Mesmo abaixo de seus antecessores, X-Men: Apocalipse é um bom divertimento
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Em determinada passagem da produção, alguns personagens comparam Star Wars – Episódio VI: O Retorno de Jedi (1983) aos episódios passados. Chega-se à conclusão de que o terceiro filme é sempre pior. Embora não seja uma regra, como mostram O Ultimato Bourne (2007) e Capitão América – Guerra Civil (2016), o histórico das terceiras partes de trilogias não é favorável. Numa provável tentativa de provocar X-Men: O Confronto Final (2006), da franquia original, X-Men: Apocalipse (2016) acabou por se definir.

Passada uma década da aventura anterior, o mutante original En Sabah Nur (Oscar Isaac), “deus” egípcio datado de antes de Cristo, desperta de um sono profundo. Após compreender que os “fracos” dominaram o mundo, o agora rebatizado de Apocalipse inicia o processo para se firmar como o grande líder da humanidade.

Assinado por Simon Kinberg, o roteiro apresenta seu melhor momento no primeiro terço. Professor Xavier (James McAvoy) segue administrando sua escola; Mística (Jennifer Lawrence) viaja salvando outros mutantes; e Magneto (Michael Fassbender) leva uma vida pacata. Todo o arco dramático do trio é desenvolvido com profundidade e competência, parecendo seguir à risca a linguagem madura estabelecida nos dois filmes anteriores.

Porém, a trama peca ao não conseguir administrar a quantidade excessiva de informações. Os jovens Scott Summers (Tye Sheridan), Noturno (Kodi Smit-McPhee) e Jean Grey (Sophie Turner) são bem apresentados, diferente do Apocalipse. Superficial e sem qualquer imponência, ele não se guia por ações ameaçadores, mas pela vaidade de dominar o mundo. O prólogo não deixa claro se lidamos com um líder benevolente ou com um deus cruel. Até a forma como recruta seus aliados é pouco instigante ou convincente, exceto pela abordagem dada a Magneto.

Jean Grey, Noturno e Ciclope funcionam e agregam qualidade à franquia

Jean Grey, Noturno e Ciclope funcionam e agregam qualidade à franquia

O elenco é um dos pontos mais fortes. McAvoy não só é dono do melhor personagem como da melhor atuação. Sua preocupação com Xavier permite a criação de camadas palpáveis que mostram firmeza, benevolência e incertezas, tanto nas esferas externas, ao ter que lidar com um problema maior que suas capacidades, e na interna, ao se desconstruir perante seu interesse romântico ou às fraquezas de seus pupilos.

Já Fassbender é prejudicado pelo roteiro. Enquanto seu ápice vem no primeiro ato, que lhe rende uma cena espetacular, sua função narrativa cai bastante no decorrer, já que acaba se escanteando. Mesmo com uma boa motivação para se juntar ao vilão, seus atos seguintes são questionáveis e sem peso, principalmente o que o leva a tomar sua derradeira decisão.

A burocrática Lawrence parece insatisfeita com os rumos de sua Mística. Possivelmente por força contratual a vemos mais vezes sem a maquiagem, atitude que diminui a personagem perante a figura da atriz e que se contrapõe ao seu próprio discurso na narrativa. Já Isaac se esforça muito e até entrega uma atuação legal, mas é outra vítima do roteiro que transforma suas motivações dignas da caricata dupla de desenhos animados Pinky e Cérebro. No elenco mais novo, só Turner se mostra mais limitada. Sheridan e Smit-McPhee mostram-se ótimos Ciclope e Noturno, mas quem se destaca é o Mercúrio de Evan Peters.

A direção de Bryan Singer é competente, mas tem tropeços. Seu talento está no minimalismo, em tirar o melhor dos atores na dramaticidade. A pancadaria exagerada por vezes soa artificial e cansativa, alcançando a extravagância. Na busca por mais veracidade, elementos práticos se misturam com computação gráfica e algumas cenas se tornam artificiais, como quando a mal desenvolvida Psylocke (Olivia Munn) parte um carro ao meio ou quando Magneto fica envolto a pedaços de metal.

Por outro lado, o maior destaque é a sequência de Mercúrio. Embalada pela música Sweet Dreams (Are Made Of This), da banda Eurythmics, a cena até entra em momento inoportuno, quebrando bruscamente a tensão. Porém, sua plasticidade e humor fazem dela irretocável, mesmo que menos impactante já que é um upgrade da sequência vista em X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido (2014).

X-Men: Apocalipse é, de fato, o filme mais fraco dessa nova franquia iniciada em 2011, mas isso não faz dele ruim. Pesando prós e contras, é visível que suas qualidades são maiores. A pancadaria exagerada não descarta todas as sequências de ação e nem os acertos do texto. Um bom divertimento e ainda coerente com seus capítulos anteriores.

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