Eu Odeio O Dia Dos Namorados: Apesar da pouca qualidade de produção e roteiro, filme consegue arrancar algumas gargalhadas

É uma data importante para 98% das pessoas do mundo. Mas dentre os 2% que não dão a mínima para a comemoração em questão, existe um mal-amado, que por um acaso, é o protagonista da história. Por odiar fervorosamente e gratuitamente tudo e todos, eles também acaba sendo detestado. Naquele dia, contudo, algo acontece e o sujeito se vê às portas da morte. Um amigo gente boa – que já morreu – retorna do campo espiritual para fazer uma retrospectiva da vida e das possibilidades do nosso amigo protagonista. Começa pelo passado, em que algo impulsiona o camarada a se tornar um carrasco; passa pelo presente, mostrando a vida por ângulos que ele não consegue enxergar; em seguida, o futuro medíocre que o espera, caso uma mudança grande e satisfatória não aconteça em sua vida. Logicamente, o sujeito que não é burro nem nada, mais por medo que por transformação de caráter, se safa da situação de perigo com a promessa de que, a partir daquele momento, será uma pessoa melhor. E aí faz as pazes com Deus, a mãe, o pai, o empregado, a ex-namorada, o periquito e o cachorro da vizinha, se torna um exemplo de vida e benevolência e fim.

A história parece familiar? É claro, leitor. Para mim, para você e mais da metade da torcida dos principais times europeus e americanos e, certamente, para parte da torcida do Flamengo também. Isso porque trata-se do enredo do famoso livro “Um Conto de Natal”, escrito pelo renomado escritor inglês Charles Dickens, e adaptado (bem como objeto de inspiração) tantas vezes, para tantas plataformas, que nem me atrevo a chutar um número. Agora, o que passou pela cabeça de Paulo Cursino, roteirista do filme, para querer transfigurar o belíssimo clássico em uma comédia bem fraca (para ser amena) situada no Dia dos Namorados (em vez do Natal), só podemos imaginar. A questão é que o resultado poderia ter sido agradável, mas foi quase catastrófico, salvo por algumas poucas risadas que consegue provocar – seja por algumas sacadas realmente boas do roteiro, ou pela incredulidade decorrente de algumas cenas que se desenrolam na telona, que muitas vezes me fizeram indagar aos meus dois parceiros de filme uma pergunta tão desfuncional quanto retórica: “É sério que eles fizeram isso? Estou mesmo vendo isso no filme?”

Heloísa Perissé (Débora) e a bicha má Gilberto (Marcelo Saback)

Débora (Heloisa Périssé) é o Sr. Ebenezer Scrooge do filme dirigido por Roberto Santucci (de “De Pernas Pro Ar”), uma publicitária “boa, mas sem sensibilidade”, como afirma o seu colega de trabalho Marcos, interpretado por André Mattos. Parece demonstrar ainda alguma afeição por Marley, digo, Gilberto (Marcelo Saback), seu parceiro de criação, que morrera há alguns meses. Desde então, sua vida é voltada para o trabalho, no qual ela destrata a talentosa Carol (Daniele Valente, que faz o equivalente ao pobre Bob  Cratchit no livro de Dickens), uma promissora assistente, mas pouco reconhecida por Débora, egocêntrica demais para perceber o talento da garota.

Na primeira cena (que, diga-se de passagem, torna o desfecho bastante previsível), o filme denuncia um dos estopins para o problema de Débora com o dia dos Namorados, quando seu, então, namorado, Heitor (Daniel Boaventura), prepara um flash-mob para pedir-lhe em casamento, com direito a flores, gravação e todos os preparativos para um inesquecível “sim”. Contudo, o que se segue é um categórico “não”. O relacionamento termina cheio de ressentimentos e mágoas, e pode vir a se tornar um problema quando Débora recebe o desafio de montar uma campanha para o “Sonho de Valsa”, cujo gerente de marketing é Heitor. Na mesma noite, a de Dia dos Namorados, Débora sofre um acidente de trânsito e, enquanto ainda “voava” do carro rumo a sua iminente morte, o espírito de Gilberto (de longe, o personagem mais divertido do filme) aparece e começa a fazer um tour por vários momentos da sua vida, alguns que já passaram e outros que possivelmente ainda iriam acontecer. Com isso, Débora vai reconhecendo a si própria em cada momento e aprendendo com os erros que cometeu, e ao poucos, começa a transformar sua personalidade.

Daniele Valente como Carol

A história é tão previsível que começo a me condenar por ter gastado quatro parágrafos para narrá-la. Prometo-lhe, então, leitor, compensar sendo sucinta nos aspectos técnicos que, para todos os efeitos, não carecem de muita apreciação. Nesse filme, Santucci não alcança sequer o trabalho aceitável de “De Pernas Para o Ar”, chegando a nos apresentar um produto bem amador em alguns momento, sendo um dos pecados, por exemplos, as colagens de cenário mal-feitas que chegam a deixar os autores desconcertados em algumas cenas.

Contudo, direção e produção têm um dedo feliz para escolher protagonistas. Heloisa Périssé, que anda um pouco sumida, continua engraçada e extremamente carismática. Assim como Ingrid Guimarães em “De Pernas para o Ar”, ganha a simpatia de cara e é um dos motivos que nos fazem continuar a extrair algum divertimento da comédia. Os personagens são bem caricatos (o que esperar de uma comédia desse naipe?), mas alguns atores usam isso ao seu favor para dar show de gargalhadas. Outros ~Danielle Winits~, infelizmente, apenas corroboram para o fracasso de seus personagens no contexto. Um parêntese para a participação do ator Milton Filho, que interpreta uma drag queen divertidíssima e que rouba a cena nos poucos minutos em que aparece.

Daniel Boaventura faz Heitor, o ex-namorado escanteado no Dia dos Namorados

Não entendi se os efeitos especiais de péssima qualidade foram mesmo uma opção para intensificar os motivos de gargalhada, ou se não passaram de descuido dos responsáveis. O fato é que achei bem inconveniente para um filme que se propõe a ser um blockbuster de respeito em 2013, e que eu não gostei. Fora isso, penso que o único aspecto a ser mencionado seja o roteiro, e creio que já expressei seguramente a minha opinião a respeito. Talvez por ser careta quando o assunto é um dos meus livros favoritos, mas não achei de bom tom a cópia adaptação descuidada e engraçadinha de “Um Conto de Natal”.

Ao fim do filme, tudo o que consegui imaginar é que “Eu Odeio O Dia Dos Namorados” é uma tentativa de acanalhar a obra de Dickens, com uma pitada de elementos que, de tão  ridículos, se tornam engraçados e, claro, o humor brasileiro sacana que, no fim das contas, absurdamente acaba sendo o fragmento que mais se dignifica dentro do produção.

Ficha Técnica:

 

Duração: 1h 41min

Dirigido por Roberto Santucci

Com  Heloísa Périssé, Daniel Boaventura, Marcelo Saback

Gênero: Comédia

Nacionalidade: Brasil