Hotel Transilvânia: proibido para maiores de nove anos

 

Os monstros de Hotel Transilvânia

 À priori, quero advertir que minha opinião sobre Hotel Transilvânia pode ter sido completamente influenciável pelo fato de que assisti a produção, por duas vezes, dublada. Adianto que o filme, por si só, não é lá muita coisa, mas a dublagem absolutamente estragou tudo de bom que poderia ter restado. Claro, isso se você não é uma criança de cinco anos de idade.

Confesso que não tenho lá muito tino para criticar animações. Então vou na base do feeling mesmo. Sou completamente apaixonada por animações e capaz de rir e me encantar até mesmo com os estereótipos da Disney. Meu nível para animações continua o mesmo desde que eu tinha, sei lá, doze anos. Então, para que eu ache que uma animação ruim, realmente, ela deve chegar perto do insuportável para espectadores um pouco mais maduros que eu.

Algumas cenas conseguem ser engraçadas pela imprevisibilidade, como o Conde Drácula tocando ukulelê para a sua sua filha, Mavis.

O que me chamou atenção, a princípio, no filme: eles tinham elementos extremamente vendáveis em mãos e, se tivessem sabido como utilizá-los, um ótimo produto poderia ter saído. Mas no fim das contas, exatamente o que me atraiu foi o responsável por tornar Hotel Transilvânia uma produção brega, clichê e com pouca, quase nenhuma, graça.

Conde Drácula vê sua esposa sendo morta após um ataque de humanos e desde então, amedrontado, resolve ficar recluso. Para proteger sua pequena filha, Mavis, ele constrói um hotel que só poderá ser encontrado por monstros. O conflito está quando Jonathan, um adolescente humano, encontra, por acaso, o Hotel Transilvânia no aniversário de 118 anos da princesinha Drácula. E pior, apaixona-se por Mavis após ambos sentirem uma espécie de imprinting da série Crepúsculo (lembram?), a que a adaptação brasileira resolveu chamar, em um momento de infelicidade, de Tchan. Sim, é isso aí. Fiquei imaginando o real motivo disso. De tantos nomes possíveis, algum deveria ser menos ridículo que esse. Mas ok, sigamos.

Na versão original, Conde Drácula é dublado por Adam Sandler e Mavis por Selena Gomez

Daí em diante, o esforço para fazer o público rir é notório. Mas cadê graça? Sério, quem vai assistir filme infantil num sábado à tarde no Cinemark tem que estar preparado para ver mais que ouvir porque geralmente os risos são constantes. A sessão a que fui assistir estava lotada, com público infantil em peso,e durante todo o filme não ouvi mais que quatro ou cinco risadas coletivas. As piadas não cativam e nem mesmo os personagens, exagerados e estereotipados, conseguem ser lá muito engraçados, salvas algumas cenas.

O exagero está presente mesmo nos traços da produtora Sony
Drácula e Jonathan, adolescente curioso com tendência para a debilidade mental

O que sobrou em número de personagens, faltou em criatividade e originalidade no roteiro. Mas o erro mesmo foi a dublagem brasileira que, por falar em estereótipo, estava absurda. Chegou ao ponto de caracterízar os monstros de acordo com sotaques dos estados brasileiros. O operário tinha um sotaque explícito nordestino; Drácula e sua filha, anfitriões ricos, tinham sotaque “limpo”, como os de repórteres de TV; o lobisomem, com trezentos lobinhos para criar e uma esposa grávida com vestido florido, sustentava um carregado sotaque do interior de São Paulo.

Enfim, pouco me cativou em Hotel Transilvânia. Até ri, vez ou outra (como por exemplo, em uma referência satírica feita à Crepúsculo), para não perder completamente o ingresso, mas a breguice do roteiro e o apelo para o exagero me fizeram sair com aquela horrível sensação de que “não valeu o meu dinheiro”. Se eu tivesse um filho, poderia até levá-lo para assistir. Mas apenas se ele tivesse menos de sete anos. Depois disso, consideraria a animação dirigida por Genndy Tartakovsky uma afronta à sua inteligência e senso de humor.