Oscar 2013: Sem hegemonias, premiação distribui estatuetas entre os títulos indicados e comete grandes injustiças

Quem ainda tinha qualquer dúvida sobre a decadência da moral da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, e se deu ao trabalho de ver ao menos 80% dos filmes indicados à premiação que aconteceu na noite de ontem (24), com certeza saiu convencido de que o barco navega sobre águas cada vez mais incertas e injustas.

A entrega das estatuetas do Oscar começou despretensiosa, nada de grandes espetáculos, efeitos visuais, momentos inesquecíveis. Ao contrário, a coisa foi tão modesta, baseada em piadas sem graça do apresentador Seth Macfarlane e apresentações musicais recorrentes, que deixou uma pulga indagadora sobre o caixa de Hollywood estar escasso, tendo sido poupados até os adornos exagerados na maior festa do cinema do país.

Adele, uma das atrações da noite, cantou, se esbaldou, e ainda saiu carregando um Oscar por “Skyfall”

Nos primeiros prêmios não tivemos muitas novidades ou motivos para revolta. Nem mesmo os prêmios de babação de ovo da Pixar e da Disney nas categorias de animação me incomodaram, ainda que tivessem como concorrentes filmes como o audacioso “Frankenweenie”, de Tim Burton, e o carismático curta de animação “Adam and Dog”, que alguns juravam ser superior a Paperman. Ou ainda os prêmios de roteiro (adaptado para “Argo” e original para “Django Livre”, quando minha torcida forte era para “Amour”, nessa categoria) me fizeram perder a esperança de um futuro melhor para os prêmios principais.

No decorrer da festa, tivemos indicações diversas de que o prêmio principal seria entregue ao musical “Os Miseráveis” (apresentação do elenco, homenagens a antigos musicais e demais performances) e, por vezes, a “Lincoln”, principalmente quando Michelle Obama foi cotada para apresentar a categoria. Estava conformada que um dos dois títulos (não tão desmerecedores) levariam o prêmio, tentando me iludir com o fato de que, possivelmente, a Academia seria original e não daria o principal Oscar ao abaixo-da-média Argo (de Ben Affleck), ao contrário do que têm feito todas as premiações norte-americanas até então.

Jennifer Lawrence levou o Oscar que, por merecimento, seria de Emanuelle Riva

Uma pitada de esperança surgiu quando deram a Ang Lee o seu segundo Oscar de Melhor Direção. Ora, ainda havia decência, afinal, o trabalho pro “As Aventuras de Pi” foi digno e honesto, além de belo, mesmo que o meu favorito fosse Haneke, pelo austríaco “Amor”. Contudo, quando lá pelas tantas, no Oscar de Melhor Atriz, a atuação incrível e infinitamente superior de Emanuelle Riva (Amor) foi ignorada e o Oscar foi dado a Jennifer Lawrence, vi que realmente eu deveria desligar a TV para salvar o que restava da minha noite. Mas bastava pensar um pouquinho para deduzir que isso aconteceria no fim das contas, afinal, Jennifer tem sido, ao lado de Amanda Seyfried e, ultimamente, até mais que ela, a queridinha dos norte-americanos. Em 2013, ela aparecerá em, no mínimo, mais três filmes. É claro que um título de Melhor Atriz viria a calhar para as bilheterias…

Não me entendam mal, a garota é sim uma boa atriz, e eu até reconheço o seu merecimento de um Oscar, daqui a um ano ou dois, talvez, mas nesse momento e nessas circunstâncias, não há outra palavra para definir a sua premiação que não “palhaçada”. “O Lado Bom da Vida” é um filme mediano e sua interpretação não é nada espetacular. Não quando se compete com a genialidade de Emmanuelle Riva, que, à propósito, comemorou ontem o seu aniversário de 86 anos e, como presente, ganhou a desfeita da Academia. Chega a ser vergonhoso. Mais ainda que em 1999, quando nossa brasileira Fernanda Montenegro concorreu na categoria e perdeu para Gwyneth Paltrow (Shakespeare Apaixonado) porque, ao menos, naquele ano tínhamos como concorrentes Cate Blanchett e Meryl Streep, dois grandes nomes que poderiam ter derrubado Montenegro com dignidade. Achei de um mal gosto tão grande o desrespeito com Riva, que se o Oscar fosse brasileiro, eu acharia justo enquadrar o feito no Estatuto do Idoso.

“Argo” encerra o circo levando o Oscar de Melhor Filme

Insistente e esperançosa, caí na atitude pouco inteligente de não dormir antes das frustrações que viriam. Esperei o prêmio de Melhor Filme, apenas para me certificar de que Hollywood não estava de todo maluca e premiaria QUALQUER COISA menos “Argo” ou “A Hora Mais Escura”. Doce ilusão, tivemos que suportar um fim de noite com o ego inflado do azarão Ben Affleck saltitando em nossas telas, tanto quanto seus olhos quando submete-se à tentativa de chorar em cena.

De mais, o maior premiado da noite foi “As Aventuras de Pi”, com quatro estatuetas, e seguem abaixo os veredictos finais:

Ator Coadjuvante: Christoph Waltz (Django Livre)

Atriz Coadjuvante: Anne Hathaway (Os Miseráveis)
Curta de Animação: Paperman
Filme de Animação: Valente
Fotografia: As Aventuras de Pi
Efeitos Visuais: As Aventuras de Pi
Firgurino: Anna Karenina
Maquiagem e Cabelo: Os Miseráveis
Melhor curta-metragem: Curfew
Documentário e curta-metragem: Inocente
Documentário em longa metragem: Searching for Sugar Man
Melhor filme estrangeiro: Amor
Edição de Som: 007 – Operação Skyfal A hora mais escura
Melhor montagem: Argo (Ben Affleck)
Mixagem de Som: Os miseráveis
Direção de arte: Lincoln
Trilha sonora original: As aventuras de Pi
Canção original: Adele / 007 – Operação Skyfal
Melhor roteiro adaptado: Argo
Melhor roteiro original: Django Livre
Melhor diretor: Ang Lee – As aventuras de Pi
Melhor atriz: Jennifer Lawrence (O lado bom da vida)
Melhor ator: Daniel Day-Lewis (Lincoln)
Melhor filme: Argo