O Cinema na Agulha orgulhosamente apresenta o nosso primeiro post sobre figurino nacional. E o escolhido para a estreia foi Lisbela e o Prisioneiro, filme de 2004 baseado na obra de Osman Lins e dirigido pelo pernambucano Guel Arraes. O filme conta a história de Lisbela (Débora Falabella), uma garota meiga, ingênua, viciada em filmes de romance e que se apaixona por Leleu (Selton Melo), um rapaz que vive de trambiques no interior do Nordeste.

A narrativa se passa na cidade de Vitória de Santo Antão – interior do Pernambuco. O figurino assinado por Emilia Duncan (A muralha, Orfeu e Carlota Joaquina) mistura as cores quentes (vermelho, laranja e marrom) ao caracterizar o tempo/espaço nordestino na narrativa, com cores mais claras como rosa, azul e branco, ao despertar o romantismo da história através da personagem Lisbela.

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O cinema clássico na tela

O filme de Guel Arraes é uma homenagem às narrativas do cinema clássico estadunidense. O figurino, por sua vez, não deixa a desejar nesse quesito: as características dos personagens, tanto estéticas quanto psicológicas, são fortemente identificadas a partir do figurino. O maniqueísmo (bem e mal) representado pelo figurino destaca a importância da comunicação entre história e vestimenta nas narrativas clássicas.

A personagem Inaura (Virginia Cavendish), por exemplo, simboliza as personagens fatais da era de ouro. As peças, compostas em sua maioria por vestidos justo em cores fortes – principalmente em tom vermelho, destacam o corpo esguio e voluptuoso de Inaura. Inaura é sexy, ardilosa e sem escrúpulos, o que a torna a antagonista do filme. Rita Hayworth e a Jéssica Rabbit representam essa personagem.

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Inaura e Frederico Evandro

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Jessica Rabbit

Já Lisbela (Deborah Falabella) simboliza o oposto à Inaura, tornando-se a protagonista do filme. Lisbela é doce, ingênua e apaixonada. Seu figurino é composto por vestidos acinturados, blusas e saias rodadas, os tons são em sua maioria candy colors (azul, branco e rosa). Grace Kelly e Audrey Hepburn representam esta personagem.

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Lisbela e Douglas no cinema

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Grace Kelly, ícone de estilo

Em contraponto ao figurino feminino, temos o vestuário masculino dividido em tons terrosos e estampas – referência sutil aos anos 60/70 e ao calor do Nordeste. O personagem Douglas (Bruno Garcia) destaca- se sendo o “estrangeiro” do local ao “combinar” com Lisbela no seu estilo. O look almofadinha, forte referência ao estilo britânico, denota que o personagem Douglas possui uma aquisição econômica maior do que os demais.

O filme também destaca o vestuário masculino baseado em fardas, indumentária comum na época do pós-guerra. São representadas pelos personagens Tenente Guedes de Nogueira e Lima (André Matos) e Cabo Citonho (Tadeu Melo).

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Lisbela e Leleu

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A narrativa possui uma linearidade muito forte no figurino, o que nos faz pensar que o filme se passa nos anos 50. Entretanto, as fortes referências aos anos 60/70 retratadas pelas camisas florais, as jóias e as calças usadas por Leleu (Selton Melo) e Frederico Evandro (Marco Nanini) deixam claro que esses personagens significam a transição sociocultural do país. Era o início da Jovem Guarda, do tropicalismo, do brega e do movimento hippie. Uma nova era!

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Estilo anos 70

Definitivamente, o filme Lisbela e o Prisioneiro merece estar na lista do “Must Watch” de qualquer apaixonado por narrativas ou figurinos.

EMILIA2_editadaA figurinista 

Emília Duncan é considerada uma das melhores figurinistas do Brasil. Ela é formada em História pela PUC Rio e estudou Moda no F.I.T, em Nova York. Possui uma vasta obra no cinema, no teatro e principalmente na TV, pela TV Globo.

Entre suas obras mais conhecidas estão as minisséries Mad Maria (2005), A Muralha (2000) e JK (2006), ambas escritas por Maria Adelaide Amaral. No cinema, ela assinou figurino dos clássicos nacionais Carlota Joaquina (1995), de Carla Camuratti, e Orfeu (1999), de Cacá Diegues.