Hail, Coen!
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Noite de terça-feira, eu havia conseguido pegar o meu lugar favorito na sala de cinema para finalmente assistir à nova obra dos irmãos Coen, “Hail, Caesar!”, ou “Ave, César!” no Brasil, ainda a tempo antes que o filme saísse de cartaz após o fim da segunda semana de exibição na sessão Cinema de Arte do Cinépolis Natal Shopping.

Atrás de mim, em meados dos trailers, se acomodou um grupo de pré-adultos que falava e ria alto, ignorando o restante do público da sala. “De que é esse filme?”, um deles pergunta. “Sei lá, falaram que era de comédia.” Lamentei silenciosamente pelo quanto aqueles jovens estavam perdidos, mas o que me permiti expressar em bom som foi o pedido de silêncio, que incrivelmente (confesso que não acreditei que não obteria sucesso) fora prontamente  atendido.

Acredito que um filme que atinge a plenitude de seu sucesso enquanto produto de entretenimento é aquele que faz entender por si só e não exige de seu público nenhum tipo de “pré-requisito” para a compreensão da obra. No entanto, quando falamos do caráter artístico do cinema, faz-se necessário admitir que alguns filmes segmentam em sua essência o público que atingirão, por meio de intertextos e referências diversas, ao ponto que uma cena extremamente engraçada para o público alvo não terá a menor graça (ou mesmo sentido) para o público médio. Esse definitivamente é o caso de Ave, César!, que exige de quem se propõe a assisti-lo uma boa carga de conhecimento histórico do cinema clássico hollywoodiano.

Hail Caesar!

Josh Brolin e Scarlett Johansson são, respectivamente, o produtor de um grande estúdio, e uma atriz sex symbol consagrada

Joel e Ethan Coen não são de filmes pequenos. Os dois realizadores não se prestam a papéis diminutos e, quando dirigem a cena, garantem uma película de qualidade. “Ave, César!” é talvez o filme mais diferente de seu repertório de bons roteiros, temas densos e tons crus. Aqui temos cores vivas inseridas em uma direção de arte admirável, pequenas histórias que se envolvem, mas não se aprofundam, e personagens caricatos para compor o cômico cenário satírico da Era de Ouro de Hollywood.

No entanto, não se engane, caro leitor: conjugados à graça e à beleza deste filme, os irmãos Coen não esqueceram as tramas e dramas comuns aos realizadores e artistas da época: a frustração de um produtor que se equilibra entre a paixão pelo cinema e a incerteza que aquela nova arte emana; a preocupação da adorada sex symbol em passar uma imagem vendável e absolutamente destoante da sua realidade; o comunismo no meio artístico, que lutava contra o crescimento dos valores do capitalismo dentro dos estúdios; e a tentativa de esconder escândalos de “sodomia” (sic) entre as grandes estrelas da indústria, por exemplo.

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O experiente Ralph Fiennes encarna um apaixonado diretor de dramas

Outras abordagens mais generosas e leves também encantam: é admirável para qualquer cinéfilo ver as homenagens aos gêneros do cinema clássico, como o épico, o musical, o faroeste e o drama, e ainda a representação cômica dos estereótipos do star system norte americano. Para tanto, faz-se um uso exagerado e por vezes mal aproveitado de um elenco de peso. Na listagem, figuram Josh Brolin, George Clooney, Ralph Fiennes, Jonah Hill, Scarlett Johansson, Tilda Swinton e Channing Tatum.

Aparecem os créditos e retomo a menção aos jovens perdidos atrás de mim. “Que filme foi esse, hein?”, um fala, num tom de quem procura concordância do resto do grupo. “Sei lá, boy. Que filme lixo. Mas a sessão de Invocação do Mal começa agora”. E saíram lamentando o dinheiro gasto e o filme do qual muito pouco haviam compreendido.

Eles não foram enganados. “Hail, Caesar!” é de fato um filme de comédia. Mas faz-se necessário um repertório cinematográfico extenso para absolvê-lo por completo e assim extrair dele sinceras gargalhadas. Em seu novo filme, os irmãos Coen produziram uma homenagem de bom gosto ao cinema e um presente primoroso aos cinéfilos. Que figure na estante dos mais belos mimos metalinguísticos inspirados pela Sétima Arte. Ave, Coen!

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