Arya Stark e Jon Snow se reencontram

Game of Thrones sucumbe à pressa e termina mal

O TEXTO A SEGUIR CONTÉM SPOILERS!

Nunca fui fã de Game of Thrones (2011 – 2019)! Sempre achei exagerado os arroubos dos apaixonados que insistiam estar vendo a melhor série de todos os tempos. Não por achar ruim, longe disso, mas por não enxergar que ela fosse tão boa assim. De qualquer forma, seria uma tolice absurda da minha parte querer diminuí-la e não reconhecê-la como uma das melhores. Mesmo oscilando entre as temporadas, não dá pra descartar a profundidade dos roteiros, a complexidade das personagens e sua escala.

Por isso, me espanta ver que o desfecho de um dos eventos mais aclamados da TV possa ter saído tão aquém do restante. O cuidado caloroso com o texto, seu bem mais precioso, esbarrou na frieza de um cronograma e na natural expectativa dos próprios envolvidos para o fim de uma era. Produtores e roteiristas tinham que lidar com as pontas soltas, a ansiedade dos fãs e o sensível cansaço da jornada, tudo em seis episódios, o que fez a atração sucumbir diante da pressa.

O episódio de abertura, Winterfell, já mostrava falta de objetividade e o erro no foco da trama. Apesar de reunir os irmãos Stark, teve na essência a realocação das “peças no tabuleiro”. Dava para enxugar e unir a A Knight of the Seven Kingdoms, o segundo capítulo que, ao meu ver, foi o melhor. Trouxe uma interação inteligente entre personagens, emoções bem construídos, calma e uma atmosfera fúnebre convincente, eficiente ao nos fazer acreditar que qualquer um poderia morrer.

A partir de The Long Night, as coisas começaram a degringolar. Um dos momentos mais aguardados, a batalha contra o exército dos mortos seria memorável se pudesse ser vista adequadamente. Apesar da escolha coerente de aproveitar a escuridão como elemento de ambientação e agravante dramático, a fotografia errou a mão na pouca iluminação. Se, por um lado, nos jogava na guerra, por outro dificultava a nossa compreensão de quem caia, quem lutava e quem morria – por três vezes achei que Tormundo (Kristofer Hivju) havia morrido. E quando era possível enxergar melhor, a edição nervosa e a câmera trêmula tornavam tudo pouco inteligível.

Não bastassem as falhas visuais, o roteiro apontou inconsistências narrativas. Melisandre (Carice van Houten) aparece quase que por acidente, basicamente para tornar a ação visível para nós, e sai de cena de sem muita lógica. Após dizer que não sobreviveria até o sol nascer e não ser morta pelos inimigos, a discípula do Deus da Luz tira a própria vida sem muita justificativa, apenas para cumprir sua palavra. É como se ela pensasse:

– É… Já que eu prometi e não fizeram nada a respeito…

Arya Stark e Jon Snow se reencontram

Muito mais grave é o Rei da Noite. Foram oito temporadas criando expectativas para o combate mais importante dos Sete Reinos. Oito anos de “The winter is Coming” para, no momento decisivo, ser derrotado sem oferecer o mínimo de resistência, sem ser um oponente físico que justificasse sua relevância. Um final anticlímax e injusto com a maior ameça dos humanos.

The Last of the Starks gasta minutos preciosos com a comemoração pós-batalha e os preparativos para a ida à Porto Real. Por esse erro de foco narrativo, momentos cruciais como a perda de Rhaegal e a captura e morte de Missandei (Nathalie Emmanuel) não ganham a atenção necessária para solidificar a mudança comportamental de Daenerys (Emilia Clarke).

Todo a dor da mãe dos dragões nos é poupada. Seu luto é mostrado muito rapidamente, basicamente compreendendo o tempo entre episódios e não desenvolvido em tela. Vale ressaltar ainda que as duas perdas resultam de uma ação “furtiva” de uma frota Greyjoy que avançou sorrateiramente, em mar aberto, e passou desapercebida pela mãe dos dragões, que sobrevoava o local e NÃO VIU as embarcações.

Outro potencial prejudicado foi The Bells. Com uma técnica extremamente apurada, a direção elaborou uma destruição imponente, cheia de efeitos práticos, computação gráfica de alta qualidade, tensão e agonia. Visualmente falando, uma das coisas mais impactantes que vi na TV. A falha está novamente no texto. Cersei (Lena Headey) é, sem dúvidas, uma das personagens mais impressionantes da atração. Com um arsenal forte de traição, manipulação, incesto, ego e arrogância, a Lannister também foi amorosa, através da relação com o irmão Jaime (Nikolaj Coster-Waldau) e da devoção pelos filhos, e vítima, pelo que sofreu ao longo da vida.

Por todo o seu arco complexo e sólido, merecia uma despedida à altura. Alguém tão importante deveria ter uma morte mais impactante e eficiente dentro do enredo. Algo forte, coerente com as atrocidades cometidas, dando à plateia algum senso de justiça, e com sua representatividade. Mas, infelizmente, o que vimos foi uma cena morna, que feriu o passado da própria atração ao se distanciar das profecias reveladas mais atrás e afagou uma das figuras mais cruéis Westeros.

Já a Quebradora de Correntes foi tratada com profunda desonestidade. O problema não está no massacre de milhares de inocentes promovido por ela – foi uma catarse interessante -, mas em como fomos conduzidos até ele. O erro foi não oferecer uma transformação consistente. Durante sete temporadas, vimos uma mulher dura, mas de caráter inquestionável, retidão moral e compaixão pelos mais necessitados. Sua busca pelo poder jamais pareceu tirana, como mostrado em diversas ocasiões. Anos de uma construção firme para ser demolida por causa de alguns acontecimentos mal explorados.

Daenerys conquista Porto Real à força

Havia indícios de inclinação para o autoritarismo, falta de diálogo e desejo de vingança, mas nada que justificasse tamanho declínio moral  em menos de uma temporada – que já foi reduzida. É como se, na corrida pela loucura, Daenerys fosse uma Ferrari, capaz de sair de 0 a 100 Km/h com tão pouca pista. Nós a conhecemos repleta de virtudes e depois a vimos em seu momento mais desumano, faltou mostrar a transição entre os dois pontos.

Sobre seu fim em The Iron Throne, gostei da traição de Jon Snow (Kit Harington), tanto por ele sempre ter sido justo quanto pelo relacionamento de ambos, mas não gostei de como a cena foi conduzida. Além da completa falta de química entre os atores, a reação de Drogon foi absurda. Num lapso de compreensão sociopolítica, o dragão concentrou o ódio pela perda da mãe no Trono de Ferro, derretendo o que, para ele, representava o verdadeiro responsável por sua dor. Um dragão com tamanho autocontrole e invejável capacidade de interpretação é raro nos dias de hoje…

Caiu sobre Jon outro deslize da produção. Durante sua jornada, foi descoberto que ele era um autêntico Targaryen e, portanto, legítimo herdeiro do Trono. Essa informação incomodou a Nascida da Tormenta, que suplicou para amado manter segredo – coisa que ele não fez. Dessa forma, algumas pessoas importantes sabiam da verdade e foram insistentes ao tentarem convencer o ex-Patrulheiro da Noite a reivindicar o Trono. E quando ele decidiu fazer algo sobre, não assumiu o Reino…

Duas semanas se passam e descobrimos que Jon está preso pela traição, o que deixa perguntas relevantes no ar: se o dragão levou o corpo pra longe e ninguém viu o que aconteceu, como descobriram quem matou Daenerys? Porquê as pessoas que sabiam da verdadeira identidade de Jon – Sansa, Arya e Tyrion – não usaram a informação para tirá-lo da prisão, evitar mandá-lo para a Patrulha da Noite ou mesmo torná-lo o Rei dos Sete Reinos? Como os Imaculados, sempre fieis a Daenerys, foram incapazes de matar o assassino de sua líder, a libertadora de seu povo? Não se usa uma elipse temporal dessa maneira, deixando tantas deduções para perguntas importantes.

Ainda temos a questionável nomeação de Bran (Isaac Hempstead Wright) a sobreano dos Sete Reinos. Não pela personagem em si, mas pelo seu desenvolvimento. Já faz um tempo que Bran se resume a revirar os olhos, encontrar respostas que jamais são ditas e não contribuir em nada para o andamento da história. Seu principal feito foi mostrar a verdade sobre Jon, o que findou não sendo útil já que tal fato foi ignorado pela produção.

O Rei da Noite em meio à escuridão de The Long Night
O Rei da Noite em meio à escuridão de The Long Night

O problema definitivo da temporada derradeira de Game of Thrones foi a pressa, a necessidade de finalizar logo. Deu aos episódios uma urgência desnecessária que danificou o desenvolvimento. Embora algumas opções sejam questionáveis, é o trajeto tumultuado que prejudica o encerramento, os atalhos tomados, findando na falta de zelo tradicional pelo conteúdo. O intrincado jogo político, repleto de manipulação e diálogos impecáveis, tornou-se um remendo de ideias – boas e ruins – jogadas de qualquer forma em tela. Não se deve sujar toda a imagem criada ao longo de uma década por causa de um final insatisfatório, mas também não dá para aceitar feliz o que nos foi jogado, nem mesmo nós que nunca fomos fãs!