Toda versatilidade e ressonância musical potiguar poderá ser sentida na noite da próxima terça-feira (08), na celebração do prêmio Hangar de Música. Em sua décima primeira edição e com o tema “Canta Teu Lugar e Encantarás o Mundo”, a premiação idealizada pelo produtor cultural Marcelo Veni será apresentada pela atriz Quitéria Kelly. O Hangar tem por finalidade reconhecer, valorizar, divulgar e incentivar a produção musical do estado, da região e do país. A cerimônia será realizada no Teatro Riachuelo e o homenageado deste ano será o cantor e compositor Mirabô Dantas.

Ao todo são vinte categorias diferentes, divididas em treze competitivas e sete especiais. Para a seleção dos indicados foram realizadas pesquisas de opinião direcionadas a músicos, produtores, gestores de espaços culturais, jornalistas e artistas em geral no território criativo da Ribeira. Voltado para a produção e o jornalismo, o júri oficial deste ano, é composto por: Fábio Farias (jornalista), Yuno Silva (jornalista e produtor), Daniel Rezende (Músico e Produtor), Sérgio Vilar (jornalista) e Yanna Medeiros (Produtora). A Coordenação da comissão ficou por conta do consultor cultural Josenilton Tavares. A iniciativa, foi uma valorização a área de comunicação, servindo também como estímulo à contribuição e percepção crítica da produção musical do estado.

Embora esta jornalista que vos escreve creia nas múltiplas expressões e formas de fazer música e acredite que todas tem sua versatilidade e relevância única, sabe ela também que premiações, de um modo geral, têm o caráter incentivador e não competitivo. Sendo assim, nós d’O Chaplin, espertos e antenados que somos, vamos levar até você, leitor, alguns palpites e impressões a repeito dos concorrentes. Liderando a lista de indicados estão a cantora Khrystal e a banda Rosa de Pedra, ambas com sete indicações, logo em seguida está a Valéria Oliveira, com três categorias. Uma das revelações musicais mais interessantes do ano, digo isso sem exageros, é o mossoroense, Artur Soares, que abocanhou quatro indicações, ao lado do Quarteto Linha. Nossas avaliações e “pitacos” vão para as seis principais categorias estão: Artista, CD, Show, Música, Banda e Revelação do ano.

Artista do Ano:
Khrystal;
Rosa de Pedra;
Valéria Oliveira;
Artur Soares;
Quarteto Linha.

Figuras já conhecidas do cenário potiguar, Khrystal, Valéria Oliveira e a banda Rosa de Pedra não estão muito distantes assim. O projeto idealizado pela produtora cultural Mônica McDowell, Retrovisor, uniu os mais afiados e afinados compositores e cantores da MPB natalense: Valéria Oliveira, Khrystal, Ângela Castro (vocalista do Rosa de Pedra), Simona Talma e Luiz Gadelha. A troca de ideias, de composições e influência rendeu aos ouvidos um álbum, “Pra que Serve a Música” (2007), e frutos posteriores em trabalhos individuais de cada artista.

Khrystal lidera as indicações ao prêmio

O tempo passou, mas as parcerias musicais e as amizades permaneceram. Khrystal lançou “Coisa de Preto” (2007) e num misto de côco, MPB e samba, fez um dos debut mais criativos inovadores que já ouvi. Eis então que ano passado ela deu mais um passo na consolidação de sua carreira e espantou pra bem longe a maldição do segundo disco, firmando-se não só como um nome forte da música potiguar, como também nacional com o seu delicioso “Dois Tempos” (2012). O bendito segundo trabalho da cantora figurou em diversas listas dos melhores discos do ano (passado). O clima gostoso de ritmos nordestinos, poesia em versos com o charme e voz natalense que só Khrystal tem fazem deste um dos discos mais viciantes dos últimos anos. “Hypado” ou não, o negócio é sempre andar bem acompanhado, quem assina a produção musical do álbum é o multifacetado Eduardo Taufic.

Valéria Oliveira homenageia Clara Nunes em seu disco “Em Águas Claras”

Ainda seguindo os rastros do Projeto Retrovisor, temos a Valéria Oliveira que tomou de assalto as guias e o vestido branco de baiana da sempre diva Clara Nunes em seu “Em Águas Claras” (2013). Resultado de uma ampla pesquisa de repertório iniciada pela artista em 2008 e de uma série de apresentações realizadas em Natal, que contou com as ilustres participações dos bambas Monarco e a Velha Guarda da Portela, D. Ivone Lara e o maestro Rildo Hora. No ano em que a morte de Clara completa trinta anos, a potiguar Valéria fez uma homenagem pra ninguém botar defeito. O sétimo álbum da cantora natalense também marca seus vinte e dois anos de carreira. Juntinho com o disco de sua parceira musical, Khrystal, são, em minha opinião os nomes mais fortes da categoria.

CD do Ano:
“Demaré” (Rosa de Pedra);
“Dois Tempos” (Khrystal);
“Em Águas Claras” (Valéria Oliveira);
“O Som que Vem” (Manoca Barreto);
“Grave” (Androide Sem Par).
O grupo Rosa de Pedra faz uma fusão de ritmos nordestinos com pitadas de rock

O grupo Rosa de Pedra desde 2002 atua na cena musical independente natalense, e embora já na batalha há dez anos, “DeMaré” (2012) é apenas o segundo disco da banda. No repertório, composições autorais e uma profusão musical que mesclam elementos do repente, côco, MPB, rock e mais um bocado de ritmos que se eu fosse elencar não caberia num só texto. Os músicos já marcaram presença no programa global Som Brasil em homenagem a Dominguinhos e dentre as músicas apresentadas, uma em questão entrou pro repertório foi “Pedras que Cantam”. Acho que uma das faixas mais emblemáticas do álbum tem uma frase que diz bem como o grupo é: “Eu tenho faca, queijo e café, batuques do candomblé. Canto, rock, show e fé. E eu vou lá, vou lá no meu rolé…” da faixa abre-alas “Rolé”. Segue na briga, sem muita distância, de Valéria Oliveira e Khrystal.

Juão Nin é o homem a frente da banda Androide Sem Par

O ator, performance, cantor e compositor Juão Nin deixa momentaneamente seus parceiros da banda “AK47” e toca seu projeto solo  Andróide Sem Par, após a ajuda no projeto catarse, o álbum “Grave” (2013) saiu sob o selo Dosol Net Label. A banda de um homem só foi batizada com o título de uma das composições do cantor Cazuza. Juão revela aqui seu lado intimista e, por que não dizer, frágil, expondo desamores em versos, e ao compartilhar suas angústias, faz de sua música pessoal algo tão plural e tátil àqueles que já tiveram seu coração partido. A escolha do single foi certeira, a balada “Esses Meses”, antes mesmo da conclusão do disco, já era faixa cativa do meu mp3 player. A produção do disco fica por conta do sempre competente Luiz Gadelha que se subdivide em seus vários projetos.  

Show do Ano:
“Clássicos do Baião” – Tributo a Gonzagão – Orquestra Sinfônica da UFRN e Convidados;
“Demaré” – Rosa de Pedra;
“Dois Tempos” – Khrystal;
“Em Águas Claras” – Valéria Oliveira;
“Ópera Rock” – Hilkélia.
Orquestra Sinfônica da UFRN com Camila Masiso

As produções “made in RN” cada dia mais têm mostrado que não devem a artista de nenhum estado. Das ideias, dos estudos, da geração dos discos até chegar no palco e repassar tudo com emoção e gerando química com a plateia, este é um dos maiores desafios do artista. Dos indicados, pude assistir a prévia do que viria a ser o show “Dois Tempos”, quando Khrystal abriu o show do maranhense Zeca Baleiro tempos atrás, mas também pude conferir a apresentação da Orquestra Sinfônica da UFRN em duas ocasiões e aprovei os arranjos.

Música do Ano:
“Dois Tempos” (Khrystal/ Cd Liz Rosa e Khrystal);
“Na Lama, Na Lapa” (Khrystal e Valéria Oliveira/ Cd Khrystal);
“No Rolé” (Angela Castro/ Tiquinha Rodrigues/ Toni Gregório/ Cd “Demaré” – Rosa De Pedra);
“Da Minha Terra” (Artur Soares/ cd “Bodoque” – Artur Soares);
“Eu Tô Naquela” (João Henrique Koerig / Cd “O meu Samba é Assim” – Quarteto Linha).
Quarteto Linha de passe faz samba com sotaque nordestino

O grupo de samba natalense Quarteto de Linha, formado em 2007, lançou este ano seu primeiro álbum, “O Meu Samba é Assim” (2013). Já ganhou elogios pela crítica que manja do ritmo e jornais cariocas compraram o samba nordestino do grupo. Um dos tantos artistas locais que em nada devem a ninguém, o Quarteto tem em seu currículo shows de abertura para nomes como Demônios da Garoa, Diogo Nogueira e Casuarina, além de terem participado dos programas globais “Encontro Com Fátima Bernardes” e “Som Brasil”. A faixa em questão “Eu Tô Naquela” composta pelo vocalista João Henrique Koerig, cuja voz suave remete um pouco a João Cavalcanti (Casuarina), Moyseis Marques e Paulinho da Viola, o que garante um pedigree de suavidade. A composição foi concorrente da São Paulo Exposamba deste ano, num tom confessional e, como os clássicos do samba, narra uma triste desilusão amorosa.

Banda do Ano:
Dusouto;
Rosa de Pedra;
Quarteto Linha;
Saturnino;
Rastafeeling.
Os “cretinos” do Dusouto fazem som dançante que agrada aos natalenses

Os caras do Dusouto sempre são favoritos em premiações, com o discurso de que “Pode dizer que eu sou um Cretino”, da faixa de abertura do seu mais novo trabalho, que dá nome ao terceiro disco do trio power, “Cretino” (2012). Com seus beats eletrônicos, samples misturados com cavaquinhos, tamborim, ritmos regionais e letras cheias de malandragem cantadas por Paulo Souto, embalam os eventos da cidade. A banda é tão querida entre os natalenses que é sinônimo de diversão, bons momentos e dança garantida. Confira o som aqui.

Revelação Musical do Ano:
Andróide Sem Par;
Artur Soares;
Far From Alaska;
Maíra Sales;
Matheus Jardim.
Artur Soares, mossoroense revelação faz som autoral de qualidade

Artur Soares foi a minha mais feliz descoberta musical dos últimos meses. O mossoroense de vinte e quatro anos faz um som de personalidade com sotaque e legitimidade incontestável, como há muito não ouvia. O músico cresceu ao som de Luiz Gonzaga, Beatles, Novos Baianos, Mutantes, Jovem Guarda e Bossa Nova. Todas essas referências, por mais distintas que possam parecer, se encontram na música do artista. Em uma fuga pro Rio de Janeiro em 2010, Artur pôde abrir seu leque de conhecimentos musicais, tocar com gente conceituada, como Jorge Ben Jor no ‘Corujão da Poesia’, projeto que acontecia no Leblon à meia noite, na Livraria Letras & Expressões. “Bodoque” (2013) apresenta doze faixas autorais com uma inspiração dos trovadores e poetas da rima que são tão comuns no interior do nordeste. Artur, que se apresentou recentemente no Festival MADA, é sem sombra de dúvidas a maior revelação da música potiguar. Confira seu disco aqui.

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