Na FLIP 2015, Mariano participou de uma mesa sobre poesia ao lado de Matilde Campilho e Carlito Azevedo

Mariano Marovatto e uma poesia que passeia

Mariano Marovatto é cantor, compositor e escritor. É carioca nascido em abril de 1982. Doutor em literatura brasileira pela PUC-Rio, tem sete livros publicados, entre eles o mais recente Casa (7Letras, 2015) e Mulheres feias sobre patins (7Letras, 2012). Gravou quatro discos, como Aquele amor nem me fale (Bolacha, 2010) e Praia (Maravillha 8, 2013).

Como pesquisador e arquivista literário, foi responsável, entre outros trabalhos, pela organização do acervo do escritor e compositor Cacaso e pela pesquisa de inéditos e estabelecimento de texto da Poética de Ana Cristina Cesar. Além disso, é apresentador, roteirista e pesquisador do programa musical Segue o som na TV Brasil. Toda a sua produção está disponível aqui.

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Além de impressionar pelo bom humor inacreditável e a doçura, tudo que o Marovatto faz é de tirar o chão, o teto, a casa. Inclusive, essa breve conversa que tive com ele sobre poesia, estudos, música e vida.

O CHAPLIN:  Quais foram suas primeiras leituras de poesia?
De verdade? Não lembro. Lembro com 14, 15 anos comprar meus primeiros livros de poemas: antologias de Drummond, Neruda, sonetos de Shakespeare e mais alguma coisa. Já tinha escrito alguma coisa que considerava letra de música, daí achei justo procurar o que era considerado poesia de verdade pra entender que mundo era aquele que eu tava entrando. As prateleiras das livrarias tinham esses livros e foram eles que eu li.
O CHAPLIN: E os primeiros escritos?
Foram com 13, 14 anos. Como disse, as primeiríssimas coisas eu considerava letra de música, tentava inventar uma melodia praquilo. Quando me dei conta que escrevi uma primeira letra foi uma revelação, um arrebatamento: rapture, pra quem gosta de inglês. Entendi o gosto libertário de fazer arte vinda da minha própria cabeça, das minhas próprias necessidades. Eu já fazia teatro, o teatro me ajudou muito em muitas outras coisas, mas não me dava a potência de ser um “criador” independente.
O CHAPLIN: Você é bem acadêmico, né?! Fez Letras, tem doutorado… Alguns de seus temas de estudo são Cacaso e Ana C. Como é isso tudo?  Como você imagina que esse seu estudo de poesia influencia na sua escrita?
Eu acho que a escrita acadêmica é mais nociva para o escrito da prosa do que de poesia. O fato de ler muita poesia dentro da academia nunca me deixou engessado ao escrever poesia, nem me fez mimetizar ou tentar superar ninguém. Na realidade minha leitura de poesia na academia era muito mais do meio, muito mais sociológica, do que de fato poética. Meus estudos falam sobre “gerações”, “bandos” de poetas e o seu contexto. Talvez eu tenha sido um mal leitor de poesia na academia. De fato estudar a geração marginal me fez criar a plaquete “Mulheres feias sobre patins”, por exemplo, onde o tipo de humor desse grupelho é reconhecido ali. Sem querer, deve ter sido uma espécie de laboratório pessoal de poesia fazer o “Mulheres feias” durante a escrita da tese sobre Cacaso e seus comparsas.
Na FLIP 2015, Mariano participou de uma mesa sobre poesia ao lado de Matilde Campilho e Carlito Azevedo
Na FLIP 2015, Mariano participou de uma mesa sobre poesia ao lado de Matilde Campilho e Carlito Azevedo

O CHAPLIN: Na FLIP, houve um momento em que você conta que estava produzindo uma tese sobre poetas lusófonos nascidos a partir de 85 e que no mesmo período estava lançando seu primeiro livro. Aproveitando-se da tese, você conheceu uma turma boa da sua geração, coisa e tal. Como você sente essa amizade que a poesia proporciona? E quem são esses caras?

Eram poetas portugueses nascidos a partir de 1975 e que tinham publicado pela primeira vez nos primeiros anos do século XXI. Era uma continuação do mestrado que tem esse mesmo objeto, mas em relação aos poetas brasileiros. Cheguei a trocar emails e livros com esses portugueses, mas como mudei de foco (de país e de geração) na minha tese, não mantive o contato que gostaria. Fazer a dissertação de mestrado sobre meus companheiros geracionais foi sim muito bom. Se tornaram amizades eternas, amores, queridos, ídolos que fizeram e fazem parte da minha vida. Alguns se distanciaram por motivos vários, mas assim é. Ainda é por eles que me guio no mundo da poesia. Embora ultimamente eu tenha estado distante da poesia – leio quase nada, nem escrevi nada nos últimos meses – nunca me distancio deles.
 O CHAPLIN: Acompanhei alguns de seus textos (a maior parte, crônicas) no  [site] Ornintorrinco. Qual sua relação com crônicas em geral?
Nunca acompanhei cronistas quando era mais novo. Comecei a me ligar de fato quando me chamaram pra escrever crônicas, daí fui atrás do que escreviam os escritores que admiro quando eram obrigados a ser cronistas. Mas acho que consigo desenvolver bem as minhas ideias, embora a preguiça e a falta de deadline falem mais alto no que diz respeito à minha frequência de escrita enquanto cronista. É um desafio parecido quando tinha prova de redação no colégio: a professora dava o tema e eu pensava “vou escrever um troço aqui que ninguém na turma vai escrever”. Acho que isso segue até hoje.
marianoO CHAPLIN: Seu livro mais recente, “vinte e cinco poemas’’, pela editora Luna Parque, é uma parceria, uma soma, entre “Treze poemas não comprometidos” do Chico Alvim e  “Doze poemas sobre amor e geografia”. Fala um pouco sobre como surgiu essa publicação.
Marília Garcia e Leonardo Gandolfi, meus amores amigos poetas, desses que menciono na pergunta de número 4, abriram a editora e surgiram com essa ideia de fazer livros em parceria. Eu quase não acreditei que meu parceiro era o Chico Alvim. O Chico já tinha os 13 poemas dele prontos e eu tinha acabado de voltar de uma viagem pra Rússia, terra da minha namorada, e tinha feito os 12 poemas sobre amor e geografia, então o dueto ficou só nos numerais. É uma alegria seriíssima ter o Chico como co-autor de um livro, logo ele, a unanimidade entre os poetas que tanto estudei no doutorado. Honra máxima. Viva Chico Alvim!
O CHAPLIN: Lendo seu “Casa’’, sinto uma inquietação, um movimento louco muito além de idas e vindas. Sua vida é tipo isso, também? Como é seu dia-a-dia?
O Casa foi motivado por essa inquietação, escrito num período onde a casa era a rua mesmo, aqui no Rio, ou na Islândia, ou em SP, ou em Lisboa, onde eu estivesse. Esse ímpeto heroico errante, como tudo que fazemos em excesso na vida – inclusive o excesso de rotina – é cansativo. Depois que o livro ficou pronto, muita coisa boa se consolidou na vida e na arte. O Casa foi uma travessia muito muito maravilhosa e importante. Lendo os diários do Darwin à bordo do Beagle, circunavegando o mundo ainda jovem, escrevendo diariamente a sua experiência durante cinco anos de viagem, me identifiquei, me senti “em casa”. A sensação acho que é a mesma. Já velho, Darwin afirmou que foi nos cadernos que preenchia durante suas aventuras no Beagle que ele de fato aprendeu a escrever, a contar uma história. O grande lance é escrever e viver ao mesmo tempo. Não deixemos de fazer isso nunca, sim?
 
O CHAPLIN: Queria saber um pouco sobre seu processo criativo. Conta?
Há tempos não escrevo poemas, desde a Rússia, na verdade. Mas tenho três livros projetados, iniciados, uns mais avançados do que os outros. Um é uma prosa poética que tenho escrito em pequenas viagens pra fora do Rio, o outro é uma espécie de diário de viagem, e o terceiro, que consome meus estudos no momento, é um ensaio que acho que vai ser maior do que imaginei. Todos eles partem de inquietações, como você disse acima. Mas é um clichê dizer que a escrita parte das inquietações. O processo criativo nada mais é do que depositar as neuroses do seu pensamento no papel e organiza-las de alguma forma. Eu preencho cadernos. Estou terminando um caderno roxo que iniciei no final de 2014. Depois de lançar esses livros todos acho que finalmente alcancei o meu objetivo que era tornar-me um grafomaníaco. Isso não significa que eu não vá peneirar, cortar e ver o que se sustenta fora do caderno para que vire livro.
O CHAPLIN: O que você curte ler, realmente? E ouvir?
Eu estou lendo sobre o Brasil por conta desse ensaio que estou escrevendo. Lendo muito de sociologia, etnografia, antropologia, arqueologia, coisas que sempre admirei mas nunca tinha me aprofundado. É maravilhoso, mas eu penso “caralho, tem tanta coisa pra apre(e)nder nisso tudo. Será que dá?” Tá indo, tá indo. Me afastei da leitura da poesia também, mas sempre recomendo, desde que comecei a terminar o Casa, que todo mundo descubra Laura Riding.
O CHAPLIN: Qual a função da poesia?

Quem responde é um Mariano cético de 2016 interessado em leituras nada lúdicas: poesia é ilusão, poesia é um artifício que serve para confundir. Em muitos casos poesia é puro embuste. Há que se fazer ilusão do melhor jeito possível porque é muito fácil ser desmascarado. 😉