Invocação do Mal: o outro lado do exorcismo

Nos anos 70, uma pequena comunidade americana, Harrysville, é o destino do casal Perron, suas cinco filhas e sua cadela de estimação, onde passam a morar em um sobrado espaçoso, aconchegante e calmo. Formando o que costumava ser uma família animada e feliz, Carolyn (Lili Taylor) vê a vida de seu marido e filhas sendo vagarosamente arruinadas por um demônio que habita a casa, e então precisa da ajuda do casal de demonólogos Lorraine e Ed Warren (Vera Farmiga e Patrick Wilson) para expulsá-lo. O filme é dirigido pelo jovem James Wan e foi lançado, propositalmente (eu espero), na sexta feira 13 de setembro desse ano.

Uma mãe, um casarão, demônios… Já houve algo do tipo no cinema, não? É a mesma linha de raciocínio dos clássicos O Exorcista e O bebê de Rosemary. Wan, no entanto, consegue se diferenciar ao impor um tom documental ao filme, procurando sempre dar mais destaque aos fatos, e não aos sentimentos que cada personagem está vivenciando, o que acaba dando certo, pois o longa ficou enxuto e livre de clichês como câmeras manuais focando rostos aterrorizados. Essa opção, contudo, não o tornou menos assustador.

 

A atuação feminina dominou em “Invocação do Mal”. Lili Taylor pareceu compreender perfeitamente a filosofia de seu diretor, realizando um excelente trabalho ao retratar uma Carolyn completamente fragilizada, demonstrando não o desespero de uma vítima, mas sim de uma mãe que não pode fazer mais nada para proteger sua família, humanizando um lugar hostil. Vivendo a demonóloga e médium Lorraine Warren, a competente Vera Farmiga também chama atenção no filme por incrementar sua personagem com um olhar profundo e compreensivo, que apenas quem vê além possui. A beleza da atriz se mistura com a seriedade da personagem, dando à segunda uma personalidade agridoce, bondosa e cheia de coragem, tornando impossível não se comover com Lorraine.

 

É interessante perceber como a casa da família acompanha o que acontece aos seus integrantes. Ela se torna uma incerteza, pois o que antes era um lugar espaçoso, hospitaleiro, convidativo e cheio da decoração charmosa dos anos setenta, passa a ser o centro do medo dos seus moradores e da investigação do casal de demonólogos. Com câmeras que exploram criativamente o maior número de ângulos e perspectivas possíveis, exibe-se os cômodos do imóvel, das escadas até as cortinas, mostrando seu conforto protetor e seus pequenos detalhes, sendo chocante e amedrontador o jeito em que aos poucos, eles são roubados quando descobre-se um porão e inúmeras paredes vazias atrás de tábuas que são quebradas. É muito desconfortável a maneira que as aparições das assombrações são exploradas no filme, pois não há aquela música de susto que estamos acostumados a ouvir com a chegada delas ou um movimentos brusco de câmera; elas simplesmente estão ali, como qualquer outro morador.

 

“Invocação do Mal” inova o cinema de terror com a sua desafetação ao abordar uma história baseada em fatos reais, contando com um bom elenco e um evidente esforço em se desviar de clichês, o que acaba dando certo. Cada detalhe do filme é importante, e essa vigilância constante cria um clima de tensão que aumenta aos poucos, à medida em que paredes e andares são desrespeitados, culminando num final emocionante. Não é um filme para fracos de coração.

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Clara Monteiro
Estudante de Enfermagem que se mete em letras, músicas e desenhos. Segue a filosofia de que a vida é muito curta para gastá-la com preocupações. Dificilmente algo conseguirá surpreendê-la. Lê tudo, assiste tudo, vê o lado bom de tudo. É editora deste site.
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Clara Monteiro

Estudante de Enfermagem que se mete em letras, músicas e desenhos. Segue a filosofia de que a vida é muito curta para gastá-la com preocupações. Dificilmente algo conseguirá surpreendê-la. Lê tudo, assiste tudo, vê o lado bom de tudo. É editora deste site.

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