Já ouvi que a diferença entre um publicitário e Deus é que este não está tão convicto de que a sua criação é perfeita. Sim, os homens da criação são conhecidos por suas vaidades e disputas de ego. Este é o mundo explorado em Mad Men, série americana da HBO que dá um intenso passeio na cultura americana da década de 60, tendo os executivos da propaganda do período como protagonistas, que finalmente chegou ao fim, após sete temporadas.

O termo Mad Men foi dado aos publicitários nova-iorquinos da época por eles próprios. Os advertising men que percorriam os prédios da Madison Square na selvagem disputa por clientes durante a época de ouro da publicidade, quando marcas que hoje já temos como ícones culturais ainda eram apresentadas ao grande público americano, num processo que começava nas salas de criação como a da agência fictícia Sterling Cooper, onde trabalha o gênio criativo Don Draper (Jon Hamm).

Mad Men tornou-se uma das melhores séries já produzidas pela complexidade do personagem de Draper. Construíram nele o melhor símbolo do homem que vendia o sonho americano por meio da propaganda. Um homem que esconde seu passado miserável por trás de sua máscara de superman imbatível, que aos poucos, a cada temporada, vai sendo desconstruída, aprofundando-se em sua identidade não-revelada, ao passo que também vamos entendendo a origem de sua miséria individual (afogada no alcoolismo e inúmeros casos de adultério), mesmo diante do sucesso profissional, sua misoginia e suas questões reprimidas da infância. Por baixo, um homem mau resolvido de tantas maneiras que haja Freud para explicar, e na superfície, alguém que faz acordos com Conrad Hilton entre outros donos de marcas internacionais.

Um dos aspectos mais importantes da série é como ela abordou a escalada da mulher no mercado da publicidade e o machismo – a abordagem deste último chegou a ser polêmica em vários momentos por ter sido considerado que teriam passado da linha do bom senso. Principal personagem-símbolo dessa temática é a redatora Peggy Olson (Elisabeth Moss), que começa como secretária e sobe até o topo na dinâmica de trabalho da agência em que trabalha, às custas de sacrifício e paciência diante daquele ambiente dominado por homens brancos de classe média e alta que veem na propaganda uma forma de usarem seus talentos que de forma frustrada não conseguiram aplicar na arte.

Se a série tem início nos apresentando a era de ouro da publicidade, ela chega ao fim levantando questões ainda atuais. Tanto em 1969 quanto nos dias de hoje vemos publicitários amedrontados por computadores se perguntando se aquela máquina lhe substituirá em suas funções no futuro – como numa cena da última temporada, de referência cômica a “2001 – Uma Odisseia no Espaço”.

O certo é que acerca de questões menores ou temporais, debatidas na década de sessenta ou nos dias de hoje, Mad Men toca no assunto, sem chegar a dar um veredito, mas quanto ao fim definitivo dos gênios criativos que com um coelho dentro da cartola salvam o dia, dispensando o trabalho coletivo e encorajando apenas o autoendeusamento, a série chega ao seu desfecho sendo taxativa: não há mais espaço para Don Drapers e semelhantes. Seu tempo passou, assim como as glamorosas propagandas de cigarro.

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