário? uma autobiografia? a realidade nas telas, onde reina o culto à ficção, teria alcançado tamanho sucesso? Não sou daquelas que lê muito sobre um filme antes de assisti-lo para não quebrar o encanto do primeiro contato. Portanto, reservei-me ao direito de não ceder à curiosidade e apenas recentemente, em ocasião do Festival Varilux de Cinema Francês, tive a oportunidade de ver o filme nas telonas.

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“Eu, Mamãe e os Meninos” é um filme de comédia, inspirado em uma peça de teatro, que se baseia na vida do próprio ator e diretor, cujo humor e a desenvoltura ao interpretar a si mesmo abrilhantam a tela. O plot da história é a relação de Guillaume com sua mãe, que criara o filho acreditando que ele seria gay, e consigo mesmo, que cresce acreditando ser uma menina devido às indicações de sua progenitora. Guillaume precisa, no curso da vida, compreender a sua sexualidade e lidar com as dificuldades e surpresas que aquele processo encadeia.

É impossível, para a crítica brasileira, não remeter ao filme nacional “Minha Mãe é uma Peça”, lançado ano passado, e escrito e protagonizado pelo humorista Paulo Gustavo. As semelhanças são muitas: ambos foram inspirados nas mães dos autores, têm uma pegada autobiográfica (embora o brasileiro não deixe isso completamente explícito no texto, à medida que não se insere como um personagem também), e brotaram de peças de teatro, além da pegada humorística, que ambos sustentam muito bem. As diferenças residem apenas no aparato técnico e na sutileza, aspectos em que “Eu, Mamãe e os Meninos” sobressai.

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Quero pontuar ainda os personagens engraçadíssimos que surgem no decorrer do filme, e têm a função de ajudar, das formas mais bizarras, o protagonista em sua jornada de autodescoberta. A exemplo, cito a aparição de Diane Kruger como Ingeborg, uma massoterapeuta (?) com técnicas para lá de duvidosas. É difícil equilibrar as sensações na cena: um pedaço de mim queria virar o rosto e sentia na pele a dor do personagem e o outro ria descontroladamente com com a comicidade da tragédia de Guillaume.

O diretor e ator Guillaume Galliene

O diretor e ator Guillaume Gallienne

Contudo, para não dizer que não falei dos espinhos, confesso que o filme de Gallienne me desapontou um pouco em seu desfecho. De fato, é possível identificar as frustrações do personagem no decorrer do filme, mas todas adotam um propósito meramente humorístico e não justificam a súbita mudança de postura e comportamento do personagem nos últimos cinco minutos da produção. Apesar de surpreender o espectador, e isso pode ser computado como um ponto positivo, penso que essa mudança repentina no rumo da história também prejudicou um pouco o compasso do filme, que parece ter sofrido uma machadada nos últimos minutos de sua montagem.

No entanto, duas coisas são certas: Guillaume Galienne exerce um trabalho digno tanto como ator quanto como diretor. Apesar de ser seu primeiro filme, Galienne não peca. O filme tem ritmo, prende e surpreende na medida certa, seduz o espectador e provoca boas gargalhadas com um humor que não cai nem no ofensivo nem no convencional. Um humor autoral como há muito eu não via nas telonas. Certamente, Guillaume tem um apego a essa história, bem como ótimas inspirações para compô-la, mas apesar disso, enxerguei um quê de talento que eu espero que se acentue e aguce pelas próximas obras do autor (e que venham outras!).

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