Depois de conquistar o público de seu próprio país – levando 350 mil pessoas às salas de cinema, um recorde em se tratando do pequeno Paraguai -, o longa “7 Caixas” está chamando a atenção da cinematografia mundial. Utilizando técnicas do cinema americano com um toque da cultura paraguaia, o filme foi apresentado nos Festivais de Sán Sebastian, Lima, Miami, Palms Springs, Toronto e Seatlle. Também concorreu ao Goya, uma premiação semelhante ao Oscar que premia filmes espanhóis. O CHAPLIN conversou com Juan Carlos Maneglia, que assina a direção juntamente com Tana Schémbori, logo após uma sessão comentada no Cine Joia, em Copacabana (RJ), no dia 1 de maio. Ele contou um pouco mais sobre a repercussão e falou algumas curiosidades sobre o primeiro longa da sua carreira. Confira abaixo:

Juan Carlos Maneglia

Juan Carlos Maneglia

O CHAPLIN: Por que você escolheu o Mercado 4 como cenário para o filme?

JUAN CARLOS MANEGLIA: O Mercado 4 é um local emblemático do meu país. Vende-se de tudo e, além disso, os personagens e suas histórias ali desenvolvidas representam bem a situação do Paraguai. Também fiz trabalhos para a TV paraguaia sobre os carretilleros [carregadores], então eu já conhecia a região, mas não tão bem para escapar de ter o roteiro do filme (eram pilhas de papel) roubado durante trabalho de reconhecimento. (risos) Mas, no final, houve uma negociação e deu tudo certo. O resultado, você pôde conferir há pouco tempo.

O CHAPLIN: Quais as dificuldades encontradas durante o processo de produção do filme?

JUAN CARLOS MANEGLIA: Encaro como desafios, e não como dificuldades. O primeiro deles foi a escolha do elenco. Pelo fato de o Paraguai não ter uma cinematografia, não conseguimos encontrar atores profissionais. Por exemplo, Dario (interpretado pelo ator Paletita), o dono do açougue, é um animador de festas infantis e Victor (interpretado pelo ator Celso Franco) fez apenas duas peças de teatro amadoras, na escola. Se ele não entrasse no elenco, iria trabalhar como marinheiro. A outra dificuldade foi os equipamentos mais “obsoletas” em relação aos outros filmes. Essa dificuldade se traduziu numa das últimas cenas [a que o protagonista cai na quina da calçada], que teve que ser feita a partir de uma sequência de fotos, pois não tínhamos uma câmera que permitisse a filmagem em câmera lenta.

Os diretores de "7 Caixas". (Foto: Blog Papo de Cinema)

Os diretores de “7 Caixas” e protagonistas recebendo prêmio em San Sébastian. (Foto: Blog Papo de Cinema)

O CHAPLIN: Quais foram as suas inspirações?

JUAN CARLOS MANEGLIA: Eu concordo com que dizem as críticas. “Quem quer ser um milionário” (2008) e “Cidade de Deus” (2002) são obras inspiradoras para mim e me sinto muito honrado pelo fato de o meu filme ter sido comparado a elas. Mas as minhas grandes inspirações são o cinema latino americano – longas como “O Abraço Partido” (Argentina, 2004) e “La Sangre del Condor” (Bolívia, 1969) – e o cinema de Hollywood, que sempre foi predominante nas salas do Paraguai. Em algumas cenas de “7 Caixas”, faço analogias a “Ben Hur” (1959)  [a cena da corrida das bigas, ganhadora de um Globo de Ouro Especial em 1960] e a “Exterminador do Futuro” (1984).

O CHAPLIN: Seu filme foi ao festival de Palm Springs, uma espécie de vitrine dos filmes que podem ser indicados ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Você ganhou prêmios? Você acredita que seu filme possa ser indicado ao principal prêmio do cinema?

JUAN CARLOS MANEGLIA: “7 Caixas” ganhou apenas uma menção honrosa nesse festival. Não dá para imaginar porque, devido à uma questão legal (o Paraguai não tem nenhum instituto de cinema que represente o país), é impossível concorrer. Outra possibilidade seria se o filme fosse convertido para o inglês, concorrendo com os vários filmes americanos nas demais categorias. Dessa maneira, eu não acredito na nossa indicação. Minha intenção com o filme é muito mais simples: apenas projetar o Paraguai na tela do cinema.

Os diretores de "7 Caixas" (Foto: Blog Papo de Cinema)

Os diretores de “7 Caixas” (Foto: Blog Papo de Cinema)

O CHAPLIN: O jornal “Folha de São Paulo” disse que o final de seu filme tem uma questão social que se sobrepõe à toda a narrativa. Para você, a arte tem um sentido social – no sentido de ser uma das ferramentas de luta social – ou você acredita na expressão “arte pela arte”?

JUAN CARLOS MANEGLIA: Acredito que a arte tem demasiadas arestas, incluindo a beleza per si e a luta social. “7 Caixas” não é necessariamente um filme social. Outro objetivo do filme era gerar bastante bilheteria, mas não por causa do dinheiro, e sim para que o Paraguai se visse no cinema e se identificasse ali. É aí que entram as questões sociais. Elas estão mescladas, fazem parte da identificação nacional que gostaria que o filme tivesse.

O CHAPLIN: Alguns blogs especializados em críticas dizem que “7 Caixas”, se comparado a outros do gênero, não é tão bom. No entanto, levando-se em consideração as características genuínas do país onde foi rodado, “7 Caixas” é sensacional. Para você, isso denota um preconceito com o Paraguai ou uma consciência, de que os recursos são escassos por lá?

JUAN CARLOS MANEGLIA: Acho que é uma combinação de coisas. Aqui no Brasil, especialmente, o Paraguai está muito ligado à pirataria e é difícil lutar contra isso. No entanto, fiquei surpreso ao perceber que as pessoas identificaram que o filme foi feito “artesanalmente”, funciona e, por isso, é sensacional. Nos outros países, o Paraguai é um país invisível. Não há nenhuma referência, mas a recepção a “7 Caixas” foi uma das melhores: 100% de críticas especializadas no Rotten Tomatoes e 97% do público.

Juan Carlos Maneglia, na exibição de "7 Caixas" em Copacabana (RJ)

Juan Carlos Maneglia, na exibição de “7 Caixas” em Copacabana (RJ)

O CHAPLIN: Quais vão ser os próximos trabalhos?

JUAN CARLOS MANEGLIA: Estou escrevendo o segundo filme. Vale acrescentar também que, diante do sucesso de “7 Caixas”, o Paraguai está produzindo seis filmes atualmente e ao mesmo tempo!

 

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