Ian McEwan e David Cronenberg: os mestres da provocação

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Costumo dizer que Ian McEwan está para a literatura como David Cronenberg está para o cinema. A comparação se deve às muitas semelhanças de estilo entre o escritor britânico e o cineasta canadense.

Apesar de lidarem com mídias diferentes (na maior parte das vezes) e tenderem para temáticas por vezes distintas, ambos são extremamente psicológicos e dividem um peculiar apreço pelos polêmicos contos de terror. McEwan adora explorar as relações amorosas e enquanto Cronenberg tem um tombo antigo pelo sci-fi.

Praticamente todas as suas obras/longas tendem a se voltar para a natureza humana e tudo regado a muito sexo, violência e sarcasmo, a intenção é clara: provocar.

rabid Para entender melhor essa “ligação” é preciso voltar às origens da dupla. McEwan ganhou fama de “Macabro” no final dos anos 70 quando publicou as suas primeiras histórias, fortemente influenciadas pelos romances góticos dos séculos XVIII e XIX, que causaram polêmica ao confrontarem o leitor com questões morais, como a perda da inocência, incesto, traições, além de mortes bizarras.

A exemplo de seu primeiro romance O Jardim de Cimento (1978) e a coletânea de contos Primeiro Amor, Últimos Ritos (1975), na época a repercussão negativa foi tamanha que Geometria Sólida, um de seus contos que estava sendo produzida para a TV, acabou sendo vetada pela BBC devido “ao seu conteúdo obsceno”, a produção só foi de fato realizada em 2003.

No mesmo período Cronenberg fazia seu nome, quando escreveu e dirigiu os perturbadores A Mosca (1986) e Enraivecida na Fúria do Sexo ou simplesmente Rabid (1977). Enquanto o primeiro dispensa apresentações o segundo longa mostra o caos em Montreal gerado por um surto de raiva que transforma humanos em verdadeiros zumbis sedentos por sangue, a portadora do vírus é Rose,  que contamina seus parceiros durante o ato sexual. Quem a interpretou foi a famosa atriz pornô Marilyn Chambers (há quem acredite que a escolha por Chambers foi uma resposta as críticas de que seu longa anterior Calafrios seria pura pornografia). Essas e muitas outras obras renderam ao cineasta os singelos títulos de “Rei do horror venéreo” e “Barão do Sangue”.

Pelos anos que se seguiram, eles passaram por mudanças (McEwan sem dúvida mais do que Cronenberg). Porém, mesmo atualmente vivendo uma fase “mais branda”, os dois não perderam o tom sarcástico, nem muito menos o gosto pelo polêmico.

Reparação (2001) filho mais famoso de McEwan (se você não leu o livro provavelmente viu o filme protagonizado a balada de adam henry Ian McEwan companhia das letras  por Keira Knightley) é referência nessa nova fase do autor, retratando uma família disfuncional dos anos 30 e como a fantasia de uma menina pode desencadear graves consequências na vida de todos.

Assim como sua obra mais recente, A Balada de Adam  Henry (2014), que mostra a relação deteriorada de um bem-sucedido casal de meia idade dos dias atuais, que após muitos anos juntos simplesmente não progrediram, o envolvimento de ambos com pessoas bem mais jovens acaba agravando a situação. As obras exploram relações familiares problemáticas o detalhe é a ausência do tom macabro tão marcante nos primeiros anos da carreira do escritor.

Mapa para as Estrelas (2014), embora esteja longe do horror venéreo tão comum aos longas anteriores de Cronenberg, conserva o sarcasmo e a acidez que lhe são típicas, ao criticar o universo hollywoodiano na figura central de Havana Segrand (Julianne Moore) uma atriz decadente desesperada para voltar ao topo.

O fato é que você pode até não ser fã desses caras, odiar ou amar profundamente algumas de suas obras (dos thrillers mais loucos aos dramas mais brandos), porém nunca será indiferente, porque eles simplesmente são extremos e dominam como poucos a arte de provocar.

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