Nenhum abismo entre Priscila Merizzio e a poesia

Priscila Merizzio nasceu no ano do búfalo. É curitibana, vivendo em Curitiba e sendo provocada, todos os dias, pelo mundo. Ela começou a escrever poesia desde queando foi convidada pelo escritor Ricardo Corona a participar da Bienal Internacional de Curitiba. Daí, surgiu seu primeiro livro: Minimoabismo, publicado em agosto pela Editora Patuá, que vem fazendo um ótimo serviço à poesia brasileira.

Priscila também é do time das Escritoras Suicidas, espaço onde possui uma coluna. Já publicou na Germina poemas e entrevistas que fez com Toninho Vaz e Marcelo Tas e na Mallarmagens. Isso pra não contar tudo, risos.

O CHAPLIN bateu um papo com ela sobre tudo de mais interessante. Confira:

O CHAPLIN: Você mora sozinha? Como é 1978866_1578040705742461_2288641070896195712_nseu dia-a-dia?

Moro praticamente só. Em meu dia-a-dia, oscilo entre trabalhar, cumprir as funções domésticas (bleargh), passeios pela vizinhança com Pérola, minha cachorra, compromissos na rua e tudo o mais –– minhas escapadelas secretas (risos). Tem dias que não tenho a menor ideia do que vai acontecer e fico bem ao sabor do vento. Noutros, fico trancafiada o dia todo, trabalhando. Tem dias que saio de manhã e volto de madrugada. No entanto, tenho meu rigor nessa rotina levemente volátil. Sou cheia de hábitos, métodos, manias, desafios internos. Desconto muito essas obsessões na escrita. Passo uma imagem bem geminiana às pessoas, contudo, quem me conhece intimamente sabe que tenho uma sombra saturnina pairando sobre mim. Na poesia exponho bastante esse lado, creio. Pra mim, qualquer atividade quase diária que me dá prazer é um hobbie. Yoga, filmes e escrever, por exemplo.

 O CHAPLIN: Conta alguma curiosidade sobre  seu processo criativo!

Eu costumo escrever poemas melhores quando estou no período pré-menstrual. Sei que não deveria comentar essas intimidades publicamente, mas é a mais pura verdade.

O CHAPLIN: Antes de escrever seu primeiro poema, você já lia poesia? Gostava?

Não lia muita poesia. Minha atenção sempre foi mais voltada à prosa. Tentei escrever dois poemas em 2012, no projeto pós-horóscopo do Saturnália Astrologia & Cidade, do João Acuio. Estudei sobre a Lua em Peixes e tentei ser meio surreal. Os dois ficaram uma prosa meio poética em diagramação de poesia. Deixei quieto, não tentei mais escrever poemas porque senti que não me sentia nem um pouco à vontade nessas geografias. Até que no final de 2013, na mesma semana, surgiram 1780641_1578041359075729_6516872419800833760_ndois convites: um, para publicar um poema na Revista Eutomia – Revista de Literatura e Linguística e outro, para eu participar da Bienal Internacional de Curitiba 2013. Eu tinha que enviar poemas aos dois. Na Eutomia eu me soltei mais e enviei um poema meio prosa poética, mais ou menos como os que havia escrito ao Saturnália. Por causa da pressão interna, quase dei para trás ao convite da Bienal. Porém, faltando um dia para o prazo de entrega (tive mais de um mês para escrever), o poema saiu. Foi a partir dessas duas experiências que passei a me interessar realmente pela poesia e virei uma devoradora de livros de poemas.

 O CHAPLIN: E hoje em dia, o que você curte ler?

Fiquei tão fissurada na poesia que hoje em dia leio mais poemas ou prosas poéticas do que livros de prosa. Ando meio impaciente para romances ou novelas. Deve ter a ver com a fase da vida em que estou, mais solta, ao ar livre. Ando mais imagética, “lendo” fotografias, quadros, filmes, as pessoas, as cenas da vida. E livros de poesia.

O CHAPLIN: Como é que rola o trabalho no Escritoras Suicidas? E na Germina?

Ah, eu sou suspeita para falar. A Germina foi a primeira revista a me publicar e vou levar isso para sempre, pois foi a partir dela que tudo começou para mim na literatura. Tenho muito amor por ela. Em nome da revista, já entrevistei Toninho Vaz e Marcelo Tas (do Tas foi gravada). Já indiquei pessoas. Tanto que hoje, sou colaboradora e envio indicações à Silvana Guimarães, principalmente de gente que está começando, que tem pouca aparição. Fico por aí, como anônima, observando o que está sendo feito. Às vezes indico amigos, de cuja escrita eu gosto. Para a edição de dezembro de 2014 (que irá ao ar em breve) comecei a colaborar “oficialmente”, e convidei diretamente alguns colunistas, poetas, fotógrafos. Tudo sob a tutela de Silvana, claro. Ela é quem dá a palavra final. Sinto-me feliz por fazer parte do time das Escritoras Suicidas. Fico tão empolgada quando recebo e-mail com os temas da próxima edição. Desde que faço parte das Suicidas, escrevo inéditos. Não adapto ou reaproveito nada. É engraçado porque, tirando um poema que escrevi na edição de dezembro de 2013, só escrevi prosa. Nas Suicidas gosto de escrever prosa. Não sei por quê. A última edição foi ilustrada com fotografias de minha autoria (e eu não sou fotógrafa profissional, estou sempre na condição de voyeur das coisas). Como vê, tenho mil razões para querer bem o corpo editorial da Germina e das Suicidas.

 O CHAPLIN: Sua poesia é bem ácida e, na época que surgiu a Nanda Prietto – um fenômeno à parte -, você foi colocada na mesma ”categoria” que ela. O que acha disso?

Saudade de Nanda Prietto. Que ela esteja mais feliz lá do que aqui (suspiros). Não vi fim melhor para ela. Tudo foi como tinha de ser. Sobre ser colocada na mesma categoria que a dela: talvez nós duas tenhamos o mesmo mote temático, o mesmo estereótipo, já que minha adolescência foi parecida com a dela. Porém, o títere por trás de Nanda Prietto é imensamente mais experiente do que eu e conseguiu atingir níveis estéticos e temáticos com uma maestria infinitamente superior à minha.

''Minimoabismo'' é o primeiro livro de Priscila, publicado pela Ed. Patuá
”Minimoabismo” é o primeiro livro de Priscila, publicado pela Ed. Patuá

O CHALIN: Desde seu primeiro poema escrito até o momento de decidir publicar um livro, como foi sua relação com a poesia, com o poema?

 Confesso que nunca imaginei que publicaria um livro tão cedo. Ainda mais de poemas. Quando digo “cedo”, me refiro ao fato de que fazia mais ou menos dois anos que eu publicava textos na internet quando surgiu a chance de publicar um livro pela editora Patuá. Eu não pensava muito em publicar um livro e, quando pensava no assunto, flertava com uma ideia distante de um dia escrever um romance. Contudo, pensar em escrever um romance parecia-me uma ideia bem distante mesmo, quase uma relação platônica. No fim, acredito que as coisas foram como tinham que ser, que a literatura faz parte desses mistérios do destino. Pelo menos minha experiência é essa, de um acaso. No fundo, acho que eu sentia muita insegurança em publicar um livro, já que tem tanta gente boa escrevendo e eu me considerava apenas uma iniciante. Um lance de baixa autoestima como escritora. Na minha cabeça, existiria aquele momento sublime e de epifania em que eu sairia da caverna madura, sábia, experiente e diria: “agora é o momento de publicar um livro”. E as coisas aconteceram diferente do que eu pensava. Tive duas pessoas que me aconselharam a publicar jovem, a não esperar demais por esse momento especial, que ele nunca aconteceria. Que era uma ilusão da minha parte pensar que um dia eu seria uma “escritora pronta” e que então eu sairia publicando verdadeiras obras literárias a torto e a direito. E me deram muitos exemplos de escritores consagrados, inclusive os cânones. Me convenci, então, de que escrever é prática, que tem erro e acerto. Que o importante é meter a cara e ir se arriscando, independente de deslanchar ou não. Escrever tem muito a ver com ego, né? No meio disso tudo, aconteceu algo bem doido. Fazia alguns meses que eu observava a página da Patuá, que conversava com alguns amigos escritores sobre o que significa publicar um livro e observava vários escritores publicando, que inconscientemente escarafunchava essas questões. Até que tive um sonho com o Eduardo Lacerda (editor da Patuá). Quando acordei, impulsivamente, procurei-o, reproduzi esse sonho onírico. Perguntei como funcionava para publicar um livro pela editora. E ele foi muito gentil e receptivo, disse que gostava dos meus textos, etc. Me peguei dizendo a ele que gostaria de publicar um livro de poemas. Embora eu tivesse pouquíssimo tempo de estrada arriscando na poesia, aquele era meu desejo atual na escrita e teria sido contra a natureza daquele momento dizer o contrário.

“Me convenci, então, de que escrever é prática, que tem erro e acerto. Que o importante é meter a cara e ir se arriscando, independente de deslanchar ou não”.

O CHAPLIN: Como foi o processo de escrita do Minimoabismo? E como você selecionou os poemas dele?

Minimoabismo tem menos de 30 poemas, já que fazia menos de um ano que eu me dedicava em tentar escrever poemas. Quase tudo o que escrevi nesse período foi para o livro. Também escrevi uns 6 poemas inéditos para ele. O processo de escrita foi natural. Quase toda semana eu rascunhava algum poema depois de sair da sessão de análise. O extenuante foi editar esses poemas para que o livro ficasse o mais sóbrio possível, dentro de algum estilo próprio que eu demonstrava. Muitos poemas que eu chamava de poemas, antes de serem lapidados, eram prosas formatadas como poesia. Denominações estilísticas que fui aprendendo. Nada contra quem faz isso, já que cada um tem seu estilo. Mas a mim incomodava perceber essas características em meus poemas. Alguns deles, que estão no livro, ainda são prosas poéticas descaradas e quase não mexi neles, porque essas eram sua essência. Trabalhei bastante em cima do arquivo. Havia alguns dramalhões piegas, muita coisa dispensável, já que eu havia escrito os tais poemas espontaneamente. Revisitei cada um dentro do tempo que propus a mim mesma para efetuar retoques. Durante uma semana, me debrucei sobre livros de teoria da poesia, teoria da estética. Também conversei muito com um amigo poeta que entende demais do assunto e que, além disso, escreve poemas excelentes. Ele me deu verdadeiras oficinas literárias enquanto me ajudava a lapidar alguns poemas. Em Minimoabismo descontei todo o meu perfeccionismo (eufemismo carinhoso para obsessão). Quem viu o antes e depois dos poemas ficou espantado. Uns gostaram muito das melhorias, outros preferiram a versão anterior. Pessoalmente, gosto muito mais dos poemas depois de trabalhados. Não sou pupila de João Cabral de Melo Neto, mas acho importante preocupar-se com a revisão e com a lapidação dos textos, ainda mais para pessoas que, como eu, não sentam e já escrevem poemas prontos. Todo texto sempre pode ser melhorado.  Minimoabismo foi um aprendizado para mim.

O CHAPLIN:  Você participa de saraus, leituras de poemas? Quais suas impressões com a poesia oral?

No momento, por demandas pessoais, não tenho frequentado tanto saraus ou rodas de leituras de poemas. Já pensei bastante a respeito nesse assunto e concluí que esses eventos são de extrema importância. Aqui em Curitiba tem o Vox Urbe, que é um evento literário semanal com curadoria de Ricardo Pozzo e que é um projeto excelente, que reúne artistas diversos (escrita, música, fotografia, pintura, teatro) não só da cidade, mas de toda a parte do Brasil (e mundo). Rola muita inteiração lá, parcerias, ideias para agitar a cidade culturalmente. Tem também o Sarau Popular, organizado por Getulio Guerra e Luiz Carlos Brizola, que consiste em leituras de poemas e todo tipo de manifestação artística à comunidade em geral, a pessoas que não estão envolvidas com o meio artístico. É um público bem variado, o que, para mim, torna a ideia muitíssimo interessante, pois dissemina a poesia para vários fronts (hip-hop, sertanejo, gospel, sanfona e qualquer estilo que queira participar). Existe o Chá com Poesia, que é iniciativa e criação de Diviane Helena e muitos outros saraus organizados por grupos literários diversos que existem na cidade, como o coletivo Meninas Que Escrevem Em Curitiba que volta e meia organizam saraus bem bacanas. A maioria deles com microfone aberto. Em São Paulo também acontecem diversos eventos literários de leituras. Acho todos eles de extrema valia e por mim, quanto mais saraus e eventos de leitura de poesia existirem, melhor. Ainda mais com o intuito de captar pessoas que não escrevem e que nem têm o hábito de ler. É uma bela forma de lutar pela parte cultural do país. Ontem, lendo uma entrevista que Micheliny Verunschk concedeu a um espaço, me peguei pensando novamente nesse assunto e para responder à sua pergunta sobre poesia oral vou reproduzir o que ela disse. “A poesia nasceu para o corpo: nasceu para ser falada, cantada, dançada. Chegamos ao ponto em que muitos poetas, presos ao estatuto do papel e da palavra escrita no papel, leem seus poemas como se cada um deles não fosse único, não exigissem, cada um, uma respiração diferente, uma voz própria. É um desconhecimento do corpo, basicamente. E do papel do corpo para a feitura do texto. Um poema (ou qualquer texto) só está pronto para mim se passar pelo crivo do corpo. Tudo dito em voz alta”. Pensando nisso que Micheliny disse, de a poesia expandir através e principalmente do corpo, lembrei imediatamente que em Curitiba existe a Casa Selvática, que é um espaço que recebe vários grupos artísticos, inclusive os da literatura. Eles são um conglomerado de artistas de diversas áreas, das artes cênicas às visuais e encenam textos cânones, consagrados e também de autoria própria e de escritores pouco conhecidos na cena literária, através de leituras a partir de seus próprios pensamentos e propostas. A proposta deles me atrai bastante e penso que ela está inteiramente inclusa no que se pode considerar leitura de poemas e saraus literários. Só que eles fazem isso, penso eu, de uma forma bem anarquista. A Casa Selvática discute muito a questão dos gêneros, da padronização e dos limites que a sociedade quer pôr ao corpo. Exploram o grotesco e criam bastante polêmica para quem não está alinhado na sintonia deles. Pra mim, o trabalho que a Casa Selvática faz encarna a literatura exalando através dos poros em potência máxima.

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