Admito que filmes de ação não são os meus favoritos. Odeio barulheira demais, efeitos sonoros ensurdecedores, sangue em exagero, e aquela sensação de que a cada dez cenas que você vê, nove têm armas como ferramentas presentes. Portanto, qual foi a minha surpresa ao constatar que, sim, eu gostei de Looper – Assassinos do Futuro, mesmo possuindo todos esses elementos citados acima. E de quebra, ainda tem Bruce Willis para completar o pacote padrão dos filmes de ação hollywoodianos.

Joseph Gordon Levitt é um assassino contratado em Looper

Por falta de tempo mesmo, esperei até que Looper estivesse prestes a sair de cartaz para me dar o direito de assisti-lo. Levei um bolo e acabei assistindo ao filme sozinha, o que me permitiu concentrar-me inteiramente em formar uma opinião acerca da produção. E, desde já, adianto: filmes sem um bom roteiro podem até me cativar, se tiverem outros elementos que possam vir a me seduzir, mas no caso de Looper, o contrário aconteceu. Mesmo com vários elementos para os quais torço nariz, foi o roteiro o grande responsável por ganhar a minha simpatia. Obviamente, não foi o único. Mas nem mesmo a atuação do pequeno Pierce Gagnon (sobre o qual falarei) teria salvo Looper do desastre, se não fosse a coerência do envolvente roteiro do diretor Rian Johnson.

Sobre a sinopse, serei breve. Sinopses existem em todo lugar, vocês não estão aqui para isso, mas como é necessário, prometo que farei um esforço de disponibilizá-las em todas as minhas críticas a partir de hoje. O filme se passa em dois momentos: em 2034 e trinta anos mais tarde (2074), quando viagens no tempo já existem, embora sejam proibidas. Poderosos detêm o poder dessas máquinas e usam-nas para enviar de volta no tempo inimigos e malfeitores, os quais serão executados por assassinos contratados do passado, que também eliminarão seus corpos, teoricamente, inexistentes, no ano em que vivem. O conflito aparece quando os chefes começam a enviar aos assassinos os seus próprios “eus” trinta anos mais velhos (chamados loopers) para serem executados. Isso significa que os assassinos teriam apenas mais trinta anos de vida e, após isso, seriam mortos por si próprios.

Esse é o contexto em que vive Joe, interpretado por Joseph Gordon-Levitt, um assassino contratado, estudante de francês, misterioso e um tanto apático. Joe não tem muitas afeições e sequer está preocupado com o fato de ter que matar a si próprio, contanto que possa economizar seu dinheiro para viver os trinta anos que lhe restam. Mas quando finalmente ele encarara o seu looper (Bruce Willis), não consegue matá-lo e os dois Joes, que agora estão vivos e contemporâneos, iniciam uma busca aflita por interesses individuais que divergem: O Joe de Levitt só quer matar o seu “eu” mais velho para não criar problemas com os mais poderosos, enquanto o Joe de Bruce Willis acredita que se matar, no passado, o responsável por todo o esquema do futuro, poderá evitar a morte da mulher que amava e a sua própria. Paralelo a isso, os fatos e lembranças do Joe mais velho vão se modificando, contrastando um passado que teoricamente já acontecera com a possibilidade de mudança de acordo com escolhas do Joe de Levitt, que podem ser inéditas. Sim, parece confuso, e se pensarmos nisso por muito tempo, dá um nó na cabeça, mas faz sentido, no filme. É o que importa.

Joseph Gordon Levitt e Bruce Willis

Quanto ao roteiro, só posso posso dizer que gostei. Fugiu à mesmice dos filmes de ação, e da mediocridade a qual os filmes do mesmo balaio têm sido destinados ultimamente. Amarrado, envolvente, não permite ao espectador virar para o lado para comentar. As coisas acontecem muito rápido em Looper e se, por um lado, isso pode sobrecarregar quem assiste em alguns momento, por outro, nos poupa dos momentos de tédio de algumas produções.

Sobre o elenco, podemos considerar bem mediano. Mesmo os três atores principais (Joseph Gordon-Levitt, Bruce Willis e Emily Blunt). Há empatia e sincronia, mas nada mais que isso. O elenco funciona bem, mas não surpreende. Com exceção do pequeno Pierce Gagnon, que aos cinco anos de idade, interpretou um garoto-mutante-predestinado-ao-crime de dez anos, que dá uma surra de atuação no trio protagonista. O diretor, Rian Johnson, é só elogios ao pequeno Pierce, e não é à toa. O garoto é um verdadeiro artista e espero que não seja da leva que se perde depois da adolescência, seria uma lástima. Expressivo, controlado e capaz de realizar sequências longas sem parecer um boneco adestrado pelo diretor, Pierce exala talento e, se o filme por si próprio fosse horrível, teria valido à pena apenas para conhecer o talento inacreditável desse pequeno prodígio. Looper foi o seu terceiro longa e eu posso, sem exageros, enquadrá-lo ao mesmo nível que Macaulay Culkin em início de carreira, como no filme The Good Son (Anjo Malvado, 1993). Façam suas preces para que o garoto tenha pais mais sensatos e para que ele não seja apresentado à heroína, o que parece ser uma tendência entre os talentos mirins, depois da adolescência (vide Culkin e Lindsay Lohan, por exemplo).

Pierce Gagnon (Sid) e Emily Blunt (Sara)

Ainda sobre o elenco, ele tem a presença de Piper Perabo, que já foi mais lembrada em algumas produções. Depois de constatarem a sua apatia e sem-gracisse óbvia, começaram a destiná-la apenas a personagens secundários nas telonas e migrá-la para as séries de TV. Em Looper, sua personagem por si só já é bem fraca e a loira não colabora em nada para destacá-la. Como era de se esperar, Piper não chama atenção nem mesmo quando aparece semi-nua. Faltou sal no tempero, Mr. and Mrs. Perabo. Tentem novamente.

Todos os demais elementos de Looper corroboram para que o roteiro dê certo e passe a sua mensagem. Desde os cortes rápidos, closes (que são abusados) e a direção de arte. É verdade que o filme é um pouco “preto” demais, mas acho que até isso veio a calhar. Mérito também para a maquiagem, que deixou Joseph Gordon-Levitt uma verdadeira versão mais nova de Bruce Willis. Mesmo o desfecho da trama me cativou e amarrou direitinho a história, ainda que tenha sido inusitado (pontos para o roteirista) e passado longe da classificação de “final feliz”, o que, admito, eu adoro.

Por fim, me vejo obrigada a imitar o comentário da crítica de Isabela Boscov para a Veja. Ainda que eu tenha elogiado Looper e, de fato, admito que esse foi um dos melhores filmes a que assisti nos últimos meses, creio que isso se dá muito mais por um desmérito das produções que corriqueiramente vêm nos atacando nos cinemas que mérito do filme propriamente dito. É, sim, um bom filme. Mas nada espetacular. Premiações renomadas, com certeza, passarão longe da produção. Mas das categorias de pratos cinematográficos que nos vêm sendo oferecidos, Looper dá, satisfatoriamente, para “encher o bucho”.

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