Fernando Pessoa, o Cavaleiro de Nada: primeiro romance de Elisa Lucinda conta a vida do poeta português que viveu por dentro

Ano passado pude ouvir, como espectador de ‘Recital a brasileira’, a leitura de um trecho do novo livro de Elisa Lucinda, Fernando Pessoa: o Cavaleiro de Nada. Desde então, não via a hora de ter o texto em minhas mãos. Por um ano, tive raiva da demora, ruminei a ânsia, julguei que a autora ou a editora se comportavam como a menina gorda, a filha do dono da livraria, de Felicidade Clandestina (conto de Clarice Lispector), que não queria  emprestar o livro e que se divertia, sadicamente, com a espera angustiada do leitor. Nada disso dissolvia a vontade de ler, eu mesmo, o que escutado já parecia estar pronto. Finalmente, o livro chegou, a raiva passou e o fato é que a porrada da beleza, como diz a própria escritora em um de seus poemas, fisgou minha atenção e preencheu completamente o meu tempo livre.

Elisa Lucinda, autora de "
Elisa Lucinda, autora de “Fernando Pessoa, o Cavaleiro de Nada”

No romance, Elisa recria a vida de Fernando Pessoa de uma perspectiva muito interessante – usa um narrador em primeira pessoa, o próprio poeta, para narrar a trajetória de alguém que era muitos. Ele escreveu sendo vários, inclusive com nomes, personalidades, estilos e temas completamente diferentes. De certa forma, ao escrever sobre Pessoa e como Pessoa, Elisa Lucinda exercita a possibilidade de torna-se também outra; ela se transforma nele e constrói suas lembranças e memórias a partir de fatos de sua vida.

Capa
Capa

O livro impressiona também pela extensiva pesquisa biográfica e da obra do português. Nesse sentido, o material fotográfico que ilustra os capítulos é muito rico, assim como as citações, em verso e prosa, de composições dele. O texto de Elisa está cheio delas, contextualizadas e apresentadas como se fossem enunciações de uma mesma voz. Obviamente, marcas tipográficas deixam muito claro a quem pertence o que. De qualquer forma, o narrador é tão Pessoa que sua fala se integra perfeitamente aos textos do poeta. Na verdade, o que importa é que a vida dele, principalmente, aquela que acontece por dentro, é contada sem a censura que a realidade impõe. Como disse Mia Couto, na apresentação do livro, Elisa sonha-se Pessoa. E sonhando, cria um romance muitíssimo verdadeiro, mesmo sendo ficção.

Ainda não consegui terminar de ler esse que poderia ser, como disse a própria escritora em tom jocoso, uma autobiografia escrita por outra pessoa.  Na verdade, acho que vou demorar bem mais que o esperado. O fato é que lido em voz alta, o romance ganha uma musicalidade e um charme todo especial. E, por causa disso, fico voltando a trechos específicos, lendo alto para mim mesmo, para os amigos, para as visitas, etc. É por isso que tem sido tão difícil avançar. Não conto as vezes em que li trechos da primeira aparição de Cavaleiro de Nada, esse, segundo Elisa, o primeiro heterônimo de Pessoa. A mesma coisa se aplica ao trecho em que se fala da música de cada um… Sonhar ouvir a história na voz de Paciência e seguir as conexões que Pessoa (personagem) faz, roubam-me as tardes.

Destaco ainda a apresentação do romance, feita por Mia Couto – um outro presente. Em três ou quatro páginas, o escritor fala de seus primeiros contatos com o poeta português e da admiração que tinha por ele. Fala ainda de sua tentativa, como amigo, de demover Elisa Lucinda de seu desejo de escrever sobre a vida de alguém que só existiu naquilo que escreveu, alguém cuja vida não se conta. Essa reflexão de Couto remete-me, inevitavelmente, a um trecho de Mrs. Dalloway, de Virgínia Woolf, no qual uma das personagens se questiona sobre a importância do corpo em relação a mente, mesmo estando completamente consciente de que a parte mais significativa de nossas vidas acontece por dentro. Assim, pergunto-me: o que importa a vida, a realidade, se se tem o sonho? Embora não tenha resposta definitiva para essa indagação, fico com aqueles que preferem sonhar, como fez Elisa Lucinda.

Compartilhe

Tiago Silva
Professor de línguas e literatura inglesa, apaixonado por literatura, música, cinema e por tudo aquilo que se pode fazer a partir disso. Escuta a mesma música milhares de vezes e adora viajar. Capricorniano com ascendente em aquários, vive uma permanente confusão entre a estabilidade e a racionalidade do primeiro e a imprevisibilidade e imaginação do segundo. Em outras palavras, é um caos.
Tiago Silva

Tiago Silva

Professor de línguas e literatura inglesa, apaixonado por literatura, música, cinema e por tudo aquilo que se pode fazer a partir disso. Escuta a mesma música milhares de vezes e adora viajar. Capricorniano com ascendente em aquários, vive uma permanente confusão entre a estabilidade e a racionalidade do primeiro e a imprevisibilidade e imaginação do segundo. Em outras palavras, é um caos.

Postagens Relacionadas

Rugido_2
Lista: 3 séries feministas para assistir na Apple TV+
Não é de hoje que sou entusiasta emocionada do streaming da Apple, o Apple TV+. Dentre os motivos, estão...
foto da revista capituras
Capituras: revista cultural potiguar com foco em produção de mulheres é lançada
O Rio Grande do Norte acaba de ganhar a primeira revista cultural com foco na produção artística realizada...

Deixe uma resposta

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Revista Pagu
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.