La La Land resgata a ingenuidade de Hollywood com alma, coração e muitas cores

Registrado em minha mais distante memória, o cinema está presente em minha vida, herança de um pai cinéfilo – a quem sou eternamente grato – que levarei para sempre. Numa época onde galinhas pintadinhas sequer eram pintinhos, vivi uma infância regada pelos marcantes clássicos Disney, lembrança reforçada nos relatos saudosistas de uma mãe refém de A Pequena Sereia (1981), A Bela e a Fera (1991), Aladdin (1992) e companhia. Da pureza das animações à ingenuidade de Fred Astaire, Gene Kelly, Audrey Hepburn e Julie Andrews, o musical se consolidou como meu gênero favorito. É essa nostalgia deliciosa que Damien Chazelle desperta com seu novo e irretocável La La Land – Cantando Estações (2016).

Na Los Angeles atual, Mia (Emma Stone) e Sebastian (Ryan Gosling) buscam a realização de seus sonhos. Ela é uma barista que trabalha na área externa dos estúdios Warner e almeja ser atriz. Ele é um pianista de jazz clássico que pretende abrir o próprio clube. Depois de alguns desencontros, os dois começam um relacionamento durante a jornada.

Em evidente homenagem à Era de Ouro de Hollywood, o primeiro elemento a ser percebido é a explosiva identidade visual. O esmero da produção resgata o escanteado CinemaScope, formato de filmagem com lentes anamórficas que permitem projeção mais larga. As cores bem definidas em diversos objetos, além de remeter ao processo de Technicolor, se responsabilizam pelo constante tom de alegria e sonho que atinge quase todas as cenas. Roupas, carros, calçados e cenários retratados com sólidos azuis, amarelos, verdes, vermelhos e roxos. Destaque para a composição imagética de Sebastian, repleta de adereços marrons e antiquados ecoando sua personalidade excessivamente tradicionalista.

Construídos sem a habitual grandiloquência, os números musicais são simples, curtos e passam a sensação de que deveriam ser em maior quantidade. As canções são todas adoráveis e de fácil aceitação. Another Day of Sun, Audition (The Fools Who Dream) e a linda City of Stars, mesmo após o filme, permanecem valsando em nossas cabeças. A trilha de Justin Hurwitz também tem crédito nessa identificação, já que suas composições contemplam acordes das peças cantadas. Além disso, a presença do jazz tem papel fundamental na caracterização dos personagens.

A falta de coreografias mais elaboradas não invalida os movimentos vistos. Entre acrobacias e passos ritmados, destacam-se a espetacular valsa no observatório, dona de uma plasticidade fotográfica belíssima, e um nostálgico número de sapateado – sim, sapateado! Momentos que evocam a elegância imortal de Fred Astaire e Ginger Rogers e a genialidade irreverente de Gene Kelly e Debbie Reynolds.

Chazelle, também roteirista, executa uma direção arrojada. Já na primeira cena, coreografia mais complexa do filme, vemos preciosismo nos planos-sequência – ao menos longas tomadas sem cortes aparentes. A câmera se movimenta de forma graciosa, deslizando de lado, fechando e abrindo o enquadramento, subindo para um plano aberto que mostra a dimensão coreográfica. A câmera parece bailar!

A escolha por tomadas longas ou sem cortes se repete nas canções, dando a sensação de show teatral na tela. A fotografia de Linus Sandgren contempla as belezas de Los Angeles com cores amistosas e aquareladas, colorindo a cidade de aconchegantes azul e roxo. Nas sequências musicais, por vezes trabalha a luz em forma de holofote, evidenciando os artistas e usando a penumbra para ignorar o restante.

Assinado por Chazelle, o roteiro desenvolve a simples trama do casal central. Embora nada original, ousa ao apostar somente nos conflitos autoimpostos pelos protagonistas. Se os conflitos movem a história, é curioso como a limitação deles funciona aqui. O enredo onírico de positivismo contagiante encontra espaço para alguns momentos de agridoce realidade.

La La Land revisita o passado sem tirar o pé do presente, proposta explícita nas artes e posters de obras antigas espalhadas pelas ruas e na cena do sapateado, quando somos jogados pela dança à Hollywood de outrora e, de repente, um toque de Iphone nos traz de volta. O embate entre novo e velho ganha contornos sutis, através do pequeno cinema que exibe Juventude Transviada (1955), e outros mais agressivos, quando o tradicionalismo de Sebastian é responsabilizado por não ser atrativo aos jovens e ajudar a matar o jazz. A reflexão de Keith (John Legend) sobre a necessidade de revolucionar o antigo também sentencia os musicais que parecem agradar apenas os cinéfilos mais românticos.

Ryan Gosling e Emma Stone apresentam química apaixonante. Ele compõe um cara determinado em seu sonho. Sua insubordinação com hierarquia profissional rende passagens ótimas onde mostra timing perfeito num humor comedido. A personalidade de Sebastian é essencial para Mia e isso é realizado com muita competência pelo seu intérprete. Stone brilha com bem mais intensidade. A decisão do diretor em explorar closes da atriz é acertada já que ela tem um rosto muito expressivo e transita com segurança entre a energia e a vulnerabilidade. Os dois atores conseguem bons resultados nas sequências musicais. Mesmo não sendo grandes cantores, ambos apresentam afinação satisfatória. Dificilmente lotariam casas de show, mas funcionam. Dedicados, obtêm conquistas sólidas nas danças. Gosling ainda aprendeu a tocar piano para evitar a utilização de dublê em suas participações, enriquecendo todo o processo criativo.

Dono de um final lindíssimo, La La Land – Cantando Estações é singelo, executado com precisão, emana sensações positivas e inspiradoras e lembra que é possível fazer filmes ingênuos de qualidade. Não é necessário ser um cinéfilo para compreender a história por completo, mas um conhecimento prévio da sétima arte permite uma imersão maior. Não precisa ser amante do gênero para se deliciar, basta não ser tão categórico e aceitar o realismo fantástico proposto aqui. Mesmo repleto de predicados, ainda conseguiu me ganhar no quesito nostalgia, despertando memórias queridas e renovando meu amor pelo cinema. Um espetáculo!