Luc Besson é assumidamente um diretor para o mercado. Com a máxima de que o cinema não deve ser a cura para as complexidades de ninguém, mas funcionar apenas como uma aspirina, o diretor, roteirista e produtor francês se deu muito bem em Hollywood, firmando-se um nome de peso quando o assunto é blockbuster. São dele os comentados “Nikita” (1990), “León: O Profissional” (1994), “O Quinto Elemento” (1997) e, mais recentemente, depois de uma leva decadente em sua carreira, “A Família” (2013), que, apesar de elenco de peso (Robert De Niro e Michelle Pfeiffer estão na escalação) e das inúmeras referências e homenagens a grandes obras cinematográficas, ainda não convencera o suficiente. Mas é com “Lucy” e a contribuição inestimável de Scarlett Johansson que Luc Besson se redime e se reafirma.

LUCY

Lucy (Scarlett Johansson) é uma mulher normal. Unhas por fazer, roupas simples, muita ânsia de viver, gosta de paquerar, divertir-se e viver os bons momentos. Mas, como todo mundo, pressente quando está prestes a cruzar fronteiras inseguras. Já no início do filme, após ser forçada a cruzar um desses limites para uma nova realidade (da qual Lucy não consegue retornar), a mulher assume a sua forma “bessoniana”. Quem conhece a destemida Nikita, a atrevida Mathilda, ou a corajosa e encantadora Leeloo, sabe bem do que estou falando.

Besson dirige Scarlett Johansson em "Lucy"

Besson dirige Scarlett Johansson em “Lucy”

A protagonista é submetida a uma substância que faz com que sua capacidade cerebral se expanda além dos 10% comumente utilizados por humanos. O grande problema é que não há um limite para essa expansão e a cada hora novas habilidades são introduzidas ao cotidiano de Lucy, que passa a controlar a gravidade, ter acesso à mente de outras pessoas, compreender idiomas diferentes e aumentar o alcance dos seus sentidos, entre outras práticas.

Mas até onde essas nossas possibilidades levarão Lucy e toda a humanidade? Lucy não é tratada como uma super heroína (o que poderia facilmente acontecer em outros roteiros), mas como uma cobaia de algo que não se conhece e que pode provocar mudanças assustadoras nas pessoas e no mundo. Esse poderia ser apenas um filme de ação do tipo “Lucy contra o mundo”, e em alguns momentos até aproxima-se disso, mas Besson não se contenta em entreter seu público: o diretor também lhes oferece elementos para se refletir por alguns dias (no meu caso), ou no mínimo por aqueles cinco minutos de créditos após a sessão.

Lucy-luc-besson-Scarlett-Johansson

É necessário dedicar dois parágrafos a Scarlett Johansson. A atriz que surgiu no circuito oficialmente sem levantar muitas expectativas em filmes como “Esqueceram de Mim 3” (vocês devem lembrar daquela irmã irônica e chata do Alex) e “Pig – Uma aventura animal”, demorou a conquistar respeito. O primeiro passo para que isso acontecesse, acredito eu, foi o filme “Ghost World”, em 2001, no qual ela atuou ao lado de Thora Birch. A partir daí vieram parcerias com Sofia Coppola, Woody Allen e Pedro Almodóvar, e um indiscutível talento começou a ser atribuído à moça de rosto bonito e corpo atraente.

Passeando entre os filmes completamente comerciais, que lotam sessões e tornam seu rosto popularizado (a exemplo dos inúmeros Vingadores e derivados e Como Não Perder Essa Mulher), e projetos mais interessantes e construtivos para o seu currículo, tais como Her (pelo qual foi enormemente elogiada) e o intrigante Sob a Pele, Johansson vai cativando gregos e troianos e administrando com competência os títulos de sex symbol e grande atriz de sua geração. Em Lucy, presente em quase todas as cenas, a loira se destaca por sua atuação, de uma personagem nervosa, inquieta e expansiva para uma mulher séria, segura, expressiva e sedutora. Destaque para a cenaLucyScarlettJohanssonLSUniversal em que Lucy, com um olhar e um meio sorriso seduz não só o personagem com quem contracena, mas certamente a todo espectador.

Outro aspecto que muito me chamou atenção no filme são os jogos estéticos trabalhados por Luc Besson. Algo que me lembrou fortemente alguns filmes de Darren Aronofsky. São super-closes, metáforas imagéticas, cenários por vezes futuristas em mutação, algo que fez minha cabeça girar em trocentas possibilidades sobre o que passava na cabeça de Besson no momento da construção de algumas cenas. Intrigante, impressionante e belo!

Lucy não é um filme fechado, sem muitas possibilidades para o espectador. Aquele que está acostumado com a narrativa enquadrada certamente vai estranhar a proposta do diretor nesse filme. O roteiro – também assinado por Besson, vale ressaltar – não pode ter saído da cabeça de alguém “normal”, com todo respeito ao realizador. Lucy é um maravilhoso ticket de entrada para a insanidade cinematográfica e a experiência estética de um Luc Besson que retorna progressivamente a sua melhor forma.

Em "Lucy", Johansson contracena com um apagado Morgan Freeman

Em “Lucy”, Johansson contracena com um apagado Morgan Freeman

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