Nos últimos anos, temos visto no Oscar um amontoado de prêmios sendo entregues, em diversas categorias, a candidatos nem tão merecedores. Os prêmios desse ano de melhor atriz (Jennifer Lawrence  por O lado bom da vida) e de melhor filme (Argo) revelam que que os jurados estão ficando cada vez mais “bairristas” e ufanistas. Com esse posicionamento, deixam de reconhecer excelentes produções da cinematografia européia e latino-americana que, obviamente, fogem à narrativa hollywoodiana, a exemplo do deslumbrante longa francês Amour, com atuações impecáveis dos seus protagonistas.

Passado o show de horrores de ontem, gostaria de recomendar a vocês, queridos leitores, que relaxem, assistindo a um filme romântico e delicioso. Ou se indignem mais com o pouco reconhecimento de produções fora do território ianque e com um lado da modernidade que, muitas vezes, é “varrido para debaixo do pano”. Nesse sentindo, recomendo-lhes assistir ao filme “Medianeras” (Gustavo Taretto, 2011). De essência global, mas com locação latino-americana, ele tem a capacidade de aquecer nossos corações espectadores e, simultaneamente, de permitir que reflitamos sobre os relacionamentos na era das cidades globais e do mundo virtual. A história é narrada em primeira pessoa pelos protagonistas Martin (Javier Drolas) e por Mariana (Pilar López de Ayala). Ambos vivem em Buenos Aires, na mesma rua, no prédio oposto ao do outro, mas o destino não permitiu que seus caminhos se cruzassem.

Destino? Esse talvez seja um termo um tanto inconveniente. Na verdade, podemos dizer que o pano de fundo da história tenha uma função decisória na vida das duas personagens. Conscientemente, em monólogos bem reflexivos, cada um deles mostra como a arquitetura despadronizada de Buenos Aires (e das metrópoles, por extensão) tem o poder de terminar diversos relacionamentos e até de evitar que novos se formem devido à falta de comunicação provocada pela sua atividade. Ainda nessa questão, a produção argentina foca nos apartamentos (pra não dizer quitinetes, rs) dos protagonistas e como eles tomam a decisão de, concomitantemente, derrubar a parede lateral para abrir janelas (as “medianeras”), de maneira a ganhar mais iluminação.

“Medianeras”: uma belíssima metáfora sobre o amor na era virtual ignorada pelas principais premiações do cinema.

Uma vez que a arquitetura contemporânea não favorece a comunicação interpessoal, o jeito é apelar para o mundo virtual, que se constitui como válvula de escape para Martin, pois o contexto fomentou suas idiossincrasias anti-sociais, e para Mariana, por causa das suas expectativas frustradas em relacionamentos amorosos anteriores e a solidão. Essa é uma das metáforas mais incríveis do cinema latino-americano que já presenciei, levando-nos a crer que os aspectos tangíveis – e isso, acredito eu, não vale apenas para a arquitetura – nos leve a procurar o intangível.

Assim, “Medianeras” é mais um filme que demonstra o quão interessante estão sendo os roteiros produzidos aqui, na periferia. É engraçado, sensível, belo e seu roteiro pode despertar em quem assiste a audácia necessária para abrir janelas e enxergar o mundo lá fora. Na arquitetura argentina, qualquer abertura nas medianeras – como são chamadas as paredes cegas no país vizinho – são proibidas por lei, mas em se tratando de cinema (e do reconhecimento de seus produtos mais originais), elas são muito bem-vindas!

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