Italo Diblasi é um dos nomes que logo vem à mente quando se pensa em poesia brasileira contemporânea. Seus poemas são extraordinários, preciosos e raros. Ele acaba de publicar seu livro de estreia pela editora Garupa, O Limite da Navalha, depois de já ter publicado em alguns espaços legais, como a revista Modo de Usar & Co.

Italo nasceu no Rio, em 1988, e lá vive até hoje. Ele nos conta, inclusive, que a cidade possui muita influência na sua poesia. Confira, abaixo, a entrevista com o poeta.

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O CHAPLIN: Como você começou a escrever?

ITALO DIBLASI: Comecei a escrever na adolescência. Sempre gostei muito mais de ler do que de escrever e é assim até hoje. Na época lia prosa, principalmente romances, e pouca poesia. Então comecei escrevendo prosa. Devo ter iniciado e largado uns 3 ou 4 pseudo-romances bastante pretensiosos nos quais imitava descaradamente meus escritores preferidos. Isso durou bastante tempo, até que, em algum momento, uma edição da prosa poética completa do Rimbaud (poeta francês) parou nas minhas mãos e ali tive um estalo. Entendi que poderia escrever de maneira mais intuitiva, sem a arquitetura cerebral que até então eu identificava como a natureza da escrita. Isso me levou a escrever coisas mais curtas, condensadas, fragmentos. A temporalidade do poema é muito sedutora. Então passei a escrever esse outro tipo de prosa que me parecia poética (ou assim eu queria crer). Sempre tive muito medo do verso, do ponto de quebra do verso. Isso até hoje é um problema e uma dificuldade pra mim, mas com o tempo fui seguindo minhas leituras e experimentando. É claro que fui descambar no verso livre. Bebi muito dos beatniks (filosofia anti-materialista), principalmente Ginsberg e Ferlinghetti (poetas americanos). Diria, então, que meu processo de escrita foi da prosa ao poema.

O CHAPLIN: E hoje quais são suas leituras de cabeceira, no quesito poesia?

ITALO DIBLASI: Os Robertos Piva e Bolaño, sempre. Além dos beats e Garcia Lorca. Mas recentemente tenho lido e relido muito o Frank O’Hara (que descobri tardiamente), e duas poetas contemporâneas brasileiras: a Fernanda Morse, que tem 2 livros curtinhos muito bonitos, e a Catarina Lins, que também publicou um livro curto, mas precioso. Tenho voltado com frequência aos livros delas duas, o que os colocam na categoria da cabeceira, acho.

italoO CHAPLIN: Há alguma coisa que te inspire mais que outras?

ITALO DIBLASI: Não vou mentir: em matéria de inspiração me vejo dentro do grande clichê ocidental de escrever muito quando se está apaixonado e/ou na merda. Também escrevo, com frequência, a partir da raiva.

O CHAPLIN: E você tem muito esses momentos de estar na merda e/ou apaixonado?

ITALO DIBLASI: Acabo tendo muita dificuldade de sair desse ciclo vicioso. (Risos)

O CHAPLIN: Como é seu processo criativo?

ITALO DIBLASI: Tenho dificuldades em falar de processo criativo. Lembro de ter lido o Octavio Paz dizer que o ser se cria no registro, que o poeta cria o ser tendo o nada como fundamento. Esse é um pensamento que me alegra, gosto de pensar que posso criar e destruir a mim e ao mundo a partir do registro (do poema). Por muito tempo tive a impressão de que os poemas me vinham como num vômito (outro clichê), mas às vezes acho que eles vão se fermentando com os dias até que sinto a necessidade de lhes dar corpo. Não à toa, grande parte dos meus poemas nascem gravados, a partir de áudios, que gravo no celular. Escrevo muito na rua, andando, ou em bares, em cantos de festas, no trem. Raramente sento diante do papel e começo um poema. No máximo, transcrevo e modifico os áudios, trabalho em cima deles. Abandonei os cadernos ainda na escola. Escrever me é fisicamente incômodo e eu já abuso demais do meu corpo.

O CHAPLIN: Você nasceu no Rio, vive aí, escreve muito sobre a cidade. Acaba de lançar o livro e está indo passar uma temporada em Berlim. Qual a relação da sua poesia com o Rio?

ITALO DIBLASI: Bastante relação. Nunca vivi em outro lugar e a cidade aparece muito nos poemas. Numa das conversas que tive com a Juliana Travassos (editora da garupa – selo que lançou o livro), registramos todos os pontos do rio que aparecem, e foi surpreendente. Há lugares como a Praça Mauá, a Central do Brasil, o bairro de Santa Teresa, as avenidas. Além de uma jerusalém semi-imaginária que paira sobre o céu da cidade.

13775354_1746291282314953_1288044856479198982_nO CHAPLIN: E quais são os temas dos poemas do seu primeiro livro?

Eu quero que esse livro fale sobre o apocalipse. Os apocalipses pequenos e os grandes. Todos os dias morremos, todos os dias o mundo se acaba, e nós com ele. O meu interesse é registrar esse movimento. Quero investigar o nosso fim até que ele venha definitivamente, e esses poemas trazem pequenas impressões desse percurso. Digo pequenas porque vemos sempre muito pouco, mas temos de nos agarrar a isto mesmo assim.

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