Japa Tratante e a sua literatura cab(aço)

 ”Patricia Chmielewski Candido, 34 anos, paulistana da Vila Mariana.” É assim que ela se define, assim que apareceria num jornal normal, assim seria em qualquer lugar. Mas eu, você e o resto do mundo também a conhecemos por Japa Tratante, uma escritora ”porreta de foda”, como já diria o grande Marcelino Freire.

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Japa lançou recentemente o CATECISMO,  um e-book que saiu em dezembro no projeto Boca Santa, organizado pelo Luis Rafael Montero. ”Cada autor foi convidado para escrever um livro sobre um palavrão. O meu era o CABAÇO, o que faz bastante sentido pra mim sendo minha estreia solo com um pouco mais de fôlego. Descabacei, e esse ano lançaremos a coleção completa impressa”, comenta. Em coletâneas, ela tem um conto publicado na Granja, um poema publicado na antologia Hiperconexões e, além disso, esse ano sai seu primeiro livro de poesia: Toda mulher é uma puta, da coleção Poesia Menor. Como se já não bastasse, ela tem continhos espalhados em publicações independentes e zines que ela mesma organiza e edita pra distribuir de mão em mão: o Tatuagem, o Múltipla-Escolha e o Resgate. Além de livros-objeto como o cubo Quadrilha, em homenagem ao poema do Drummond, e seus minicontos em palitos de fósforos. Tudo isso feito à mão, de forma independente, trabalho de formiga. E  mais: pra março sai a segunda edição do Resgate e outro livreto chamado Cargas e Descargas. (Agora eu e você, leitor, nos perguntamos: Essa menina dorme?)

Segue, abaixo, a entrevista que fiz com essa linda. Confiram e descabacem também:

65594_10151466911343984_1615783971_nO CHAPLIN: Como você se interessou por literatura?

Acho esquisito falar em “se interessar” por literatura porque os livros sempre fizeram parte da minha vida de uma forma muito natural. Como comer, brincar, respirar, fazer coco. Quando eu nasci, minha mãe trabalhava na editora Ática, então eu sempre tive muito acesso à literatura. Depois, à medida que fui crescendo, virei rata de biblioteca. Passava várias tardes ali na Sena Madureira, na Gibiteca Henfil, que depois migrou pro CCSP, e por aí vai. E, obviamente, quem lê muito acaba tendo vontade de se expressar também. E eu escrevia pra mim, mais como registro mesmo, como reflexão…

Já a literatura como algo estruturado para o outro e não só pra mim, uma investigação de linguagem, só foi amadurecer faz uns 5 anos, quando eu fui convidada por um amigo redator pra escrever no Twitter o @minicontos. Nesse momento, ler autores com Leminski, Alice Ruiz, Chico Alvim, Cacaco e outros Marginais foram de muita valia por sua produção muitas vezes curta e rápida. Os twiteiros não estavam fazendo nada além de tornar digital a poesia curta que existe desde os hai-kais lá em 1500 e tanto, e antes até.

Curti a brincadeira de “ser lida”, comecei a experimentar com textos meus e de amigos em suportes tridimencionais, as minhas Poesias 3D. Foi nesse momento que começaram as primeiras de muitas parcerias com minha querida amiga Bruna Beber, que não só me inspirava pra tramarmos nossas propostas, como também me ajudou a entender cada vez mais o quanto a poesia estava em um rolo de papel higiênico ou num ponto de ônibus muito mais do que no alto de uma torre de marfim inacessível.

Mais recentemente, a partir da oficina do Marcelino Freire, outro grande mestre e fonte de inspiração, venho me metendo com produções mais longas e agitando os amigos pra fazer nossas coletâneas caseiras.

mm_02O CHAPLIN: Você é mãe e escreve sobre assuntos diversos, aparentemente sem pena nem dó. Há algum receio em falar sobre assuntos mais pesados quando se sabe que daqui a um tempo seus filhos irão ler aquilo?

Essa sua pergunta é bem interessante e toca vários assuntos importantes. Em primeiro lugar, todo mundo que me conhece pessoalmente sabe que não existe uma barreira entre a pessoa que eu sou e a minha escrita. Não no sentido de minha obra ser auto-biográfica, mas digamos que eu nunca escreveria nada que eu não me sentisse à vontade de dizer dentro da minha casa, numa roda de amigos, ou sei lá, na ceia de Natal com o vovô e a vovó. Eu acho que a literatura não é simplesmente um exercício estético, estilístico, mas uma filosofia de vida. Então se você escreve algo de que você sinta vergonha ou pelo qual você acha que deve desculpas, não escreva. Nunca se deve pedir permissão nem perdão por escrever. E nesse sentido, eu fico plenamente tranquila de que qualquer um leia o que eu escrevo, inclusive meus filhos.

O outro ponto que me ocorre é que os pais de hoje, ao contrário dos meus pais e avós e os que vieram antes deles, têm que aprender a lidar com um mundo onde o acesso a informação e a vontade das novas gerações de assimilar cada vez mais conhecimento geram uma situação com a qual não tem muito como lutar. Se meus filhos quiserem ler textos meus mais pesados, ou de outros autores, eles não vão encontrar muita dificuldade de chegar nisso. E você é o exemplo vivo disso… Com apenas 13 anos, parte de quem você é “amar Bukowski”. Eu só fui ler Bukowski com 18, 19 anos… Os pais da minha geração têm que aprender a trocar a proibição pela orientação. E encarar o contato das crianças e adolescentes com assuntos mais adultos que eles tenham curiosidade, como uma forma de ampliar seus horizontes e potencialidades.

Finalmente, acho que ainda existe muito preconceito nos dias de hoje, por incrível que pareça, com o palavrão na literatura. Com a linguagem dita “chula”. Imagens pretensamente escatológicas ou violentas. Assuntos mais fortes que são considerados polêmicos. Falar cu, falar rola, buceta (ou boceta?). O que tem de errado nisso? Na verdade não é a palavra que importa mas sim qual é a função dela no contexto do que o autor quer comunicar. Palavrão não necessariamente é falta de educação, pode ser também um meio de expressão, como outro qualquer. Falta de educação é foder o coleguinha do trabalho, furar fila, empurrar as pessoas no metrô, fechar os outros no trânsito, jogar lixo na rua, não segurar a porta do elevador… Não adianta nada ser polido na linguagem e ser um escroto na atitude com o próximo. De certa forma trazer o palavrão ou as questões mais pesadas pra minha literatura tem esse viés político, de questionamento de valores.

 mm_10O CHAPLIN:  Pra você, hoje em dia, qual a maior dificuldade em publicar? E o lado bom?

Olha, como eu sou ainda bem nova de estrada, ainda não pude sentir na pele muito profundamente as agruras da publicação. De procurar uma editora e tomar nãos e tudo mais. De qualquer forma, eu vejo o momento atual muito rico e frutífero no sentido da democratização do acesso à informação e de um espírito faça-você-mesmo que está começando a acordar de novo na galera. Independente das dificuldades de acesso a grandes editoras, conheço muito gente talentosa e determinada se movimentando com pouquíssimos recursos e conseguindo equilibrar um pouco a balança dando visibilidade para autores novos que de outra forma teriam que trilhar um caminho muito mais árido. Pra citar alguns corajosos mais próximos da minha realidade, podemos falar da Carniceria Livros, da Edições Iara, do pessoal da Ugra Press, da Patuá, da Mandacaru, do Selo DoBurro, entre tantos outros guerreiros. É uma cena muito rica e eu fico muito feliz em fazer parte desse caldo que está engrossando. Como o Minchoni sempre diz, é a galera que vai cair no vestibular de 2062, hahahah. O mercado que se prepare, estamos chegando, e fortes.

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”Não ligue para o passado. Ele pode atender.” JT

O CHAPLIN:  Um engenheiro quer que seus filhos sejam engenheiros. Um médico, idem. E você, escritora, quer que seus filhos sejam escritores? Por quê?

 Vai soar papo de mãe coruja mas eu sei que meus filhos serão, aliás, já são verdadeiros artistas. E isso independente de que “carreira” ou “profissão” eles queiram abraçar. Porque ser artista não é uma profissão, é uma filosofia de vida. Uma forma de encarar o mundo, de descobrir a beleza escondida embaixo do banco do ônibus, se esgueirando por debaixo da porta, dobrando uma esquina.  E eu transmito essa minha crença pra ele. Então tanto sendo escritores, como músicos ou engenheiros ou otorrinolaringologistas, eles serão sempre artistas na forma de ler o mundo. E isso já é uma realização incrível pra mim.

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“Traumatismo craniano: se jogou de cabeça mas o amor era raso demais.” JT

 

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