MPB Jazz chega a 3ª edição fomentando o encontro entre culturas e ritmos

As várias notas musicais, aparentemente destoantes, do jazz aliadas ao lirismo e rítmica da Música Popular Brasileira se encontram na 3ª edição do MPB Jazz, realizado em Natal nos dias 30 e 31 de janeiro, a partir das 20h no Teatro Riachuelo. A edição deste ano conta com shows de Simona Talma (Natal), um tributo a Ella Fitzgerald e Louis Armstrong intitulado “The Ella & Louis Tribute Band” por Eileina Dennis e Leon Brown (Nova Orleans), Duo Taufic (Natal), Aurora Neadland (Nova Orleans), e ainda traz de volta à Natal a diva do jazz de Nova Orleans, Germaine Bazzlle.

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MPB Jazz traz tributo a Ella Fitzgerald e Louis Armstrong

O evento dividido em duas noites de shows, trará em seu primeiro dia (30) a cantora potiguar, Simona Talma. Antes de fazer parte da banda Talma & Gadelha, Simona já produzia material autoral, bebendo das fontes do jazz e blues, que pode ser conferido no seu debut, “A Moça Mais Vagal que Há” (2007). Sua voz suave e delicada narra desventuras amorosas com o tom blusístico. Em 2012 Simona lançou seu segundo álbum, “Bang”, este é um misto de referências musicais, tem de blues a samba. A cantora participou da última edição do programa global, The Voice Brasil, acabou saindo nas segunda fase, mas quem se importa, não é mesmo? Simona sobe ao palco em show com composições autorais, pra mostrar que seu trabalho é de uma qualidade acima da média.

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Simona Talma, abrirá a noite do dia 30 da 3ª edição do MPB Jazz

Ainda no dia 30, sobem ao palco dois artistas de Nova Orleans, a cantora Eileina Dennis e o trompetista e cantor Leon “Kid Chocolate” Brow, estreando o espetáculo-tributo a dois gigantes do jazz, Ella Fitzgerald e Louis Armstrong. Ella Fitzgerald é tão diva que até cantando uma música inteira no improviso, por meio de scat, enchia a plateia de um dos mais prestigiados festivais de jazz do mundo, o Festival de Montreux (Suíça). Um dos grandes gênios da música, Louis Armstrong, sempre foi afeito a improvisações. Ele inventou o scat, técnica de canto que consiste em se cantar vocalizando tanto sem palavras, quanto com palavras sem sentido e sílabas. Ella e Armstrong são dois ícones da música mundial e grandes expoentes do gênero musical.

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O desafio de Eileina Dennis e de Leon Brown no MPB Jazz é tremendo, não é todo mundo que consegue tocar o repertório da Primeira Dama e do gênio do jazz. Dennis, como boa parte das cantoras norte-americanas, começou cantando música gospel na igreja. Em 2000 iniciou sua carreira profissionalmente como jazzista e logo recebeu os prêmios “Excellence In Jazz Music” e “Jazz Female Vocalist of the Year”, em 2002. Pouco tempo depois, ela foi presenteada com o prêmio de “Best Jazz Performance of the Year”, também em 2002, que por sua vez a colocou como uma das participantes da 15 ª anual Long Beach Jazz Festival 2002. Seu parceiro de palco, Leon, é um dos nomes mais promissores do cenário atual de Nova Orleans, o trompetista já tocou em várias das Big Bands da cidade. Assim como Armstrong, Leon também canta e seu som é um misto de jazz tradicional, jazz moderno, e funk.

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Os irmãos Roberto e Eduardo Taufic, formam o Duo Taufic que se apresenta dia 31

No segundo  e último dia do festival (31), os irmãos Eduardo (piano) e Roberto Taufic (violão) são a atração local, com o seu projeto musical, Duo Taufic. A união do piano e violão gera uma sonoridade peculiar e digna de elogios dos maiores nomes da música instrumental brasileira, como Egberto Gismonti, Hermeto Pascoal e o pianista, cantor e compositor, Ivan Lins. Prestigiados nacionalmente e internacionalmente, os irmãos trazem em seu repertório um material autoral, retirado do álbum “Bate Rebate” (2011). Confesso que conheço pouca coisa do projeto dos irmãos, mas do que pude conferir, estou ansiosa para ver o destrinchar de notas, frases e harmonias musicais.

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Aurora Nealand, instrumentista da nova geração do jazz de Nova Orleans

O público será brindado com um dos destaques da nova geração do jazz de Nova Orleans, Aurora Nealand, mostrando, em seu repertório, o jazz tradicional, repleto de vida e improvisações de sax e clarinete. A instrumentista e também cantora já teve músicas na trilha sonora da série da HBO, “Treme”. O som de Nealand é um jazz festivo e vibrante, certamente fará a plateia do teatro se levantar e querer dançar ao melhor estilo dos salões dos anos vinte em Louisiana.

40TH ANNIVERSARY NEW ORLEANS JAZZ & HERITAGE FESTIVAL
Pela segunda vez em Natal, Germaine Bazzle encerra a noite do 3º MPB Jazz

Encerrando a noite do dia 31, Germaine Bazzle sobe ao palco com toda sua graça e presença. A senhora sorridente com energia de dar inveja é a mais bem sucedida das cantoras mainstream norte-americanas: Bazzle é um dos ícones da música de Nova Orleans. Na edição do MPB Jazz do ano passado, a cantora foi ovacionada e como gente de qualidade e boa música nunca é demais, nada mais justo do que convidá-la novamente. Seu talento para fazer scats é tão natural quanto o de divas do jazz à la Ella Fitzgerald e Sarah Vaughan. Tendo em vista o potencial musical de Nova Orleans, destacar-se em meio a diversos musicistas e cantores talentosos é um feito para poucos. Germaine se apresenta acompanhada pela banda 504 Experience e promete um show digno de elogios, novamente.

Nova Orleans, o berço do Jazz

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Imagine um lugar onde exista música para todas as ocasiões. Agora imagine que nas ruas, nos bares, nos parques desse lugar tenha um musicistas tocando ritmos que vão desde os mais festivos, passando por ritmos mais suingados à base de improviso, até canções sedutoras cantadas por charmosas mulheres. Pois bem, assim Nova Orleans é descrita por muitos. O jazz surgiu nesta cidade, num contexto multicultural, no início do século XX. O gênero musical se desenvolveu com a mistura de várias tradições musicais, em particular a afro-americana. Incorporando blue notes, chamada e resposta, forma sincopada (em português claro: supressão de letras ou sílabas no meio das palavras, vulgo, abreviação) polirritmia (uso simultâneo de duas ou mais estruturas rítmicas) , improvisação e notas com swing do ragtime (ritmos mais dançantes e variações do gênero de grande popularidade), o jazz se firmou como um dos principais legados culturais dos EUA.

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Charlie Parker, saxofonista criador do jazz bebop

O jazz é um gênero musical extremamente abrangente, os críticos musicais, produtores e artistas divergem por diversas vezes para defini-lo. Em meados da década de 1930, amantes do jazz de Nova Orleans criticaram as “inovações” da era do swing como contrárias à improvisação coletiva, que eles diziam ser essencial para a natureza do “verdadeiro” jazz. Nas décadas de 40, 50 e 60 eis que novos musicistas de jazz criaram uma nova forma de tocar, surgia o Bebop, sendo uma das correntes mais inovadoras e criativas do gênero musical. O bebop privilegia os pequenos conjuntos, como os trios, os quartetos e os solistas de grande virtuosismo. Os expoentes dessa vertente são: Charlie Parker (saxofonista e fundador da vertente), Thelonius Monk (pianista), Miles Davis (trompetista), John Coltrane (saxofonista), entre outros.

O período da lei seca, em que a venda de bebidas alcoólicas nos Estados Unidos era proibida, de 1920 a 1933, resultou na criação dos “speakeasies”, locais onde a bebida era vendida ilegalmente. Esses estabelecimentos acabaram sendo grandes difusores do jazz, que, por isso, ganhou a reputação de ser um estilo musical imoral. Porque como diria o Tremendão, Erasmo Carlos, “tudo que eu gosto, é imoral, é ilegal ou engorda”. Neste período também a Original Creole Jazz Band se tornou a primeira banda de jazz de músicos negros de Nova Orleans a fazer gravações.

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Esperanza Spalding, contrabaixista representante da nova geração do jazz

A música dos negros, “criolos”, mestiços da colonização francesa, inglesa e africana em Nova Orleans deu origem a um gênero musical riquíssimo que é tocado por bandas marciais, até o mais charmoso  interprete do gênero, Frank Sinatra. O jazz é o tipo de música que é capaz de absorver diversas referências musicais, tanto que é possível dizer que jazz vai desde Charlie Parker, passando por Billie Holiday, Amy Winehouse, Esperanza Spalding até Norah Jones.

Influências do jazz na música brasileira

Tom Jobim e FRank Sinatra_Divulgação
Frank Sinatra e Tom Jobim

A princípio quando se pensa em jazz e música brasileira bate aquela sensação de distanciamento, tanto geográfico como cultural. No entanto,  o jazz e a música brasileira têm muito em comum, a começar pelas próprias origens africanas, firmadas após a chegada dos escravos no Brasil e nos Estados Unidos. Mas o que de fato relaciona a música brasileira com o jazz?

As relações entre o jazz e a música brasileira são muito mais íntimas do que aparentam. Suas origens são exatamente as mesmas, provenientes da cultura negra trazida pelos escravos africanos originários das mesmas regiões da costa ocidental do continente africano. O que amenizava o sofrimento dos escravos era o canto que entoavam durante o trabalho, os lamentos à noite, os cânticos religiosos e a música de ninar das mães escravas.

Os processos musicais e suas vertentes foram distintos. No Brasil, a colonização portuguesa nos deixou heranças e costumes, culturais e musicais de Portugal que se fundiram com os costumes dos nativos e escravos africanos. Os EUA tiveram colonização inglesa e francesa, principalmente no estado de Louisiana. Os escravos fundiram suas referências com elementos da herança francesa dos colonos e logo o tronco africano e cultural entre Brasil e EUA foi quebrado, pelas diferentes colonizações. No Brasil, foram os ritmos da música folclórica portuguesa os primeiros sintomas a influenciarem as raízes africanas.

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Orquestra de Glenn Miller

O cinema sonoro propagou a música americana em todo o mundo e no Brasil não foi diferente, principalmente a partir dos anos 40 com as presenças em filmes musicais das orquestras de Glenn Miller, Artie Shaw, Tommy Dorsey, Benny Goodman e Harry James. Foi quando surgiram as orquestras de Napoleão Tavares, Silvio Mazzuca, Zaccarias e os Mid-Nighters, Peruzzi e a famosa Tabajara, cujo líder e clarinetista Severino Araújo foi influenciado por Benny Goodman – essas foram as primeiras orquestras brasileiras. A influência do jazz acentuou-se cada vez mais em nossos instrumentistas, com exceção dos intérpretes de choro, da música tradicional e dos ritmos nordestinos.

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João Gilberto (ao centro) criador da Bossa Nova

Em 1958, a bossa nova conquistou imediatamente a juventude brasileira, ocasionando uma radical transformação melódico-harmônico-rítmica na nossa música popular, inaugurando o período moderno da MPB e imaginem vocês o “jazz à brasileira”, ou melhor dizendo, a interpretação brasileira do jazz, composto por grandes nomes como: João Gilberto, Vinícius de Moraes e Antônio Carlos Jobim. A bossa nova, era derivada do samba e com forte influência do jazz. Alguns críticos musicais destacam uma certa influência que a cultura americana pós-guerra, de músicos como Stan Kenton, teve na bossa nova, especialmente do cool jazz e bebop.

SERVIÇO:

Ingressos: A partir de R$ 15,00 (meia entrada)
Data: 30 e 31 de janeiro de 2014
Local: Teatro Riachuelo
Hora: 20h (abertura das portas 1h antes)

 Atrações:
 30/01: Simona Talma e The Ella & Louis Tribute Band com Eilleina Dennis e Leon “Kid Chocolate” Brown.
31/01: Duo Taufic, Aurora Neadland e Germaine Bazzle com 504 Experience.

Patrocínio: COSERN, Governo do Estado via Lei Câmara Cascudo de Incentivo à Cultura.
Classificação: 16 anos
Realização: Green Point