Um dos embates entre fãs, biógrafos e estudiosos da carreira de Audrey Hepburn é definir qual a sua persona cinematográfica. A moça recatada que primeiro veio à tona em “A Princesa e o Plebeu” ou a mulher atrevida de “Bonequinha de Luxo”? A postura segura de “Infâmia”, ou a doçura de “Cinderela em Paris”? As caras e bocas engraçadas da Regina de “Charada” ou a serenidade de “Além da Eternidade”? A verdade, é que Audrey era, a seus termos, uma atriz eclética. É bem verdade que tinha cuidado com sua imagem e evitava expor-se além do necessário, mas isso nunca afetou o seu trabalho enquanto uma das atrizes mais responsáveis, competentes e talentosas de sua geração.

Particularmente, sou fã incurável de Audrey e isso me torna suspeita e bastante passional para o cargo a que estou me auto incumbindo: escrever uma lista com os cinco melhores filmes da carreira da atriz. Logicamente, sem ordem de preferência porque aí já é pedir demais. Então, abaixo seguem os meus favoritos. Adianto que, ainda que possam discordar da presença de algum deles nessa seleta lista, todos são importantíssimos para qualquer um que deseje ter mais conhecimento sobre a obra de Mrs. Hepburn.

Uma cruz à beira do abismo (The Nun’s Story, Fred Zinnemann, 1959)

Esse é um filme que ao mesmo tempo que priva Audrey de seus encantos e até mesmo de suas possibilidades enquanto atriz, dá-lhe a oportunidade de mostrar todo o seu talento no papel da angustiada Gabrielle, ou irmã Luc, uma jovem freira que enfrenta problemas com a submissão que lhe é exigida, uma difícil tarefa para alguém com o seu nível de orgulho e ambição. Digo que essa foi uma oportunidade para Audrey porque, neste filme, muito é exigido que se passe sem palavras ou mesmo gesticulações. Até mesmo as expressões faciais são contidas e, por diversas vezes, tudo o que resta são os expressivos olhos da atriz, capazes de falar diálogos inteiros. Uma grandiosa e competente interpretação de Audrey, com um roteiro envolvente e tocante.

Bonequinha de Luxo (Breakfast at Tiffany’s, Blake Edwards, 1961)

Tenho minhas dúvidas se Marilyn Monroe, a escolha de Truman Capote, autor de cujo livro esse filme foi adaptado, teria tido o mesmo comprometimento com Holly Golightley que a esforçada Audrey Hepburn. Definitivamente, não tem como fugir do fato de que “Bonequinha de Luxo” acabou sendo o filme que mais marcou a carreira de Audrey, barrando inclusive a produção que lhe fez ganhar um Oscar (A Princesa e o Plebeu). A partir daí, ela se consolidou como um ícone fashion e, sobretudo, um exemplo de mulher moderna. No filme, Holly é uma acompanhante de luxo que sonha em casar com um homem rico e tornar-se atriz em Hollywood, motivo pelo qual se muda para Nova Iorque, onde vive em um apartamento modesto com um gato que se chama “Gato”, e aproveita todo o glamour que a cidade lhe oferece. A jovem se envolve com o escritor Paul, a quem passa a chamar “Fred”, mas enfrenta a escolha entre o amor e vida de luxo que sempre buscou. Audrey foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz naquele ano.

Infâmia (The Children’s Hour, William Wyler, 1961)

Há pouco tempo escrevi sobre esse filme para este mesmo blog e penso que todas as colocações mais relevantes que argumentam pela presença da obra em questão nesta lista estão expostas lá. Trata-se de uma produção que, apesar do pouco orçamento com o qual teve que lidar, contou com roteiro genial, sensibilidade e atuações respeitosas de seu elenco. É bem verdade que Shirley MacLaine destaca-se no filme, mas Audrey Hepburn também se faz ser vista como a gentil e forte professora Karen Wright. “Infâmia” traz uma Audrey em processo de maturação e em um papel que, assim como em Bonequinha de Luxo, desafiava os padrões aos quais ela e o público estavam acostumados. Karen e Martha (MacLaine) são duas amigas e donas de uma escola para garotas que têm suas vidas prejudicadas depois que uma de suas alunas espalha um boato falso sobre ambas. Um filme que trata sobre a amizade, confiança, sexualidade, certo, errado, verdade e mentira.

My Fair Lady (George Cukor, 1964)

Esse é, até então, o meu filme favorito com Audrey Hepburn. Razões: o roteiro, baseado em uma peça de teatro, é encantador; Audrey está no ápice de seu talento, engraçadíssima como a florista Eliza Doolittle; e, para completar, ainda se trata de um musical e eu confesso ser incuravelmente apaixonada por toda essa alegoria e coreografias hollywoodianas dos meados do século passado. Talvez por ter sido privada de soltar a voz nas cenas musicais (a atriz foi dublada, e ficou bastante ressentida por isso), é notável um esforço a mais de Audrey nessa produção, talvez uma tentativa de provar que era capaz de ser  uma Eliza Doolittle completa. O enredo contra a história de uma vendedora de flores que vive nas ruas de Londres em busca de algum dinheiro. Certo dia, Eliza conhece Henry Higgins (Rex Harrison), um professor de fonética. Quando ouve o horrível sotaque de Eliza, Henry aposta com um amigo que consegue transformá-la numa dama da alta sociedade em seis meses e daí desenrola-se a relação de amor e ódio entre os dois.

Quando Paris Alucina (Paris – When It Sizzles, Richard Quine, 1964)

Segundo a própria Audrey, esse foi o filme que ela mais gostou de gravar. Não é para menos, “Quando Paris Alucina” é uma produção divertidíssima, que de tão maluca, acaba cativando. Ao lado de William Holden (com quem ela já havia contracenado antes no filme “Sabrina”), Audrey faz uma dupla engraçada e que, em busca de criatividade para finalizar um roteiro, acabam encenando as mais loucas histórias, desde romance, às histórias fantasiosas e de ação. O gênero é comédia romântica, muito mais comédia que romance, e é um filme em que vemos uma Audrey bem à vontade e livre das amarras de produções densas. Percebemos que ela se diverte interpretando a secretária Gabrielle Simpson (Gaby), e isso acaba se tornando igualmente divertido também para o espectador.

Sobre o(a) autor(a)

Jornalista, cinéfila incurável e escritora em formação. Típica escorpiana. Cearense natural e potiguar adotada. Apaixonada por cinema, literatura, música, arte e pessoas. Especialista em Cinema e mestranda em Estudos da Mídia (PPgEM/UFRN). É diretora deste site.

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