Sabe-se que por trás da prostituição podem existir razões de cunhos social, econômico, familiar e psicológico. Desde 2005, com o lançamento do livro “O Doce Veneno do Escorpião: o diário de uma garota de programa”, da ex-prostituta Bruna Surfistinha, o brasileiro começou a  repensar os motivos que levam à troca de favores sexuais por dinheiro: notoriedade, esbanjar grandes grifes, dentre outros. Em 2011, o lançamento do filme “Bruna Surfistinha” inverteu a abordagem do livro em que é inspirado: em vez de dinheiro rápido e fácil , a obra para o cinema mostrou uma vida dramática e expôs a íntima relação entre a prostituição e o consumo desenfreado de drogas. Para se juntar ao filme brasileiro nessa discussão, chegou às salas de cinema do país, neste mês, o longa “Jovem e Bela” (França, 2013). Embora bem menos catastrófico que o tupiniquim, desponta-se do filme francês a mesma pergunta: por que jovens, com boa condição social e familiar, se tornam prostitutas?

Poster oficial do longa dirigido por François Ozon

Poster oficial do longa dirigido por François Ozon

Na obra do diretor François Ozon, os espectadores acompanham um atribulado ano na vida de Isabelle (Marine Vacth). O filme é dividido em quatro partes, cada uma mostrando as metamorfoses da jovem francesa durante as quatro estações do ano. A história começa no verão, período no qual Isabelle viaja, junto com sua família aparentemente exemplar (mãe, irmão e padrasto felizes), para uma região de praia francesa. Lá, a garota conhece um rapaz alemão, com quem perde a virgindade. No outono, ao voltar para grande cidade, depois da primeira experiência sexual frustrada, Isabelle divide seu tempo entre a retomada à vida escola e o novo trabalho: ser prostituta de luxo para homens mais velhos (alguns poderiam ser confundidos com o avô da jovem), oferecendo seus serviços por meio de anúncios na internet. Nas demais estações, um incidente com um de seus clientes permitirá que sua mãe Sylvie (Géraldine Pailhas) descubra as atividades secretas. Também são mostradas, no outono e na primavera, as inevitáveis consequências dessa revelação.

No filme, Sylvie, mãe de Isabelle, descobre que a filha se prostitui

No filme, Sylvie, mãe de Isabelle, descobre que a filha se prostitui

Pode-se dizer que, em relação ao relacionamento com cada um dos membros de sua família, Isabelle vai muito bem, obrigada. Com a mãe, Isabelle tem abertura suficiente para falar sobre qualquer assunto, inclusive sobre sexo. Com o irmão mais novo, que está na puberdade, a relação é pautada da mesma forma. Só o padrasto que parece meio distante, mesmo que ele opine – positivamente – com Sylvie sobre a criação da adolescente. Sendo assim, cada vez mais o espectador fica curioso em saber:  Por que Isabelle se prostitui? Se a compreensão do filme tem que, necessariamente, passar por um motivo que responda tal pergunta, será muito difícil compreender a intenção da direção de Ozon.

É a falta de razão o maior mérito de “Jovem e Bela”. A Isabelle roteirizada por ele é simbólica, uma garota que se opõe à hipocrisia dos padrões sexuais institucionalizados pela nossa sociedade. É por isso que a adolescente experimenta sua sexualidade como bem entende nesse mundo “sombrio”, onde não há preconceitos e nenhum tipo de impedimento, o que não aconteceu durante a perda da virgindade, momento no qual Isabelle não sentiu nenhum prazer. Um indício de como a jovem vai lidar com a sua sexualidade está na cena na qual ela conversa com seu irmão Victor (Fantin Ravat) após a perda da virgindade: numa clara demonstração de cumplicidade, Isabelle simplesmente diz que a primeira transa “estava feita”, sem a magia com a qual a sociedade em que está inserida costuma costuma abordar esse momento.

Além disso, Isabelle costuma ser uma garota de poucas palavras, inclusive com as amigas do colégio, de quem omite que tenha tido sexo pela primeira vez com o alemão. Esse ar duvidoso que compõe a personagem de Isabelle não teria caracterizado tão intensamente Isabelle se não fosse a perfeita expressão corporal da atriz Marine Vacth, que põe uma certa dose de mistério a seu papel, já que o filme  se concentra no olhar e no silêncio da personagem principal. As poucas falas do filme são interrompidas pelas trilha sonora de Philippe Rombi, tocada assim que é indicado o começo de uma nova estação do ano. A proposta é interessante, mas as canções escolhidas – intencionalmente legendadas do francês – são óbvias demais e, portanto, desnecessárias à trama: por exemplo, a música escolhida para caracterizar o outono é praticamente um hino de libertação sexual das mulheres, igualando-se a letras de músicas pop de cantoras como Beyoncé, Anitta ou Kelly Key.

Em "Jovem e Bela", Isabelle não tem nenhum motivo aparente para se prostituir.

Em “Jovem e Bela”, Isabelle não tem nenhum motivo aparente para se prostituir.

O longa de François Ozon concorreu a Palma de Ouro em Cannes deste ano, mas perdeu para o longa “Azul é a cor mais quente”, também francês, e que também polemizou por tratar o sexo de uma maneira mais aberta. Revistas especializadas em entretenimento, como a Entertainment Weekly, compararam o “Jovem e Bela” com grandes obras de reconhecidos cineastas, como Louis Malle e François Truffaut. A Variety e o Hollywood Reporter rasgaram elogios ao filme, principalmente por ele seguir a mesma linha de discussão do último trabalho de Ozon, “Dentro da Casa” (França, 2012), que conta a história de um professor voyeur que se envolve com um aluno de suposto talento literário.

Outra boa notícia é que o longa não ficou restrito às salas alternativas do eixo Rio – São Paulo. Os fãs paraibanos da sétima arte francesa podem conferir o interesse de Isabelle em compreender seu próprio corpo. “Jovem e Bela” está em cartaz e pode ser conferido no Cinespaço, que fica dentro do Mag Shopping, em João Pessoa. Aproveitem!

2 Responses

  1. Cicero Alves

    Filme parece ser interessante, sabe me informar se foi inspirado em A Bela da Tarde de Buñuel?

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  2. Vinícius Vieira

    Embora a história seja bem parecida com o filme do Buñuel, a ponto de críticos do cinema do Estadão considerarem que “Jovem e Bela” seja o “A Bela da Tarde” contemporâneo, não encontrei nos veículos de comunicação alguma declaração de Ozon que confirmem a informação. Acredito que não tenha sido inspirado mesmo, Cicero. Até a próxima!

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