Do glamour ao transtorno. Em Hollywood, ir de um estágio a outro em, relativamente, pouco tempo não é incomum. Casos desse tipo são explorados a cada nova edição de um tabloide. O que é mais espantoso, no entanto, é a nossa surpresa diante de mais uma celebridade que desceu do Olimpo e demonstrou um comportamento normal, imperfeito como o nosso. É justamente essa expectativa das pessoas comuns em torno dos famosos que pode tornar estes mais vulneráveis à infelicidade. Esse contexto serviu de inspiração para “Mapas para as Estrelas”, o mais recente filme do diretor David Cronenberg (“Cosmópolis, “Spider”), que, no Brasil, estreou no Festival do Rio 2014.

Julianne Moore é o melhor motivo para conferir “Mapa para as Estrelas”

O filme entrelaça a história de seis personagens que vivem nos arredores de Los Angeles. Agatha (Mia Wasikowska) – uma jovem repleta de queimaduras pelo corpo, oriundas de um incêndio – acaba de chegar à cidade e logo consegue trabalhar como assistente de Havana Segrand (Julianne Moore), uma atriz tão decadente que disputa com outras candidatas um papel num filme sobre sua própria mãe, que fora uma diva do cinema décadas atrás. O agente de Havana também trabalha para Benjie Weiss (Evan Bird), astro de 14 anos de uma série adolescente que, por já ter tido problemas psicológicos, é acompanhado de perto pelos produtores do programa e por seus pais, Christina (Olivia Williams) e Stafford Weiss (John Cusak).

A mãe não tem voz ativa perante os homens da família, e o pai, famoso consultor de autoajuda, é insensível o suficiente para expurgar sua própria filha – responsável por um escândalo que a família esconde a todo o custo – do convívio familiar. Assim que chega a cidade, Agatha revela a Jerome Fontana (Robert Pattinson), um motorista de celebridades que quer ser ator, a intenção de escrever um roteiro para um filme, e os dois dão início a um caso, mesmo que Fontana desconheça completamente o passado de sua pretendente.

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Agatha (Mia Wasikowska) é uma jovem misteriosa recém-chegada a Los Angeles que altera, de alguma forma, a vida das pessoas a seu redor

Flertando com vários gêneros ao longo de sua carreira como diretor, dessa vez Cronenberg decidiu reunir mais de um deles em “Mapa para as Estrelas”. E fez isso de maneira bem apropriada. Nas cenas de comédia, por exemplo, os espectadores são presenteados coma opinião sarcástica do diretor em relação a alguns absurdos de Hollywood. Uma cena, em especial, na qual Havana Segrand comemora a morte do filho de sua concorrente ao papel é uma das quais fica evidente o humor afiado de Cronemberg. Também há elementos de suspense e, é claro, os dramas bem explorados de quase todos os personagens, numa amálgama encantadora de 1h50min.

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Benjie (Evan Bird) e Stafford Weiss (John Cusak): família esconde um grande segredo

Vale destacar que essa cena não seria tão engraçada se não fosse feita pela premiadíssima Julianne Moore (a atriz ganhou o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes), comprovando que ela é uma das atrizes mais versáteis de Hollywood, entregando-se profundamente aos personagens que interpreta. O destaque também vai para o jovem Evan Bird no papel de Benjie Weiss, bastante convincente ao interpretar o galã teen asqueroso e sem exageros nos momentos em que foi preciso demonstrar o lado perturbador do jovem. No entanto, Robert Pattinson – o galã da vida real – demonstra certo desconforto e superficialidade no papel do motorista de celebridades. O público de Cronenberg, mais exigente do que o público de filmes melosos, como “Crepúsculo” e “Água para Elefantes”, para quem Pattinson está acostumado a atuar, fica querendo mais desse ator.

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Uma Hollywood avassaladora e problemática é o tema de “Mapa para as Estrelas”

É bom iniciar essa maratona do Festival do Rio assistindo a um ácido filme metalinguístico, ou seja, uma obra sobre a indústria do audiovisual. Afinal, as loucuras – no sentido literal e figurado – dos personagens de “Mapas para as Estrelas” também têm sentido no Rio de Janeiro, a cidade de estonteantes belezas naturais que concentra estúdios de TV e cinema no Brasil e, por isso, o habitat das celebridades e paparazzis tupiniquins. O Cristo Redentor é o nosso letreiro nas montanhas. Hollywood também é aqui.

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