Homecoming – Beyoncé artista, mulher e mãe

Não é novidade que a Beyoncé é uma das artistas mais bem-sucedidas na história da música, o talento da cantora, notório desde sua carreira no grupo Destiny’s Child, é inquestionável, principalmente para aqueles que já apreciam o seu trabalho.​

Lançado pela Netflix em abril deste ano, “Homecoming” é um documentário roteirizado, dirigido e protagonizado pela própria Beyoncé, traz um paralelo entre o glamour de seu lado artístico em cima dos palcos, e um olhar quanto pessoa, mulher e mãe.​

O documentário pode ser um verdadeiro presente para os fãs da artista, as mais de duas horas de produção trazem imagens do seu histórico show no Festival Coachella, em 2018, sendo a primeira mulher negra a ser headliner do festival. Logo, o intuito da apresentação era levar a cultura negra e a representatividade feminina para o palco, levantando o discurso de empoderamento.​

Durante o filme também é explorado o seu lado mulher e mãe. O processo de gravidez que a mantiveram afastada dos palcos durante algum tempo, é mostrada de maneira muito pessoal e pelo ponto de vista da própria, o nascimento de seus filhos gêmeos surpreendeu a cantora – segundo ela mesma – o que a acarretou num sobrepeso fazendo-a tomar alguns cuidados com o seu corpo.​

“Tive que recuperar meu corpo dos cortes da cesárea, levei um tempo para me sentir confiante o bastante para pôr a minha personalidade nela. No começo eram tantos espasmos. Internamente, o meu corpo não estava inteiro. A minha mente não estava presente. A minha mente queria ficar com os meus filhos. O que as pessoas não veem é o sacrifício” – Beyoncé.

Tanto o processo de ensaio e escolha dos dançarinos para a apresentação de 2018, quanto ao preparo físico são explorados. A direção intercala momentos do show como a interação e preparo dos bastidores quatro meses antes do festival acontecer, o árduo progresso de Beyoncé para o retorno aos palcos, mostrando que ela está literalmente voltando para o seu lar.​

Beychella: Representatividade e empoderamento​

As ideias para a realização do Beychella surgiram da concepção da própria cantora, contando seu desejo de ir para o Texas Southern University, em Houston, sua cidade natal. Sendo assim, a artista usou como inspiração as universidades historicamente negras para compor o discurso de representatividade ao show.

A inclusão de bandas das instituições servem de inspiração, além de ser explorada dentro do documentário com depoimentos dos dançarinos e instrumentistas. A relação entre representatividade e o empoderamento negro e feminino, fizeram dessa apresentação não apenas mais uma do festival, mas, o discurso entoado por Beyoncé tornaram-se o grande diferencial da performance.

O discurso de representatividade e empoderamento entoado por Beyoncé tornaram-se o grande diferencial da performance.

A playlist escolhida engloba toda sua carreira entre as suas principais canções de trabalho, sendo ao público um contador de histórias sobre ela e sua trajetória na música. O destaque a cultura negra americana não é gratuita, possui propósito de contar histórias, seja da cantora como de sua equipe, mostrando nos bastidores o processo de estudos para criação do show.​

Homecoming inicia-se com a seguinte frase: “Se você se render ao ar, poderá voar”. A citação de Toni Morrison, famosa autora formada pela Howard University, e primeira escritora negra a conquistar o Nobel de literatura, em 1993, escrevia romances sobre questões raciais, políticas e angústias vívidas por mulheres negras nos Estados Unidos. Ao longo da produção outros autores são citados como Maya Angelou, Marian Wright Edelman e Reginald Lewis – o primeiro afro-americano a construir uma empresa no valor de 1 bilhão de dólares.​

Nenhum elemento que compõe a produção é adicionado de maneira gratuita, ambas as personalidades citadas são usadas como referências icônicas à representatividade da cultura negra do país, assim como o filme passa a força das instituições e dos que estudam nela.​ O que Beyoncé promove no festival Coachella trata-se de uma ode, em que se baseia na negritude americana não apenas no quesito artístico, mas também mostrando toda a fonte de inspiração da carreira que a tornou uma das maiores artistas do mundo.​

Os bastidores​

Beyoncé é a maestrina de grande parte do projeto. Além de assinar a pré e a pós-produção de seu show no Coachella, ela também concebe boa parte da realização do documentário como roteiro, direção, também assinado por Ed Burke, e produção, o que é notável de certa forma pelo olhar mais íntimo e pessoal do filme.​

O público consegue assistir a dedicação e o preparo do concerto durante os quatro meses que o antecedem, desde as escolhas dos dançarinos aos ensaios com a banda. Da mesma maneira que exige de si, ela também extrai de sua equipe. São vários dançarinos e integrantes da banda, além da grandiosa equipe nos bastidores que ajudam a fazer o show acontecer.

Os ensaios, escolha dos dançarinos, e o preparo físico são explorados, sendo que a direção intercala momentos do show e bastidores.

Mas é nos bastidores que conhecemos seu lado mulher e mãe, o processo de recuperação da gravidez dos gêmeos Sir e Rumi é árduo e exaustivo. “Houve dias em que eu senti que a minha resistência e a minha força física nunca mais voltariam a como elas eram antes”. A família é um grande pilar, onde se encontra sua principal base. A interação com o elenco que compõe seus shows e a relação de mãe, mulher e amiga, ainda com o grupo que a revelou – Destiny’s Child – traz seu lado mais humano, indo além do glamour da vida nos palcos.​

Direção​

Durante o projeto, é possível notar que a câmera passeia por diversos momentos da apresentação, tanto Beyoncé como o talento de sua banda e dançarinos são agraciados ao longo do documentário. Suas histórias, um dos grandes potenciais do filme, são sentidas, seja no palco ou nos bastidores.​

Nesse momento, é evidente a dimensão do projeto e de sua equipe, o que torna o concerto ainda mais empolgante ao espectador. Desde os conceitos de ângulos, enquadramentos até os filtros em preto e branco, compõem uma estética pessoal e uma visão construída moldando a maneira que ela deseja que o público a veja.​

Os cortes entre os dois dias de festival reforçam a beleza e o conjunto da obra, nos momentos em que são adicionados cortes secos entre as apresentações são notados pela mudança entre os figurinos, criando um belo jogo de cenas. Enquanto as músicas escolhidas ganham uma potência ainda maior com a mudança de cores e filtros.​

Por último, Homecoming acaba sendo mais que um simples documentário sobre um registro artístico, é o registro de um dos shows mais importantes para a representatividade sobre a cultura negra americana e o empoderamento feminino. Indo muito além do brilhantismo da diva nos palcos, é o registro de uma Beyoncé não só como artista, mas também mulher, mãe e humana.