Mada chega a 18ª edição como um dos maiores festivais de música do Brasil

O festival Música Alimento da Alma – o Mada – chega a maioridade em 2016 como um dos maiores festivais de música do Brasil, apresentando artistas emergentes no cenário da música independente ao lado de consolidadas estrelas da nossa música. Em 2014, o festival foi transferido pela primeira vez para a área externa do Arena das Dunas e, no ano seguinte, passou para dentro do estádio. Deveria ser assim nesse ano, se a CBF não recomendasse ao estádio preservar o gramado para a partida da seleção brasileira contra a Bolívia, no mês que vem.

Mesmo com essas particularidades de última hora, o evento não perdeu sua grandiosidade, tendo alguns pontos positivos em relação à edição do ano passado. Uma diferença gritante entre esse Mada e o do ano passado é a qualidade do som, que melhorou bastante. Isso pode ter sido por influência da mudança de local pro lado de fora? Não sei. O fato é que estava bem melhor, de forma que foi possível ouvir, por exemplo, a voz de Emmily Barreto, vocalista do Far From Alaska, muitas vezes prejudicada pelo baixo volume do microfone em relação aos outros instrumentos.

As filas para comprar comidas e bebidas estavam aceitáveis, tanto na rockstage quanto na pista comum. O uso das máquinas de cartão de crédito/débito minimizou o problema de troco, que sempre é um ponto de problema em grandes festivais.

No entanto, no segundo dia, uma gigantesca fila se formou para acessar a pista. O problema foi a quantidade insuficiente de funcionários, especialmente para o público feminino, que contava com apenas duas pessoas para fazer a revista. As pessoas que entraram na fila da área externa do Arena das Dunas relataram espera de mais de 1 hora para conseguir passar pelos portões. Muita gente que chegou por volta de 20h30, por exemplo, perdeu praticamente todo o show da banda Plutão Já Foi Planeta, que subiu ao palco às 20h40.

Confira, a seguir, como foi detalhadamente cada dia da 18ª edição do Mada!

1º dia – Sexta-Feira (23)

A  banda Jubarte Ataca deu start no festival com sua surf music instrumental no ponto certo para chamar o público para entrar. Uma curiosidade é que o baterista da banda toca de pé (meus joelhos doeram só de olhar, sinceramente não sei como ele aguenta). O show foi curto e além das próprias músicas a banda também fez um cover da música Misirlou de Dick Dale, imortalizada por fazer parte da trilha sonora do filme Pulp Fiction. Jubarte também está escalada para se apresentar no Festival do Sol no mês que vem. Em seguida, foi a vez do Time de Patrão e seu rap ostentação que não impressiona, mas que parece representar uma parcela da população natalense.

Como terceira atração, tivemos Luiz Gadelha e os Suculentos apresentando parte das músicas do seu disco Sufocante, com destaque para A Diferença, na qual Luiz fez um protesto com uma venda preta nos olhos com dizeres “Fora Temer” durante toda a execução da música. Já o show de André Prando foi uma ótima surpresa, mas achamos que as duas músicas falando de ser vagabundo – Amiga Vagabunda e Choro plebeu – juntas no começo do setlist pareceram uma continuação e, assim, uma delas poderia ser opcional.

Foto por: Quitéria Xavier.
Foto: Quitéria Xavier.

O melhor show da noite – ousamos dizer do Festival inteiro – foi o de Jaloo, que trouxe as músicas mais enérgicas do seu disco #1. Ele também reclamou da curta duração do show e tocou sua versão da música Chuva, conhecida na voz de Gaby Amarantos. Infelizmente, no setlist não estava uma de nossas favoritas do disco, Ah Dor!, mas teve espaço para o tributo ao tecnobrega de Pa Parará.

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Foto: Leila de Melo/O Chaplin

O show de Emicida começou com uma cena famosa do filme Ó paí, ó, na qual Lázaro Ramos responde para Wagner Moura sobre ser negro. A melhor parte do show foi a versão de Hoje Cedo, música originalmente cantada com Pitty, mas que no show foi substituída pela maravilhosa voz de Anna Tréa. Planet Hemp encerrou o dia com seu cover de Ratos de Porão, mensagens “educativas” de como agir durante o show e a música Malandragem Dá um tempo em homenagem à Bezerra da Silva.

2º dia – Sábado (24)

A responsabilidade de abrir o festival no segundo dia foi do experiente Pedrinho Mendes, cantor que participou do primeiro Mada, evento ainda pequeno, que acontecia na rua Chile. Sua música mais conhecida, Linda, Baby, também é das antigas (completará 30 anos de lançamento no próximo ano). Mesmo assim, natalenses de velhas e novas gerações entoaram essa canção – uma ode de amor à cidade de Natal – pelo Arena das Dunas. “Estar de volta é ótimo”, comentou o cantor.

Teve opção para quem curte o clássico rock. Aliás, duas opções. A primeira delas foi a banda potiguar Fukai, cujo som lembra, em alguns momentos, o folk rock dos Beatles. O destaque vai para a música The Flow, que mescla harmoniosamente a guitarra com instrumentos de sopro, como a gaita. Já a banda brasiliense Dona Cislene, a quarta a pisar no palco do Mada, empolgou os rockeiros mais metaleiros, já que a principal característica desse conjunto são suas guitarras pesadas.

Luisa & Os Alquimistas é um exemplo local que comprova o caráter antropófago da nossa cultura. A banda mistura ritmos jamaicamos, latinos, batidas eletrônicas e tecnobrega, e o resultado são músicas muito autênticas, dignas do destaque que teve no festival desse ano. Vale destacar a música Pirate Dream, que encerrou a participação da banda no festival e a que melhor expressa o caráter deglutidor da banda, e o divertidíssimo tecnobrega Brechó. Confira essas e outras músicas de “Cobra Coral”, o primeiro álbum da banda.

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Foto: Leila de Melo/O Chaplin

“Que saudade de casa”, anunciou Natália Noronha assim que Plutão Já Foi Planeta subiu ao palco. Esse foi o primeiro grande show em Natal depois da participação no Superstar, que catapultou a carreira deles para níveis nacionais. De acordo com Sapulha, voz e guitarrista da banda, a Plutão já passou por cerca de 16 cidades de todas as regiões do Brasil após o programa da Globo. A volta para casa – e ainda mais no Mada – portanto, foi mais que especial. A galera não perdia um único verso das músicas de “Daqui para lá”, o primeiro CD da banda, em especial a música Viagem Perdida. Por isso, o público ganhou de presente a música Hipertensa, que deve estar presente no segundo trabalho – ainda sem nome – da Plutão. Segundo Sapulha, a intenção é “lançar o novo CD até novembro”.

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Foto: Leila de Melo/O Chaplin

Liniker parecia não acreditar que a multidão estava enlouquecida, gritando o seu nome, para subir o palco. Essa energia do público pareceu ter dado um motivo a mais para a cantorx ter, literalmente, se entregado ao palco. Junto com a sua banda, os Caramelows, cantou as músicas do EP “Cru” (2015) e do CD “Remonta” (2016), que dá uma nova roupagem à mistura da soul e da black music. Indubitavelmente, o destaque de Liniker & Os Caramelows é a belíssima música Zero, que em suas letras mostra um eu-lírico amoroso, cuidadoso, carinhoso e atencioso com a sua amadx.

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Foto: Leila de Melo/O Chaplin

Um dos assuntos que permeia a carreira de Liniker é a questão da identidade de gênero. Em seu canal do YouTube, a cantorx utiliza a linguagem inclusiva de gênero – caracterizada pelo uso de elementos “x” ou “@” em lugar do binarismo “a” e “o” – em suas postagens. No entanto, em algumas situações, é difícil utilizar essa opção na fala. Ciente dessa dificuldade, Liniker escolheu agradecer no feminino (“obrigada”) ao público presente ao Mada. E é esse o gênero que prefere ser chamadx na linguagem falada, conforme revelou em entrevista ao nosso blog.

A penúltima atração do Mada 2016, a cantora paranaense de rap Karol Conka, contou com uma recepção calorosa do público. Sua carreira está em ascensão, e a prova disso foi ter sido uma das escolhidas para cantar na abertura das Olimpíadas do Rio. As letras de suas músicas promovem o empoderamento feminino e negro, principalmente em É o Poder, Gueto ao Luxo, Sandália, Mundo Louco e Você Não Vai, todas apresentadas ao público do Mada. As divertidíssimas Lista Vip – em parceria com a banda Boss in Drama – e Tombei, ambas consideradas hinos das gays, também estiveram no setlist juntamente com um cover de Black to Black, uma preciosa homenagem a Amy Winehouse que encerrou sua participação no Mada.

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Foto: Leila de Melo/O Chaplin

O reggae do Natiruts encerrou a segunda e última noite de apresentações. Com exceção de Beija-Flor, que sempre abre os shows da banda de Brasília, e Me Namora, a primeira metade do show teve músicas menos conhecidas, o que contribuiu para o público ficar um pouco morgado nessa parte. Mas depois de Natiruts Reggae Power, já na segunda metade, o Natiruts entoou uma enxurrada de hits, como Sou Rei, O Carcará e a Rosa e Vamos Fugir, essa última uma versão cover da famosa música do Skank. A escolhida para encerrar o festival foi Liberdade Pra Dentro da Cabeça, consolidando o Mada como um festival de liberdade para os gêneros musicais que não tem o merecido espaço nos meios de comunicação da nossa cidade.

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Foto: Leila de Melo/O Chaplin

Confira fotos do 1º e 2º dia de evento, feitas pela fotógrafa Leila de Melo:

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