Há alguns meses comecei a ouvir os primeiros comentários sobre “Frances Ha”, filme que por algum motivo me parecia francês (o nome, talvez?), demorei a assimilar que se tratava de uma produção americana  (com co-produção brasileira), rodada em boa parte em Nova York. O filme não integra o circuito comercial hollywoodiano, o que fez com que ganhasse a etiqueta de “cult”, e caísse nas graças dos espectadores que procuram novidades cinematográficas alternativas na internet. Os comentários a que tive acesso eram sempre de imediata aprovação e elogios, sobretudo à personagem: Frances parecia encantadora. Como toda boa cinéfila, criei expectativas. Contudo, não cedi à tentação de baixar o filme e ver na tela de 14 polegadas do meu notebook. Esperei pacientemente que o filme chegasse à Sessão Cult do Cinemark (Midway Mall) e lá estava eu, com ingresso em punho e coração ansioso, pronta para apaixonar-me por Frances.

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Não aconteceu. Não me entenda mal, leitor. Continue a leitura e você verá que não estou criticando o filme em questão, mas a realidade é que Frances Ha é um daqueles filmes que para se afeiçoar é necessário amar a personagem em torno da qual a obra se desenrola. Trata-se de um filme honesto, partindo do momento em que se intitula com o nome de Frances: realmente, Frances Ha é um convite, ou melhor dizendo, um desafio a conhecer a jovem um tanto desorientada Frances e amá-la. Não deve ser difícil para a maioria das pessoas, afinal Frances é uma espécie de alterego de todo mundo: sempre sonhando, um tanto desastrada e sem jeito, não acredita que a adolescência já se passou há anos e ainda esforça-se para se encontrar na vida adulta. Contudo, por algum motivo, a falta de senso de Frances, ou talvez sua inconsequência tenham me deixado receosa com o contato. Talvez Frances seja tudo o que evito ser e por isso mantive a cordialidade em vez de ceder à paixão súbita.

Frances Ha é estrelado pela jovem e talentosa atriz Greta Gerwing, que também assina o roteiro do filme. Acredito que, por isso, ela conhecia bem o papel, e foi competente em sua atuação. A direção do longa ficou a cargo de Noah Baumbach, mais conhecido por obras como “A Lula e a Baleia” e “Margot e o Casamento”. A propósito, um dos meus desafios no longa foi entender algumas escolhas da direção, que a um primeiro olhar pode parecer confusa, mas com um pouco de esforço, é possível compreendê-la. Um desses aspectos é a opção pela fotografia em preto e branco. A princípio, parece incoerente com a proposta da filme (uma comédia que, de alguma forma, exalta a vida). Cores viriam a calhar. Mas encarei como, mais do que uma opção estética, uma nova forma de desafiar o espectador a acompanhar Frances e adentrar seu mundo, mesmo sem os atrativos das cores. Ali está apenas Frances, em sua essência. O preto e branco também se encaixa na confusão da vida da personagem, e funciona como um simbolismo para o fato de que as coisas ainda não “entraram nos eixos” para ela. Frances ainda procura as cores da sua vida, e me arrisco a dizer que continua sem encontrá-las totalmente ao fim do filme.

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Há também quem possa julgar o roteiro do longa um tanto confuso. Eu mesma fui dessas a enrugar a testa antes de aceitar completamente o estilo “atrapalhado” do filme. Contudo, também essa característica é uma forma de nos introduzir ainda mais no mundo de Frances. Assim, o roteiro é construído como a própria vida da protagonista: confuso, sem um propósito aparente, mas sempre seguindo em frente e nos surpreendendo. E com muito bom humor.

No filme, Frances sonha em ser uma bailarina de sucesso, e a dança acaba servindo como pano de fundo para a história. Esse aspecto é associado a um momento de autoconhecimento na vida da protagonista. Aqui, os roteiristas (Noah e Greta) são felizes quando equilibram os limites do possível entre o sonho e a realidade, quando Frances aos poucos é empurrada para longe do que almeja e ao mesmo tempo para mais perto de onde reside o seu verdadeiros talento, embora esse não seja mesmo o seu sonho de infância. O espectador compadece-se com o aparente fracasso de Frances, mas não é isso mesmo que acontece todos os dias na vida real? Poucos de nós sustentam e consolidam um sonho para sempre, alguns se frustram por nunca terem-no alcançado, e a grande maioria acaba mudando o percurso no meio do caminho, boa parte das vezes por identificarmos que há uma rota mais fácil, mais atraente ou mais coerente e que antes ignorávamos.

Para concluir esse texto, quero chamar atenção para um aspecto do filme de Noah Baumbach que tem sido pouco comentado, mas que é bem explícito para um espectador mais atento. Frances Ha é mais um da leva que aborda o homossexualismo de uma forma contida e discreta. Durante todo o filme, os conflitos de Frances e boa parte de seus interesses giram em torno da amiga Sophie (Mickey Sumner). Começando pelo início do longa, quando a personagem recusa morar com o namorado para não abandonar a amiga, que não age da mesma forma, decidindo que vai morar em outro lugar, ainda que Frances não a acompanhe. A reação de Frances é a frustração. O mesmo acontece quando Sophie inicia um namoro, quando viaja para o Japão e quando fica noiva. Não explicitamente, aos poucos vão se construindo características de um relacionamento amoroso na amizade das duas. Sophie sempre receia contar grandes mudanças para a amiga justamente por as reações de Frances (quando o assunto é Sophie) serem sempre imprevisíveis.

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Frances (Greta Gerwig), à direita, e a amiga Sophie (Mickey Sumner).

Frances é definida pelo amigo Benji (Michael Zegen) como “undateable”, ou seja, alguém inacessível. Ninguém consegue atingir tão fortemente Frances ou causá-la grandes mudanças, a exceção da própria Frances e de Sophie, a opinião que mais parece contar para a protagonista. Também em outro momento do filme Frances comenta com um grupo de conhecidos o que seria um relacionamento ideal para ela: uma relação em que um olhar mútuo pudesse conduzi-la a outra dimensão, que só seria acessíveis àquelas duas pessoas. Posto isso, Noah deixa clara a sua intenção para as duas personagens quando, em uma das últimas cenas do filme, há a já mencionada troca de olhares entre elas e são utilizados recursos da linguagem do cinema para representar essa “dimensão” a que Frances se referira. A relação gay entre Frances e Sophie não é explícita e nem muito menos chega a se consolidar no filme, mas fica a dica do que acontece intimamente no campo dos sentimentos, e nas entrelinhas do cuidadoso roteiro de Greta Gerwig e Noah Baumbach, o que talvez nem mesmo a própria Frances (em meio a toda a sua confusão e busca por autocompreensão) tenha percebido.

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Frances Ha é um filme divertido e agradável e se mostra competente na missão de explorar o mundo de sua personagem, em suas várias ramificações. O filme também tem direção, roteiro, fotografia e trilha sonora coerentes, todos os aspectos técnicos parecem dar as mãos e fluir sem entraves de percurso. O problema, que me impediu de achar o longa um “grande” filme é a falta de sentido da própria Frances que, ao mesmo tempo que parece um pedaço de todo mundo em algum momento, também incomoda por não ter uma verdadeira razão de ser na vida (e no filme). Mas isso é um parecer (e uma chatice) pessoal e aqui utilizo da parcela de subjetividade que me é permitida para dar modestas três estrelas para o filme, ainda que mais na frente, quando Frances finalmente cair nas minhas graças, eu mude de opinião.

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