Muito mais polêmico, “Ninfomaníaca Volume II” mostra o conflito da sexualidade humana com as convenções sociais

Alguns momentos antes do filme começar, os espectadores foram surpreendidos com dizeres brancos na tela preta. Uma mensagem em inglês alertou para o fato de que o filme havia sido censurado. A mensagem também esclareceu que o diretor – o polêmico Lars Von Trier – havia concordado com os cortes, mesmo que ele não estivesse envolvido diretamente com eles. Ok. Todo mundo que foi assistir à segunda parte de Ninfomaníaca já sabia disso. Afinal, a campanha promocional do filme foi tão intensa e polêmica que qualquer rumor se tornava uma grande notícia. Mas a baita surpresa fica por conta da impressão do espectador ao deixar a sessão, pois ele chega a conclusão de que, literalmente, “Ninfomaníaca – Volume I” e “Ninfomaníaca – Volume II” são dois filmes bem diferentes.

A organização do filme em capítulos permanece inalterada. A Joe mais velha (Charlotte Gainsbourg) narra a história de sua vida a Seligman (Stellan Skarsgard), que estabelece digressões para explicar racionalmente cada passo da vida da ninfomaníaca. Mas elas vão ficando cada vez mais rarefeitas e absurdas ao longo do filme e, por isso, são motivo de deboche dos próprios personagens. Um exemplo disso é observado com relação a metáfora feita ao alpinista Prusnik (criador do primeiro nó de cordas de grande utilidade em sistemas de segurança), classificada por Joe como uma “das comparações mais fracas”. O sagaz Von Trier debocha dos espectadores que levaram tão a sério a estrutura de digressões tão característica do primeiro filme.

eaa2865055724d6fb47f4d47afd8513f
Cenas fortes compõem grande parte de “Ninfomaníaca – Volume II”

Outra herança que é deixada de lado são os momentos de humor, que tão bem caracterizaram “Ninfomaníaca – Volume I”. Na segunda parte, posso rapidamente destacar as duas únicas partes engraçadas. A primeira é a cena do restaurante – na qual Jerôme (Shia LaBeouf) ordena que Joe (ainda na fase jovem, interpretada por Stacy Martin) introduza na vagina uma colher. Ela obedece com afinco e ainda desafia o namorado, colocando não apenas um, mas vários desses objetos. E a segunda se refere a uma cena que prometia ser uma das mais polêmicas do filme: o menage à trois com dois homens fortes e negros. No momento de decidir quem (e de que forma) vai penetrar Joe, os dois discutem em uma língua que não é o inglês, fazendo dessa sequência uma das mais confusas e broxantes da história do cinema.

ninfomaníaca-volume-2-6
Menage à trois com negros: uma das cenas mais broxantes e engraçadas da segunda parte da história de Joe

O foco deste segundo filme é oferecer ao espectador valiosas reflexões sobre o moralismo. Dois destes discursos merecem atenção. No primeiro, Lars Von Trier aponta para a sociedade machista em que, infelizmente, ainda vivemos. Se a personagem principal do filme fosse um homem, suas atitudes seriam menos (ou não seriam) questionadas pela sociedade? Esse homem em questão teria que abrir mão do casamento e do filho por causa do vício em sexo? Von Trier mostra Joe e Jerôme tentando viver juntos, evidentemente que com suas adaptações. Por um descuido da ninfomaníaca com a pílula, o casal tem um filho. Nessa mesma parte, é revelado que Joe havia perdido o prazer durante o ato sexual e, por causa disso, decide procurar K (Jamie Bell), um sádico do tipo extremamente metódico. Na cena mais forte (e difícil de ver) do filme, Joe esfrega-se em livros enquanto é chicoteada por K. É assim que ela redescobre o prazer. Mas, ao voltar para casa depois de ter abandonado o lar e deixado o filho em apuros, Jerôme cobra dela a árdua decisão de viver “em família” ou continuar a alimentar o vício. Vale salientar aqui que, nesta sequência, o diretor faz uma referência ao filme mais polêmico de toda sua filmografia, “Anticristo” (2009).

1ninfomaniaca
O tema central de “Ninfomaníaca – Parte II” é as contradições entre a viciada Joe e o virgem Seligman

Outro diálogo que questiona a moral é quando Joe conta ter feito sexo oral (captado de forma explícita pela câmera) em um potencial pedófilo por pena. Ela é imediatamente repreendida por Seligman, que fica horrorizado ao ouvir isso. Em seu contra-argumento, Joe relativiza esse comportamento ao oferecer um discurso sobre a compressão da sexualidade humana: “É porque você pensa apenas nos 5% que realmente machucam crianças. Os demais 95% nunca viveram suas fantasias. O pedófilo, que consegue lidar com a vergonha do desejo enquanto nunca agiu, merece uma medalha de honra”.

A discussão sobre a moral está presente não apenas na construção dos personagens, mas também na relação entre eles. Quem assistiu à primeira parte e cogitou que Seligman é virgem, acertou. O aspecto “sabichão” do homem não é à toa: ele não cede à libido, encontrando prazer no pensamento – seja ele moral, religioso, científico, político ou institucional – produzido pelo homem e, por isso, ele é puramente racional e social. Joe é puramente emocional (não quis dizer “sentimental”) e individual, criticada pela sociedade por não ter aberto mão dos seus desejos. Os dois são contraditórios. Concordo com o crítico Georgenor Neto, do site Cine Pop, que sintetizou os dois volumes de “Ninfomaníaca” como o embate entre os desejos do indivíduo e os mecanismos sociais que os limitam. No Vol. 1, as metáforas tentam limitar o desejo e no Vol. 2 entram em debate as consequências desse confronto.

498947.jpg-r_640_600-b_1_D6D6D6-f_jpg-q_x-xxyxx
Stacy Martin e Shia LaBeouf em cena: filme tem problemas na passagem de tempo

Mas o que seria do homem sem a regulação das condições sociais? Uma melancólica destruição, que eu acredito que tenha sido a verdadeira intenção de Lars Von Trier ao narrar a história de Joe. Em outras palavras, o diretor tece uma ferrenha crítica as amarras sociais, mas admite metaforicamente que a vida em sociedade sem elas é impossível. Tão impossível que o certinho Seligman, ao se desvirtuar apenas um pouquinho, recebe o desfecho mais nocivo e surpreendente de todo o filme.

Cinemascope-Ninfomaniaca-4
Jamie Bell (o eterno Billie Elliot) interpreta o sádico K, a quem Joe recorre para redescobrir o prazer sexual

Mas a desgraça não fica apenas no plano da reflexão. “Ninfomaníaca – Volume II” tem falhas notáveis na passagem de tempo: no meio do filme, Joe muda radicalmente de aparência (Stacy Martin é repentinamente trocada por Charlotte Gainsbourg), mas Jerome permanece sendo interpretado por Shia LaBeouf. Nas últimas cenas, no entanto, quem aparece interpretando o personagem é o ator Michael Pas, causando estranheza nos espectadores que só conseguem identificar que se trata de Jerôme por causa do nome escrito numa porta. Ainda é importante registrar que a participação de Willen Dafoe foi completamente subaproveitada, se comparada com as atuações de Jamie Bell (“Ninfomaníaca Volume II”) e Uma Thurman (“Ninfomaníaca Volume I”). Mesmo assim, as imperfeições não atrapalham a condução do tema central e não impedem que o espectador chegue à conclusão de que “Ninfomaníaca” é um filme para se pensar e não mais um “pornozinho” do cinema.