Fernando Perdigão apresenta Andrade, um detetive brasileiro politicamente incorreto
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“A Pedido do Embaixador” chegou às minhas mãos no momento certo. Cansada da carga de leituras densas decorrentes do curso de Direito, iniciava e esquecia livros em uma já enorme pilha que ia deixando para depois, uma vez que acabava dormindo após uma ou duas páginas. Até posicionar o romance de Fernando Perdigão, lançado este ano pela editora Record, na minha mesa de cabeceira.

“A Pedido do Embaixador” é um livro policial, o primeiro protagonizado pelo detetive Andrade, uma figura caricata e divertida que garante o humor e o ritmo ao longo das 239 páginas do romance. Nesta obra, Andrade é incumbido por um embaixador de desvendar o mistério da morte do logista Rubens, aparentemente um jovem rapaz cuja maior peculiaridade da vida é ser homossexual assumido. No decorrer do texto, no entanto, e como é de praxe em romances policiais, o leitor descobre que há mais caroço no angu do que as aparências iniciais indicam.

Considero um bom livro aquele que nos mantém lendo. Seguindo esse axioma pessoal, Fernando Perdigão tem, portanto, um inegável talento para a literatura. “A Pedido do Embaixador” descarta descrições exageradas e abdica de reflexões enfadonhas. Sua obra é, assim como o seu personagem principal, objetiva e dinâmica. Torna-se quase inevitável imaginar Andrade nas telonas, interpretado por alguma figura pançuda, portentosa e cômica, acompanhado por uma inspetora Lurdes que ficaria bem na pele de Thammy Gretchen ou Giulia Gam, por exemplo.

Perdigão soube apostar em seu ponto forte, que também se torna predominante no livro: os diálogos. Confesso que não sou uma pessoa que se pega rindo facilmente com roteiros de livros, mas “A Pedido do Embaixador” é o tipo de obra que pode te arrancar gargalhadas por dias. Isso, obviamente, se você não for um dito e dogmatizado politicamente correto.

Explico. Apesar de sua posição de autoridade enquanto um funcionário da lei, Andrade possui a maior quantidade de preconceitos por quilograma possível em uma pessoa. O detetive é homofóbico, racista, xenofóbico, abusa de sua autoridade e, não bastasse isso tudo, não tem papas na língua e não faz a menor questão de esconder a sua visão estereotipada do mundo. Incrivelmente, é aí que reside o humor (um tanto ácido) do livro, justificado pelo fato de que, mesmo com um protagonista tão incorreto, a apologia a esse comportamento não se faz presente, uma vez que ele é sempre corrigido e repreendido por outros personagens do livro ou pelo próprio narrador.

“A Pedido do Embaixador” é uma daquelas obras cujo processo de digestão é mais agradável do que o encerramento em si. Os amantes de romances policiais não terão nenhuma surpresa a nível de história, que acaba até mesmo se tornando previsível, sem muita riqueza de personagens e possibilidades. No entanto, o livro cumpre o seu papel de apresentar seu protagonista e conseguir a empatia do público. É o suficiente para já estar ansiosa para a próxima aventura de Andrade – que, espero, juntamente com o autor, seguirá aperfeiçoando seus métodos a cada novo livro.

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