Minha Lista Infinita de Filmes I – ‘A Incrível Aventura de Rick Baker’ (2016)

O ano passado acabou sendo muito bom para cinéfilos. Sim, terminamos o ano discutindo La La Land, Moonlight e A Chegada, dentre outros com muitas indicações ao Oscar, mas vários pequenos filmes acabaram entrando nos Top 10 pessoais de muita gente. Capitão Fantástico (S2), Sing Street (S2S2S2), Um Cadáver para Sobreviver, Sala Verde[1], O Lagosta[1], Doris – Redescobrindo o Amor[1], Armas na Mesa, Animais Noturnos, Toni Erdmann, Quase 18, Voando Alto, Sete Minutos Depois da Meia-Noite… enfim, muita coisa boa saiu nos cinemas em 2016 e se você não assistiu a algum desses filmes, eu recomendaria qualquer um deles sem medo.

Dentre os bons lançamentos de 2016, um que escapou ao meu radar (em parte pelos notórios problemas na demora da distribuição de filmes menores no Brasil) foi o pequeno lançamento indie neozelandês Hunt for the Wilderpeople (literalmente, “caça aos selvagens”), título que foi traduzido no Brasil como A Incrível Aventura de Rick Baker (2016), um nome horripilantemente genérico e sem graça – justamente o oposto do que o filme é.

Julian Dennison, genial como nosso herói, Ricky Baker.

A Incrível Aventura de Rick Baker (aff…) é um filme estranho na medida certa e que desperta a mesma sensação que Pequena Miss Sunshine (2006) na primeira assistida: engraçado, divertido e sarcástico, mas sem insultar a inteligência; bonito e emocionante, mas sem muito açúcar. Eis um filme família que merece muito mais atenção que Smurfs e afins, mas que infelizmente nunca chega à audiência que melhor o aproveitaria.

O filme acompanha a saga de Ricky Baker (Julian Dennison, genial), um órfão maori de 12 anos, autoproclamado membro da bandidagem e especialista em fugas de lares adotivos. Ao chegar em uma nova casa, Rick é surpreendido com o carinho da “tia” Bella (Rima Te Wiata) e a rabungentisse de Hec (Sam Neil, o Dr. Grant de Jurassic Park), e acaba sentindo pela primeira vez na sua vida algum senso de pertencimento (após algumas tentativas de fuga, claro).

Mas a vida, como sabe Joseph Climber, é uma caixinha de surpresas e, numa bela manhã de sol, Bella morre vítima de um AVC. Hec, um homem do mato, analfabeto e com passagem pela cadeia, não pode ficar responsável por Ricky, que por sua vez prefere fugir e viver na floresta do que voltar ao sistema adotivo. E é neste momento que temos a guinada que dá título ao filme: o que era para ser uma missão de resgate por parte de Hec acaba se transformando em uma suspeita de sequestro para o mundo exterior. O boato de um velho ex-detento levando uma criança órfã para o meio do mato se torna sensação, realizando os sonhos mais loucos da caricata psicótica assistente social Paula (Rachel House, hilária) e de todo o noticiário do país.

Ricky e Hec (Sam Neil): truques para a vida no mato de um legítimo bushman.

Hec e Ricky agora são fugitivos em uma caçada nacional – o primeiro com medo de voltar a cadeia, o segundo com medo de ir direto para o reformatório. Buscando refúgio na natureza e forçados a contar realmente um com o outro, Hec transmite aos poucos todo seu conhecimento de sobrevivência para Ricky em uma história muito convincente de amizade e família, mas que sabe ser completamente surreal e hilária.

Rick Baker é em seu coração um filme de aventura em pequena escala, mas que trabalha aspectos dramáticos e cômicos com igual presteza. Não se furta de explorar elementos de fantasia e personagens surrealistas ao mesmo tempo em que suscita emoções genuínas diante de temas delicados, como a morte. Este é um filme que não tem medo de ser estranho, não de forma lynchiana, mas com muita sinceridade e afeição pelos personagens e pelo mundo em que habitam. Talvez isso que faça Rick Baker ser um filme tão valioso e raro hoje em dia, pois dificilmente poderia ter sido produzido por uma Disney ou outro grande estúdio. Equilibrar diversas sensações com maturidade, porém sem o cinismo típico dos filmes voltados para uma audiência mais adulta, é um desafio e tanto e Waititi faz isso com perfeição.

Ricky encontra um fã: fenômeno Maori.

Taika Waititi, que assumiu a direção de Thor: Ragnarok, chamou minha atenção pela primeira vez alguns atrás com a codireção do excelente faux documentário/reality show O Que Fazemos Nas Sombras (2014), também uma pequena produção explorando o cotidiano de um grupo de vampiros dividindo uma casa na Nova Zelândia. Waititi também é responsável pelo excelente curta Team Thor (2016), sobre o que Thor estava fazendo durante os eventos de Capitão América: Guerra Civil (2016) – pequenas coisas que somadas me fazem ter grande expectativa para um filme da Marvel pela primeira vez em muito tempo.

Waititi mostra muito amor pelo cenário neozelandês, usando e abusando das fantásticas paisagens (sim, a referência obrigatória ao Senhor dos Anéis está lá). A estrutura da história em capítulos, o que acaba aumentando o tom fantástico, de forma que o filme nos remete automaticamente a uma fábula infantil moderna. As transições e composições de cena, em que a câmera gira ao redor da floresta e personagens saem e entram na tomada em diferentes pontos também é um truque precioso. A capacidade de brincar e ser criativo com a câmera é algo que tem diferenciado grandes diretores atuais (como David Fincher e Edgar Wright) de diretores preguiçosos que escolhem dois ângulos e se dão por satisfeitos. Waititi certamente parece se enquadrar no primeiro grupo.

[1] Tecnicamente lançados em 2015, mas nos cinemas só em 2016.